08 de julho de 2026
Geral

Casa nova toma lugar da reforma

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Éder Azevedo

Fernando Redondo,  proprietário de loja de material de construção, confirma aumento da demanda por construções novas em Bauru

O tradicional “puxadinho” feito para ampliar residências está perdendo força em Bauru. Segundo entidades da construção civil, as construtoras e incorporadoras respondem, atualmente, pelo maior volume de negócios gerados na cidade, em detrimento das obras contratadas pelo consumidor comum.

 

Estudo recente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon- SP) aponta que as empresas formais são responsáveis, hoje, por 65% do Produto Interno Bruto (PIB) do setor, enquanto a autoconstrução, que sempre foi a maior fatia, representa 35%. Há menos de dez anos, as proporções eram opostas. 

 

Em 2003, as construtoras detinham 44% do PIB do setor e o consumo individualizado de materiais era maioria, com mais da metade (56%) da produção da construção. “Verificamos que este processo vem se desenrolando de maneira bastante visível desde 2008, quando houve estabilização na economia. Em vez de reformar a residência, as pessoas começaram a optar por comprar um imóvel novo”, observa Renato Parreira, diretor do Sinduscon em Bauru. 

 

Além da maior estabilidade no emprego e do aumento do poder de consumo da população, ele aponta o crescimento da oferta de crédito para aquisição da casa própria como fator preponderante para a inversão que foi desencadeada. “Hoje, as taxas de juros de financiamento são menores e o tempo de pagamento foi prolongado (para 30 anos). São facilidades que permitem a compra de uma casa nova a famílias que, no curto prazo, só teriam dinheiro para fazer uma pequena ampliação”, cita.

 

No ano passado, a Caixa Econômica Federal (CEF), responsável pelo maior volume de empréstimos habitacionais, contratou quase R$ 380 milhões em financiamentos de imóveis somente em Bauru, um volume 5% maior em relação a 2010. Além do maior volume de recursos disponíveis para empréstimo, outro impulso foi proporcionado por meio do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Criada em 2009, a iniciativa prevê a concessão de subsídios ao comprador de casas novas, como forma de estimular o setor.

 

 

Fenômeno

 

Como resultado, o aumento do número de domicílios nos últimos anos tornou-se um fenômeno sem precedentes na história recente da cidade. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 20 mil novas casas foram erguidas em Bauru entre 2000 e 2010. Estima-se que outras 5 mil tenham sido construídas desde então, em bairros distintos como o Núcleo Otávio Rasi, Jardim Brasil e Jardim Terra Branca.

 

“Nos últimos três anos, tivemos vários lançamentos, alguns deles ainda em andamento. A grande maioria foi feita por construtoras, que são responsáveis pela contratação de um grande volume de profissionais na cidade”, argumenta o presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag), arquiteto Emerson Crivelli.

 

Diretor regional do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), Riad Elia Said também reconhece que o forte incremento da demanda por materiais de construção para cumprir o programa habitacional do governo contribuiu para a mudança de perfil do setor. “Felizmente, todos os lançamentos foram comercializados. Em Bauru, o setor nem sentiu os efeitos da crise mundial, embora viva, agora, um momento de acomodação”, assegura ele, também proprietário de uma construtora da cidade.

 

Enquanto estas empresas trabalham a todo vapor, o varejo que abastece o consumidor comum não tem muito a comemorar, já que as incorporadoras compram materiais diretamente da indústria. “Não dá para dizer que está ruim porque os negócios continuam, mas também não houve crescimento”, conta Antonio Fernando Redondo, proprietário de loja de material de construção da cidade. De acordo com ele, devido à diminuição da demanda dentro de condomínios, o estabelecimento tem priorizado, agora, o atendimento nas zonas mais periféricas da cidade. 

 

Mercado ainda aquecido

 

Depois de anos de franca expansão, o setor da construção civil atravessa um momento de acomodação, mas não deve parar de crescer, conforme analisa o diretor do Sindicato da Indústria da Construção Civil em Bauru, Renato Parreira. Ele observa que as instituições financeiras ainda traçam um cenário favorável para o crédito, devido às baixas taxas de desemprego, o crescimento da renda e o déficit habitacional da cidade, que o poder público estima estar em 4,3 mil moradias.

 

“No ano passado, o crescimento do setor foi de 7% acima do PIB nacional. Neste ano, esperamos que fique em 5%. O desempenho da construção civil continuará bom. Além do déficit (que corresponde ao total de famílias vivendo em situação de vulnerabilidade), há muitos filhos querendo sair da casa dos pais para viver sozinhos. É uma demanda maior do que a gente imagina”, aponta. Ele acredita que a tendência é de que as construtoras continuem respondendo pela maior parcela do Produto Interno Bruto (PIB) do setor.

 

Apartamento lidera

 

Embora muitos condomínios horizontais tenham sido lançados nos últimos anos em Bauru, a predominância das novas construções ainda é formada por prédios de apartamentos, reflexo da crescente preocupação da população quanto à segurança. A maioria dos empreendimentos é subsidiada pelo programa “Minha Casa, Minha Vida” e voltada às classes C e D. “São imóveis de dois dormitórios, cujos valores variam entre R$ 80 mil a R$ 170 mil, dependendo da localização”, aponta Renato Parreira, diretor regional do Sindicato da Indústria da Construção Civil.

 

Da casa da mãe para um novo lar

 

Depois de se divorciar e tornar a viver com a mãe, a funcionária pública Ana Raquel Fernandes, 42 anos, voltará a ter casa própria. Mais especificamente, um apartamento próprio, financiado em 30 anos e com subsídio de R$ 2 mil concedido pelo programa “Minha Casa, Minha Vida”.

 

“Fiquei cinco anos morando com minha mãe, mas tenho dois filhos – uma menina de 15 anos e um menino de 6 – e quero ter um espaço para eles. O apartamento tem dois quartos e também acho mais seguro, porque minha mãe mora em casa”, comenta ela. 

 

A mudança do Alto Paraíso para o Jardim Carolina deve acontecer nas próximas semanas, quando as chaves do apartamento, comprado na planta por R$ 86 mil, devem ser entregues. “Não sei se fiz um bom negócio, porque consegui um subsídio baixo por causa da minha renda e perdi algumas isenções porque já havia tido outro imóvel no meu nome, que foi vendido durante o divórcio. De qualquer maneira, estou feliz por voltar a ter minha casa”, comemora.