09 de julho de 2026
Articulistas

Somos o eco de muitas vidas...

Luiz da Cunha Seabra
| Tempo de leitura: 3 min

Sabemos bem de nosso pai, mãe, avós... No máximo, chegamos aos bisavós. E os outros? Todos aqueles que passaram por guerras, gripe espanhola e outras epidemias e pandemias, genocídios, tudo o que, ao longo do tempo, devastou milhões de vidas ainda jovens... Guerreiros que foram capazes de entregar à vida a semente que, em um longo encadeamento de gerações, se transformou no projeto da vida que hoje somos...

Na celeridade em que vivemos, cada vez mais rápido o passado se torna "noite dos tempos"... Tomados pela correria, desatentamente, aprendemos com nossa "civilização" alienante a excluir quem nos permitiu vir a ser. Seus nomes? Não, não é fundamental que saibamos seus nomes. Poucos aprenderam a pesquisar sua árvore genealógica ao ponto de descobrir os nomes e o tempo daqueles que os precederam. Mas isso não impede que a lembrança, a reverência às vidas todas que engendraram a nossa vida esteja presente em nossa consciência. Que, mesmo sem fotos ou nomes, possamos homenageá-los, como são cultuados os heróis desconhecidos. No contato e no cuidado amoroso com pais, avós, aqueles que ainda corporificam a essência dos que, no tempo, nos legaram a vida. Um pensamento agradecido. A oferenda de uma prece em silêncio. Olhando o céu. Passeando nos jardins. Vendo o nascer do sol ou o entardecer. Nas paisagens deste mundo, enquanto, em nosso corpo, somos ainda um tipo de "lugar" dentro do planeta, tenhamos na memória os que não deveriam jamais dela ser exilados. Aí eles devem viver.

Essa exclusão não ocorre em todas as formas de civilização.

É sabido que no Oriente, tomando como exemplo o Japão, com todo o animismo xintoísta, há um verdadeiro culto aos ancestrais. Esse fato parece influenciar da forma mais positiva a autoafirmação, a identidade, por colocar os indivíduos mais em contato com suas raízes, com sua história prévia. Assim ocorre também nas civilizações ditas "primitivas", nas tribos africanas e indígenas. Em todos esses exemplos, além do profundo respeito e do cultivo da "presença" dos antepassados, há uma relação completamente diversa da nossa, no que se refere aos idosos, aos mais velhos. Estes são vistos como os detentores do saber, como verdadeiras bibliotecas vivas, permitindo que os jovens e adultos vivam suas vidas libertos de todas as ansiedades e angústias que marcam cruelmente a civilização ocidental, especialmente as mulheres, com as obsessões e preconceitos em torno de tudo o que se refira ao envelhecimento, ao "velho". Vive-se, e respeita-se, cada fase da vida humana, com suas características, com sua beleza própria. Como as estações da natureza.

Paralelamente, estudos baseados nessas civilizações permitiram o desenvolvimento de abordagens psicológicas, que tem possibilitado novas formas de tratamento e cura dentro da psicoterapia familiar, para traumas e repressões que são transmitidos "como se fizessem parte do DNA".

Estas considerações são feitas, fundamentalmente, para que nossa racionalidade compreenda a importância dessas conexões, dessa abertura à vida que, aparentemente, se foi. Mas que aqui está. Em nós. Vida que, reconhecida, pode representar uma forma de alquimia, em nosso contínuo processo de ampliação de consciência em busca da paz, da alegria, da conciliação, do amor e da beleza de viver, aqui e agora, percebendo-se como um elo no longo encadeamento da existência humana.


O autor, Luiz da Cunha Seabra, é fundador e copresidente do Conselho de Administração da Natura