08 de julho de 2026
Geral

É possível ser feliz com bem menos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Qual a necessidade de ter 3

calças jeans, se é possível viver confortavelmente com duas ou três peças? E por qual motivo ter uma geladeira abarrotada de comida que, provavelmente irá estragar, se o suficiente seria ter alimento guardado para o consumo de uma semana? Para que ter três carros na garagem se apenas o marido e a mulher dirigem e ambos trabalham em local próximo?

 

São algumas perguntas que, segundo a psicóloga Mauricéia Quinhoneiro, cada indivíduo deveria fazer a si mesmo como forma de evitar as armadilhas do consumismo. “Do contrário, o sujeito se torna escravo dos próprios bens, com comprometimento de todas as esferas de sua vida, inclusive a financeira”, observa. Ela esclarece que o ideal é desenvolver uma relação harmoniosa com o consumo, para que ele atenda o conforto, a segurança, a saúde e o lazer, sem excessos.

 

De acordo com a psicoterapeuta, quem sofre de oniomania, como é chamada a compulsão por compras, precisa adotar medidas de emergência, como limitar o acesso ao cartão de crédito, ao mesmo tempo em que procura tratamento adequado. “Não frequentar centros de compras por um período é importante. Mas a pessoa precisa entender o motivo de sua compulsão para, então, descobrir outras formas de suprir suas carências e se autovalorizar, sem depender demasiadamente da aprovação dos outros”, pontua.

 

Outra dica é sair de casa sempre com dinheiro contado para o que for necessário e, em caso de compras no supermercado, nunca chegar ao local com fome. Ex-compulsiva, a empresária Valéria, 44 anos, também orienta abolir visitas a centros comerciais e, quando precisar pagar dívidas atrasadas, não se deixar levar pelas “tentações”. “O melhor é nem olhar para os lados e sair correndo da loja o quanto antes. Parece absurdo, mas funciona”, ensina. 

 

Além de adquirir apenas o necessário, ela diz que os oniomaníacos precisam aprender a comprar sempre à vista e parar de gastar com itens caros. “Quando for sair às compras, deve-se ter em mente o que irá comprar e o limite máximo a ser gasto. Se você gostar de um produto que custa muito, tente encontrar um similar que esteja mais em conta”, pondera.

 

 

 

Fontes de prazer

 

Outra estratégia é anotar a renda mensal e todos os gastos em uma planilha, para impor cortes de custos e determinar as prioridades que precisam caber no orçamento. “Mas, se o grau de compulsão for muito elevado, é preciso associar estas técnicas e a terapia à ingestão de medicamentos para controlar a ansiedade e a impulsividade, tais como os ansiolíticos, que devem ser receitados por um psiquiatra”, considera a psicóloga Marília dos Santos Alvarenga. 

 

Em substituição às compras, o compulsivo deve ainda estabelecer novas rotinas de lazer, como a prática de atividades físicas, o trabalho voluntário e a renovação do círculo de amizades, conforme ensina Mauricéia. “Se a pessoa encontra outras fontes de prazer, dependerá cada vez menos da satisfação vinculada ao consumo”, esclarece.

 

A psicóloga ressalta que não há prazo estabelecido para que um paciente supere a dependência, mas ex-compulsivos entrevistados pela reportagem são unânimes em afirmar que não existe cura para a doença. “É igual ao alcoolismo. É algo que você controla, mas continua suscetível a recaídas ao primeiro descuido”, relata a contabilista Cinthya, 4

anos, que está há 1

anos livre da oniomania graças às sessões de ajuda mútua oferecidas pelos Devedores Anônimos, na Capital.

 

Hoje, ela diz que ainda se permite cometer algumas extravagâncias esporadicamente, mas não depender mais delas para ser feliz se tornou sua grande conquista. “Hoje, ganho mais do que ganhava quando era dependente, mas gasto bem menos. E, posso garantir, sou muito mais realizada por isso”, comemora.

 

 

 

Consultor descobre a vida simples após crise financeira 

 

Ele chegou a ter seis carros, moto e jet ski na garagem, mas uma reviravolta em sua vida o levou a morar na rua. Depois de viver anos de ostentação e gastança desenfreada, o ex-empresário Fernando Muiños, 48 anos, conhecido como Espanhol, se divorciou da mulher, em 2

2, e o acontecimento o fez mudar de vida. A época de crise conjugal coincidiu com dificuldades nos negócios e ele decidiu abrir mão de tudo.

 

“Não tive depressão ou baixa autoestima. Decidi que não queria ficar com nada. Deixei todos os meus bens para os meus filhos e comecei do zero. Cheguei a morar na rua, mas reconstruí minha vida”, comenta. 

 

Embora, hoje, tenha um padrão de vida confortável tra-balhando como consultor de empresas, Fernando afirma que sua realidade está bastante distante das extravagâncias experimentadas anos atrás. “Morava em uma casa ampla num condomínio de classe alta, fazia festas em família toda semana, viajava muito para fora, comprava tudo o que queria. Gastava muito, mas chegou um momento em que precisei começar a vender coisas para honrar minhas dívidas”, relembra. 

 

O descontrole financeiro, ele mesmo admite, foi fruto de uma certa soberba que marcou sua personalidade durante os anos de padrão elevado de consumo. Depois de perder tudo, entretanto, aprendeu a apreciar a simplicidade das pequenas coisas cotidianas.

 

“Eu vim de família simples, então não me queixo de nada. Sou completamente satisfeito com a vida. O importante é que tenho saúde, meus pais estão vivos e meu irmão está sempre ao meu lado. É possível ser feliz com bem menos do que se imagina”, analisa.

 

 

A quem recorrer

 

Na Internet: devedoresanonimos-sp.com.br

Em Bauru: Neuróticos Anônimos, pelo telefone (14) 3227-3116 (Márcia)