Este jornal noticiou na sexta-feira que advogados da família de Edson Arantes do Nascimento (Pelé) ingressaram com ação judicial para obter a regularização do direito de propriedade do imóvel em que os pais do futebolista residiram, há muito tempo. A casa, abandonada e quase em ruínas, poderia estar abrigando o Museu Pelé e serviria como ponto turístico para milhares de fãs interessados em conhecer pormenores da vida e da carreira do campeoníssimo.
Por que não deu certo, até hoje, o plano de construção do citado museu? Não foi por falta de interesse de esportistas bauruenses e da administração municipal. Houve tratativas, sim, principalmente durante meu governo (período 1999-2004). Incentivado por Luiz Carlos Cordeiro, Luciano Dias Pires e Roberto Rufino, procurei concretizar o desejo da comunidade esportiva local. Contatos foram feitos com familiares do craque. O jornal Gazeta Mercantil, representado por um dos filhos do então deputado Herbert Levy, esteve na cidade e manifestou o desejo de parceria entre a municipalidade e aquele órgão de imprensa. Haveria a busca da adesão, talvez por meio de doação do imóvel à prefeitura, acompanhada de campanha financeira capaz de levantar recursos indispensáveis àquele empreendimento. Cordeiro e Luciano acompanharam as tratativas. O Poder Público externou a vontade de dotar o município daquele marco de reconhecimento do papel extraordinário desenvolvido pelo filho de Dondinho na popularização do futebol em quase todo o mundo. Infelizmente, surgiu na mesma época a idéia de localizar o museu em Santos. Familiares de Pelé, logicamente, entenderam que essa proposta era muito mais atrativa, comparando-se os potenciais de Santos e Bauru. Daí o desinteresse demonstrado, na ocasião, quanto às demandas de nossos esportistas. A prefeitura, por sua vez, atravessava momento financeiro dificílimo e seria problemático investir na compra do imóvel junto à família em detrimento de outras prioridades.
Eis, portanto, a versão correta dos fatos que beneficiaram Santos na concretização do Museu Pelé. Afinal, embora o craque tivesse passado a infância aqui e já então demonstrasse seu talento nos gramados de nossa várzea, foi nas fileiras do time de Vila Belmiro que ele assombrou o mundo. Finalizando, fica a indagação: será que ainda existem interesse e condição financeira para a construção do museu local? A área diminuta do terreno e o estado deplorável do que resta da casa da rua Sete de Setembro poderiam justificar agora o empreendimento? Sem o correto equacionamento dessas questões, parece-me que o projeto ficará mais algum tempo dormitando nas gavetas de seus idealizadores. A não ser que, a exemplo do Palmeiras em seus planos de contratação do jogador Wesley ? isto é, uma "vaquinha" entre seus torcedores ? surjam ainda doadores dispostos a bancar o nosso Museu Pelé.
Nilson Costa, ex-prefeito, presidente da ABLetras