‘Anjo da guarda’ do serviço social
Equilíbrio. A voz suave e respostas tranquilas revelam o ponto forte da personalidade da entrevistada de hoje, a assistente social e diretora de divisão de apoio hospitalar do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da Universidade de São Paulo (USP), Maria Inês Gândara Graciano.
Contudo, a aparente calma da profissional, esposa, mãe e avó, não tira sua garra. Na semana que comemora o Dia Internacional da Mulher, ela é exemplo de mulher que desafia a vida e luta por seus objetivos. “Já há algum tempo a mulher precisa ser polivalente. E para administrar tudo isso é preciso ter equilíbrio”, ressalta.
Hoje, ela é pós-doutora, mas quando ainda estagiária, Maria Inês foi a responsável pela fundação do serviço social do Centrinho, incluindo a Sociedade de Promoção Social do Fissurado Lábio-palatal (Profis): “E o que me deixa feliz é ver a reabilitação dos pacientes e ver a equipe do serviço social do Centrinho crescer e ser cada vez mais eficiente. É um trabalho muito respeitado dentro e fora do Brasil”.
Acompanhe a entrevista, abaixo, onde Maria Inês também fala sobre novos projetos para a vida pessoal e profissional.
Jornal da Cidade - Como surgiu o desejo de trabalhar com serviço social?
Maria Inês Gândara Graciano - Minha escolha foi consciente. Optei pelo curso de serviço social justamente pela possibilidade de trabalhar e orientar as pessoas. A questão da solidariedade sempre foi muito forte em minha formação. Meus pais ensinaram a questão do respeito com o ser humano. No fim do ensino médio eu tive uma palestra sobre profissões e não tive dúvidas quando conheci um pouco mais sobre serviço social. Entrei no Instituição Toledo de Ensino (ITE) e me formei em 1973.
JC - Como começou sua carreira no Centrinho?
Maria Inês - Estou no Centrinho há 39 anos. Meu primeiro e único trabalho. Comecei como estagiária em 1973, quando comecei a implantar o serviço social na instituição. Um ano depois eu fui contratada como a primeira assistente social da instituição. Na época, a sede própria do Centrinho estava sendo inaugurada e solicitei o estágio. Em 1975, veio a fundação da Sociedade de Promoção Social do Fissurado Lábio-palatal (Profis), uma entidade de apoio e assistência ao trabalho do Centrinho. A partir daí eu me preocupei em estudar, desenvolver pesquisas e me aperfeiçoar na área.
JC - Você chegou ao pós-doutorado, certo?
Maria Inês - Sim. Em 1988 eu concluí meu mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) com o tema sobre os pais coordenadores, que são agentes multiplicadores do hospital. Em 1996 terminei meu doutorado, também na PUC, e o tema teve relação com as associações de pais e pessoas com fissura. Recentemente, em 2010, conclui o pós-doutorado. Fiz uma pesquisa junto a vinte hospitais do Estado de São Paulo para conhecer o instrumental de estudo socioeconômico que eles desenvolvem e utilizam. A partir disso, eu propus um modelo instrumental de estudo para a área de estudos sociais. E estou prestes a publicar um livro com o fruto dessa pesquisa.
JC - Será o seu primeiro livro publicado?
Maria Inês - Livro, sim. Mas tenho vários artigos de serviço social na saúde e na linha de pesquisa socioeconômica, uma linha de pesquisa que desenvolvo desde a década de 1970. Além disso, tenho um capítulo escrito dentro de um livro de fissuras orofaciais. O capítulo fala sobre os aspectos psicossociais e escrevi em parceria com uma psicóloga e uma enfermeira do Centrinho.
JC - Imagino que você deva ter recebido alguns prêmios ao longo de sua carreira...
Maria Inês - Já recebi reconhecimento dentro da própria categoria. Acredito que esse reconhecimento vem porque nós não ficamos apenas na linha de atendimento, mas também desenvolvemos trabalho de pesquisa e ensino. Temos muitos alunos. Esta semana, por exemplo, recepcionamos cerca de 200 novos estudantes.
JC - Você foi para a sala de aula?
Maria Inês - Ah, sim. Atualmente eu coordeno um curso de especialização em serviço social na área da saúde, sou tutora do programa de residência multiprofissional e dou algumas disciplinas na pós-graduação, mestrado e doutorado. Essa é minha atuação na área de ensino dentro da instituição.
JC - O que o serviço social representa para você?
