08 de julho de 2026
Auto Mercado

Os irresponsáveis sobre rodas

Consultor: Marcos Serra Negra Camerini
| Tempo de leitura: 4 min

As notícias das recentes mortes de motociclistas no trânsito geram uma onda de apreensão na população e nas autoridades. Mas, como quase tudo no Brasil, o que é divulgado pela imprensa parece não ser levado a sério para sua correção, fica mais como oba-oba e é logo esquecido. Em qualquer sociedade séria, um problema repetido mais de uma vez em pouco tempo leva a uma avaliação e tomada de ação corretiva, mas aqui ouvimos os mesmos problemas por décadas seguidas e ninguém que deveria tomar providências, as toma. Se tiver carnaval e futebol e a cerveja estiver gelada, tudo bem. O resto é problema dos outros.

Dos outros uma ova. Eu sou motociclista praticante e habilitado há tanto tempo quanto sou motorista. Sempre que tive moto, procurei pilotá-la com segurança. Nunca me envolvi com acidentes, nem mesmo caí da moto. Ando pela cidade e vejo um enxame de 125 costurando, furando sinal vermelho e "enrolando o cabo", pilotadas por gente despreparada, apavorando no trânsito. Claro que este grupo está mais sujeito a acidentes e vê-se nos hospitais que a ortopedia e UTI estão cheias deles. E as autoridades fazem o que? Como os custos de resgate e hospitalização deste grupo são enormes, decidiram cobrar um seguro DPVAT obrigatório de R$ 279,27 para todas as motos, enquanto que um carro paga R$ 101,16. Usando o bom senso, qualquer seguro considera alguns critérios como idade do usuário, tempo de habilitação, tipo de uso do veículo, etc. E se olharmos as estatísticas oficiais, veremos que mais de 90% dos acidentes com vítimas ocorrem com motos de até 150cc e o restante com motos superesportivas.

Uma ínfima parcela de acidentes acontece com scooters e motos naked, custom, trail, bigtrail e estradeiras em geral. Será coincidência que este grupo seja composto de pessoas mais sérias que não tem nada a provar para ninguém, que gostam do prazer de andar de motocicleta a trabalho ou passeio, de sentir o vento no peito e curtir os amigos? Pessoas que não precisam acelerar máquinas para impressionar os amigos, pois conseguem o mesmo resultado com sua conversa e postura de vida. Para que não pensem em homofobia, estou separando os grupos de risco apenas pela postura da pessoa e não pela cilindrada de sua moto. Tenho empresa fabricante de peças para motos e convivo com clientes e fornecedores, muitos dos quais usam motos de baixa cilindrada para trabalho e deslocamento na cidade. São pessoas sérias e trabalhadoras, que respeitam a segurança e as leis de trânsito e que nunca se envolveram com acidentes, mas que acabam sendo penalizadas da mesma forma. São verdadeiros motociclistas e não motoqueiros.

Não sou de colocar pano quente em cima de nada e não vou me omitir. Tenho alguns amigos que trabalham em autoescolas e eles mesmos reconhecem a fragilidade do treinamento exigido pela legislação nos centros de formação de condutores. Para se tornar um motociclista, um sujeito se inscreve na autoescola, assiste a aulas, faz percurso, oito, rampa, tudo com uma 125. Aí, tira a carta e acha que já arranjou uma profissão. Outros tiram a carta e pegam a SRAD 1000 que ganharam do papai e saem acelerando. Mas, e a experiência? No Japão, que é um país sério, o curso teórico de trânsito começa na escola média como matéria obrigatória. O candidato faz aulas práticas na maioridade, presta o exame e tira a carta. Mas estará em experiência por alguns anos e só terá permissão para pilotar máquinas até 125cc neste período. Em seguida, após uma avaliação recebe autorização para pilotar máquinas até 250cc. Em resumo, um cara para pilotar uma 600cc no Japão precisa ter no mínimo 5 anos de experiência e nenhum tipo de infração ou acidentes. Lá, ninguém tira carta e pega uma Hayabusa logo de cara.

A experiência é fundamental, pois uma moto acelera mais, é mais ágil no trânsito mas breca menos que um carro. Existem pontos cegos nos espelhos retrovisores dos automóveis em que mesmo que o motorista olhe, poderá não ver uma moto dependendo de onde ela esteja. Lembre-se também que a área de contato dos pneus com o solo é muito pequena e, em uma freada de emergência, pode não parar a tempo. Aí, a velha desculpa de que "o cara cortou a minha frente" não vai te tirar da UTI, pois mesmo que você esteja coberto de razão, a moto é a parte mais fraca na colisão. O infrator será processado, mas você será internado ou enterrado.

Portanto, seja inteligente e olhe mais pela sua segurança. Não confie nos outros no trânsito, pois sabidamente a maioria dirige mal. Guie por você e pelos outros e se previna.