Toda vez que o Carnaval bate às nossas portas, a mesma ladainha de sempre é desferida por alguns conservadores instalados dentro de algumas igrejas (nem todas). Ações e mais ações contrárias aos Festejos de Momo, insanidade total, pois talvez poucos entendam lhufas das origens religiosas do feriado. Ser profano também revela certo grau de religiosidade.
Ouço muitos apregoarem ser essa uma festa pagã, a reverenciar os prazeres da carne (que carne, afinal?), bestialização do ser humano, algo a provocar o distanciamento dos fiéis dos templos etc. Fico cá no meu canto, cada vez mais ciente de que o ser humano desaprende tudo com uma estonteante rapidez. E cria outras formas de aprendizado, algumas ao seu bel prazer e em benefício próprio. Tanta igreja hoje vive em função do soldo, frontalmente contrário ao ensinamento do dito criador da maioria delas.
Além de suas revolucionárias ações, Jesus conviveu pacificamente com prostitutas, rufiões, mendigos, algo que nos cultos atuais fazem questão de omitir. Com o Carnaval, a mesma coisa. A festa é cria da igreja católica e deveria ser por ela reverenciada, não menosprezada. Tudo começou de uma forma meio sem querer, até pegar forma. Durante o período da Idade Média, após a praxe dos 40 dias de abstinência e jejuns da Quaresma, os estoques de carne dos mosteiros estavam lotados. A ordem era esvaziar, zerar as despensas e a justificativa das mais louváveis. Ou se comia tudo ou tudo se estragaria. E assim a comilança era liberada e todos se fartavam (nos mosteiros, diga-se de passagem, só entre eles). O auge do festim era na terça-feira gorda. Nesse dia, passava-se dos limites, tudo sob as bênçãos da Santa Madre Igreja. Essas as origens.
Já nos dias de hoje, alguns fogem do Carnaval como o diabo da cruz. Não é de se estranhar, pois dizem que a entrada do verdadeiro Jesus não seria permitida na sede da maioria das atuais igrejas. A festa sempre foi boa e o que deve ser evitado não é o adentrar nela, mas o seu uso desmedido, os excessos. Mas isso, como muito bem sabemos, deve ser evitado em tudo que fazemos nessa vida. Diversão garantida nos próximos dias, com moderação.
Henrique Perazzi de Aquino, professor de História e jornalista