Faça chuva ou faça sol, falta água em casa. E se em alguns bairros o problema é pontual (ocorre de vez em quando, quando quebra uma bomba do DAE), no Parque Jaraguá o transtorno é crônico há duas décadas, informam moradores. Tanto que, desde o dia 6 de fevereiro, moradores da quadra três da rua Azor Garcia dos Santos usam alternativas caseiras e até arriscadas para suprir a necessidade.
Imagine você chegar do serviço para um bom banho e, ao abrir a torneira do chuveiro, nem um pingo de água cai. Ou, então, precisar lavar a louça e dos canos saírem somente ar? Essas situações descrevem algumas das dificuldades enfrentadas ao longo de anos a fio por moradores da parte alta do Parque Jaraguá em Bauru.
“Moramos aqui há 2
anos e sempre tivemos problema com a falta de água. Na parte da noite e de madrugada são os únicos momentos em que a água aparece, mas desde sexta-feira, nem isso temos mais. Temos ficado sem água o dia todo”, ressaltou o casal morador da quadra três da rua Azor Garcia dos Santos, Sandra Maria Cruz, 53 anos, e Antônio Raymundo Pereira Filho, 69 anos.
Segundo Sandra, um outro casal vizinho, que não estaria em casa no momento em que a equipe do JC esteve no local, chegou a gastar cerca de R$ 2
,
na compra de um equipamento para bombear a água de um tambor até a caixa da residência, nos últimos dias.
Sem a água que vem da rua, a caixa d´água de vários moradores já secou. Das 1
torneiras que existem na residência de Sandra e Antônio, apenas duas estariam funcionando desde sexta-feira, com os resquícios que sobraram no reservatório. Considerados os sortudos da quadra por ainda terem água na caixa, os moradores se desdobram para ajudar os vizinhos.
Contra o sufoco
Acostumados com a escassez do bem, Sandra e Antônio contam que, na época do calor ou de período de festas, costumam deixar cheia, por vários dias, uma piscina de cerca de 3 mil litros de água. Segundo eles, a medida, apesar de não ser a mais adequada, acaba ajudando a vizinhança no momento do sufoco.
A dona de casa Madalena Morale Batista, 57 anos, e o aposentado Joel Ferreira Batista, 63 anos, são alguns dos beneficiados pelas alternativas de Sandra e Antônio.
Os moradores contam a situação complicada em que ficaram no último final de semana quando receberem familiares de São Paulo em casa. A visita apareceu justo no dia em que a falta de água assolava o bairro. “Entre filhos e netos deu quinze pessoas. Agora, imagine nossa situação, sem um pingo de água na torneira... eles acabaram indo embora hoje (anteontem) sem tomar banho. Tivemos que pegar água da piscina do vizinho para poder nos lavarmos e dar descarga aqui nos banheiros”, afirmou Madalena.
Cabelo duro
Madalena e Joel afirmam que a piscina do casal vizinho acabou sendo a salvação durante o período em que seus familiares estavam na cidade. “Mesmo cheia de cloro e não estando tão limpa, a água da piscininha está nos servindo de quebra galho”, conta a mulher, que afirma estar, há dias, dependendo dessa água para poder lavar as louças e tomar banho. “Meu cabelo está até duro por conta da água com cloro. Estamos esperando pra ver se água volta ou se vamos ter que dar um outro jeito”, completa.
Indicada até mesmo por Sandra como uma medida arriscada, o uso de piscinas ou de outros tipos de tambores como reservatórios de água podem causar, além de outros problemas, a proliferação de larvas do mosquito da dengue.
Mesmo a cidade tendo registrado apenas um caso de dengue em Janeiro deste ano, contra quase cem no mesmo período em 2
11, as alternativas são de risco evidente para uma cidade em que os índices de doenças por mosquitos infectados já foram altos.
‘Sensação de impotência e humilhação’
Sem um pingo de água nas torneiras, Madalena e Joel também gastam as economias da casa comprando galões e mais galões de água para beber e poder fazer a comida. “É uma sensação de impotência e humilhação o que estamos passando aqui.”
Iracy Moreira de Abreu, 5
anos, também é moradora da quadra três da Azor Garcia dos Santos. Ela conta que vive em com mais seis pessoas na mesma casa, entre elas dois idosos, uma criança e um adolescente. Entre os idosos, está uma ex-cunhada de 91 anos que possui problemas psiquiátricos e precisa usar fraldas “Precisam de no mínimo uns dois banhos por dia. Às vezes, sentimos ela triste por sentir-se suja. É muito complicada nossa situação”, ressaltou a moradora.
Sandra e Antônio, assim como os vizinhos, estão indignados com a situação em que a região do bairro se encontra. “A cada ano a coisa piora e a falta é constante. No Natal do ano passado fizemos fila para pegar água no caminhão pipa no meio da rua.”
Ainda sobre a situação, os moradores, que se reuniram na manhã de anteontem para denunciar a situação à reportagem do JC, afirmam se revoltarem ainda mais quando a conta do DAE (Departamento de Água e Esgoto) chega. “A água não vem, mas a conta chega sempre em dia aqui”, enfatizaram os moradores da rua Azor Garcia dos Santos.
Perfuração de poço
Em relação à reclamação dos moradores, a Divisão de Produção e Reserva de Água do DAE reconhece que bairros como Parque Jaraguá, Jardim Petrópolis, Vânia Maria, Alto Alegre, Nova Esperança e outros que integram a região possuem abastecimento bastante limitado.
A solução apontada é a realização de uma obra de perfuração do Poço Bauru XVI IV. De acordo com a autarquia, as obras estão previstas para este ano. Ainda sobre o caso, o DAE informou a necessidade de uma reserva individual, adequada ao consumo/utilização, por parte dos moradores dessas regiões para que consigam suprir eventuais interrupções de abastecimento da rede pública.