Maria Inês - O serviço social é uma profissão que atua junto às diferentes expressões da questão social e o objetivo maior ser é intervir nessas questões para que as pessoas tenham acesso às políticas públicas de educação, saúde, habitação... Nosso grande desafio é incluir as pessoas nessas políticas sociais e também incentivar sua mobilização e organização em função de direito e de lutas. Vivemos isso na prática.
JC - Quais foram os grandes desafios da sua carreira ao longo desses anos?
Maria Inês - Bom, o primeiro grande desafio foi implantar o serviço social no Centrinho, já que na época eu era estagiária e não tinha experiência. Era muito jovem. E os desafios foram ocorrendo quando implantamos a Profis, com o apoio do doutor Gastão. Em 2004, nós também implantamos uma rede nacional de associações de pais e pessoas com fissuras labiopalatinas no Brasil. É um trabalho interessante que articula as 40 associações no Brasil que lutam pelo direito das pessoas fissuradas. O desafio foi não somente implantar tais projetos, mas desenvolvê-los. Agora, o que é fundamental é o apoio da equipe, porque sozinha eu não faria nada.
JC - Você tem colhido bons frutos também na vida pessoal?
Maria Inês - Eu sou uma pessoa realizada pessoalmente e profissionalmente. Não consigo separar uma vida da outra. A Maria Inês é profissional, esposa, mãe e avó ao mesmo tempo. Mas pude me desenvolver profissionalmente com a ajuda do meu marido e filhas. Isso foi fundamental. Precisei e ainda preciso me dedicar muito à carreira. Temos muitas viagens, congressos, horas de estudo sem dormir...Sem apoio da família você não consegue e meu esposo sempre me incentivou. E eu vejo que nem todos os maridos são assim. Tenho três filhas ótimas e uma delas é médica no Centrinho.
JC - E por falar em vida pessoal, então você é um pouco artista (risos)?
Maria Inês - (Risos) Eu sempre gostei muito de música e gosto de cantar desde a adolescência. É claro que você vai crescendo e o tempo vai ficando curto. Mas, recentemente, eu passei a tocar violão nas missas do Centrino, celebradas às quintas-feiras, ao menos duas vezes ao mês.
JC - O que a deixa triste?
Maria Inês - Acho que a falta de ética e de respeito com as pessoas. Sou uma pessoa muito equilibrada e isso me incomoda.
JC - E o que a deixa feliz?
Maria Inês - Ver a reabilitação dos pacientes e ver a equipe do serviço social do Centrinho crescer e ser cada vez mais eficiente. É um trabalho muito respeitado dentro e fora do Brasil.
JC - Você já soma 39 anos de trabalho. Até quando pretende ficar no Centrinho?
Maria Inês - Até a expulsória, ou seja, até os 70 anos (risos). Para a vida profissional eu tenho planos de ampliar as possibilidades de parcerias internacionais. Já participamos de alguns projetos internacionais, mas acho que meu grande sonho é ver o serviço social do Centrinho crescer nesse sentido. Na vida pessoal eu quero viajar, atividade que também é um hobby. Já viajei muito, até por causa de congressos e tudo, mas quero viajar mais. Este ano, por exemplo, pretendo voltar a Espanha e revisitar o lugar onde minha mãe nasceu.
JC - Dia 8 de março, quinta-feira, será comemorado o Dia Internacional da Mulher. Você se considera um exemplo para as mais jovens?
Maria Inês - Sim. Digo isso porque me considero uma pessoa batalhadora, lutadora e desafiadora. Sabe, sou feliz com a vida e estou realizada, mas eu nunca me acomodei com a situação. Apesar de tantos anos no Centrinho, sinto como se cada dia fosse um novo começo. Então, acho que sou exemplo, sim. Já há algum tempo a mulher precisa ser polivalente. Ela precisa ser profissional, esposa, mãe, avó... E para administrar tudo isso é preciso ter equilíbrio.
Perfil
Nome: Maria Inês Gândara Graciano
Idade: 59 anos
Local de Nascimento: Bauru
Signo: Câncer
Marido: José Roberto
Filhos: Marith, Mayra e Mariane, além dos netos Gabriel, Sofia e Laura
Hobby: Tocar violão e ler
Livro de cabeceira: Bíblia, mas atualmente estou lendo o livro “Tomar a Vida nas Próprias Mãos”
Filme preferido: “Perfume de Mulher”
Estilo musical predileto: MPB
Time: Corinthians
Para quem dá nota 10: Para minha família e para o Tio Gastão do Centrinho
Para quem dá nota 0: Para quem não respeita o ser humano, principalmente as pessoas com deficiências
E-mail: graciano@usp.br