09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

ATÉ O CÉU CHOROU NA DESPEDIDA DO GINÁSIO DA LUSO


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Enquanto o Itabom, em jogo de gala, dava um show de basquete em quadra, lá fora o céu chorava lágrimas abundantes em forma de chuva, como despedida do ginásio de esportes da Luso. Eu garanto com toda a certeza do mundo que ninguém ali mais do que eu sentiu tanta tristeza naquele momento. Digo isso porque fiz parte do primeiro time de basquete feminino daquele clube, que começou treinando nas quadras externas, até o ginásio com sua quadra de piso "paviflex", que escorregava pra caramba, ficar pronto. Quanta estória pra contar. Pra se ter uma ideia, na década de 60 ou mais precisamente 1966, o clube ficava praticamente no meio do mato. Ali perto só havia a Coca-Cola e pouquíssimas casas. Eu ia a pé treinar e pra cima da Joaquim da Silva Martha quase não havia nada e eu seguia por um trilho no meio do mato para chegar até o clube. Certa vez, um "tarado" correu atrás de mim (eu corria pra caramba) e como na época ninguém tinha carro eu arrumei um cavalo e ia treinar montada nele, que ficava pastando ao lado do clube enquanto um garoto tomava conta dele e ganhava uma gorjeta.

Quando o ginásio ficou pronto foi uma alegria só, podia chover, fazer sol que podíamos treinar sossegadas. Os dirigentes do clube eram fanáticos pelo basquete e nos acompanhavam em todos os jogos dentro e fora de Bauru. O seu Rodrigues era um batalhador incansável, correndo atrás de tudo. Tínhamos também um bando de torcedores com a emoção à flor da pele, passionais mesmo, que gritavam, brigavam, correndo do lado de dentro das grades que cercam a quadra e não dando sossego aos juízes que apitavam. Lá estavam sempre o seu Antonio Alves, Osvaldo Azenha, Perroca, Raduan Trabulsi, Omar Marra, Flavio de Angelis. Na época em que quase tudo se podia, de vez em quando voava um sapato no meio da quadra, quando não uma cadeira, que era como um aviso para os juízes não se folgarem. Eram tempos diferentes, de amor à camisa mesmo, onde não se falava em dinheiro, era apenas o prazer de jogar basquete, se divertir, defendendo o clube e nossa cidade. Nesse ginásio muitos sonhos foram construídos, muitas emoções sentidas, muito choro, muita tristeza e muita mas muitas alegrias.

Ah, mas nada se comparou quando vencemos o XV de Piracicaba, time de Heleninha e Maria Helena, dois ícones do basquete brasileiro, e considerado imbatível. Jogamos muito naquele dia, tudo deu certo. São emoções que não se descreve, apenas se sente. Teve também o dia em que o nosso time masculino de Caetano, Tidei, Zé Milton venceu Franca de Helio Rubens e outros da seleção brasileira considerados os bichos papões da época. Foi demais.

Para mim e para dezenas de ex-atletas que conviveram na Luso na mocidade, vai ser muito difícil ver aquele ginásio sendo destruído. Quando um monumento como aquele com tantas estórias vai ao chão, uma parte concreta da história se vai com ele, fica apenas a história oral. Dizem que é o progresso, é o velho dando lugar ao novo, mas em meu humilde entendimento é mais uma pequena parte da história da nossa cidade que se vai. Que pena! As tristezas, alegrias, choros, emoções vão ficar gravados apenas em nossos corações, em nossas almas de ex-atletas que amavam a Luso. Adeus. Valeu!

Jacy Guedes de Azevedo ? ex-jogadora da Luso e da Seleção Brasileira de Basquete