Lendo a carta da Flávia B. Anselmo Franzoi no JC desse domingo, pude constatar que ela é uma pessoa muito bem esclarecida e que até entendi o seu ponto de vista. Entretanto, por eu ser homossexual, posso falar com alguma propriedade sobre esse assunto. Quando insisto que o crime contra a travesti Evelyn foi um ato de homofobia é porque, desde que me assumi gay, sinto na pele os efeitos do preconceito e da intolerância.
Ao vermos uma travesti se prostituindo nas ruas, vamos logo deduzindo que elas estão ali por gostarem daquela profissão e por acharem que aquela vida é fácil. Tal avaliação já denota um preconceito. É provável que existam algumas poucas que optaram pelos riscos da prostituição. Contudo, na maioria dos casos, elas abandonam os estudos desde muito cedo devido ao fato de não suportarem a tortura psicológica que resulta das chacotas na escola. Sofrem intolerância da família que não as compreende e, na maioria das vezes, as expulsam de casa.
Nem as igrejas, nem o Estado prestam apoio. Essas instituições que poderiam ser um refúgio não só as abandonam como as condenam, pelo simples fato de terem nascido gay. Isoladas como páreas, o que resta para a maioria dessa população é ganhar a vida na rua e viver os seus perigos. Se tivéssemos uma escola que fizesse a inclusão social dessas pessoas, se as famílias fossem mais tolerantes, as empresas menos preconceituosas e as igrejas praticassem o que Jesus Cristo nos ensinou: "amarás ao teu próximo como a ti mesmo", com certeza teríamos uma realidade bem diferente da atual.
Nas suas palavras você tenta demonstrar que não tem preconceitos, mas colocar que o homossexual tem obrigação de ser o melhor no que faz, já demonstra certa intolerância aos pobres e fracassados. Muitas vezes, os gays são os melhores, isso pelo seu esforço pessoal. Existem casos de travestis que ganharam fama internacional, mas longe de ser uma obrigação, isso é a soma de talento, sorte e oportunidade dada a poucos.
Achar que um gay bem-sucedido deve ser melhor, demonstra preconceito contra os pobres. Sabemos que a sociedade é intolerante com os desafortunados e que os trata como lixo. Tal comentário parece uma piada que diz que rico quando rouba é cleptomaníaco e pobre é ladrão. Homossexual rico é cross dresser. O pobre é travesti de rua e, por isso, pode levar cuspida.
Enfim, respeito a sua opinião, mas não poderia deixar de expor a minha também, afinal, só quem é gay sabe o quanto sofremos e o quanto é difícil a nossa jornada. Seguimos na luta!
Marcos Souza - Presidente da Associação Bauru pela Diversidade