08 de julho de 2026
Polícia

Acusado de matar vendedora é preso

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

Malavolta Jr. 

Roberto Carlos Fagundes chega à delegacia algemado e é observado por Antônia Tripodi, mãe da esposa assassinada

Quase em “câmera lenta”, a mãe acompanha os passos do principal suspeito de ter matado sua filha. Em meio a vários jornalistas e policiais, ela fixa seu olhar, como se só existissem os dois naquele local. Após mais de dois anos, Roberto Carlos Fagundes, 44 anos, foi localizado, preso e reencontrou a família de Fernanda Tripodi, a vendedora da qual ele é acusado de matar em 2

9. Ele foi encontrado em Santa Catarina após agredir brutalmente sua atual companheira.

 

O desaparecimento ocorreu em 17 de dezembro de 2

9.  Na ocasião, Fernanda, que tinha 26 anos e era mãe de dois filhos - hoje com idades de 6 e 11 anos -, sumiu após sair de sua residência. Uma semana depois, o veículo dela foi localizado no Núcleo Mary Dota com grande quantidade de sangue no porta-malas.

 

Em meio às investigações, Fagundes, o marido da vendedora, foi considerado o principal suspeito no caso. Com a prisão decretada, ele fugiu sem deixar vestígios.

 

O corpo de Fernanda também não havia sido encontrado até outubro do ano passado, quando uma ossada humana foi localizada na estrada municipal Bauru-Santelmo. Conforme o JC divulgou com exclusividade na semana passada, exame de DNA terminou com o mistério e confirmou que os ossos eram da vendedora.

 

E, se foram mais de dois anos para haver alguma novidade, o destino agiu rápido dessa vez. Poucos dias após a ossada ser encontrada, o principal suspeito foi localizado e detido.

 

Era madrugada do último sábado em Balneário Camboriú (Santa Catarina). A Polícia Militar (PM) da cidade foi acionada para atender a ocorrência de uma agressão. A vítima, a diarista Vera Regina Luiz da Silva, 41 anos, estava bastante machucada. O acusado: um homem bem mais magro, envelhecido e com muito menos cabelo do que aquele Roberto Fagundes que desapareceu há dois anos. Porém, apesar da aparência ser muito diferente, era ele.

 

 

 

 

Resistência

 

O homem tentou fugir e ainda resistiu à prisão, porém, foi detido e conduzido para Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI). Lá, ele foi autuado em flagrante pela lei Maria da Penha e mandado para o Presídio Regional de Balneário Camboriú.

“A mulher que convivia com Fagundes disse que ele era procurado pela Justiça. Então, a Polícia Civil começou a investigar”, conta o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru, Kleber Granja.

 

E as investigações surtiram efeitos. Foi descoberto que Roberto Fagundes era mais do que um agressor. “Ontem (anteontem), a equipe da DIG foi lá para buscá-lo”, conta o delegado.

 

Depois de mais de 1

horas de viagem, ele chegou a Bauru. Aqui, reencontrou a família da esposa e uma acusação da qual fugia há dois anos. 

 

“Não, não”, foi o que Fagundes respondeu quando questionado pelos jornalistas se tinha assassinado Fernanda. Por conta da extensão da viagem, seu depoimento não foi ouvido ontem. No começo da noite, ele foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru.

 

Antes de sair, o acusado disse ao delegado: “Deus vai me proteger”. Kleber Granja, porém, achou melhor não confiar só na proteção divina: Fagundes ficará detido em uma cela separada justamente pelo receio de como será recebido pelos outros detentos. Ele responderá por homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver, além da agressão em SC.

 

 

 

Familiares: misto de alívio, raiva, alegria e tristeza depois da prisão

 

Horas antes da chegada de Roberto Fagundes à Delegacia de Investigações Gerais (DIG), a mãe de Fernanda Tripodi, Antônia Maria de Oliveira Tripodi, 55 anos, disse sua “vontade era matá-lo”.

 

Seu olhar quando encontrou o ex-genro sem dúvida comprovou este sentimento. Firme, ela ficou a centímetros de Fagundes. Ao vê-lo sumir de vista, o olhar enfurecido deu lugar a lágrimas. “Não tinha mais esperanças de vê-lo”.

 

Logo, as irmãs de Fernanda chegaram à delegacia também. Junto com a mãe, Fabiana, Ariele – com a sua filha, a pequena Ana Julia - e Danielle protagonizaram uma das cenas mais emocionantes. Chorando, elas se abraçaram bastante.

 

Fabiana chegou a ficar frente a frente com Fagundes. Ela perguntou o porquê de ele ter matado sua irmã. “Ele disse que não fez nada. Mas eu não estou com raiva. Se Deus perdoá-lo, eu também irei”, conta.

 

Em meio ao misto de sentimentos, os familiares encontraram tempo para agradecer os policiais. “É algo que sensibiliza. Estamos chegando ao fim de uma longa investigação. O que entregamos para esta família? São ossos. Mas, na verdade, é o fim de uma angústia”, confessa o delegado Kleber Granja.

 

 

 

Defesa

 

Ontem, na Delegacia de Investigações Gerais (DIG), estava presente a irmã de Roberto Fagundes - que não quis se identificar - e o advogado dele, Sidiney Nery de Santa Cruz. Segundo o defensor, há grande probabilidade de, mesmo com todas as provas, pedir na Justiça que o cliente responda em liberdade. “Eu preciso avaliar melhor os autos do processo. Há grandes chances de eu fazer o pedido da revogação da prisão”, conta. O advogado ainda revela que a família de Fagundes o procurou dias antes da captura. O titular da DIG, Kleber Granja, não descarta a abertura de um novo inquérito para apurar se os familiares do acusado o ajudaram durante este tempo. “Se isso ocorreu, eles também irão responder por favorecimento pessoal. Essa é outra investigação”, finaliza.

 

 

 

‘Agradeço a Deus de ter saído viva’, diz mulher agredida por Fagundes

 

A captura de Roberto Fagundes teve uma protagonista fora de toda a investigação policial que já coleciona mais de 1.2

páginas de inquérito: a diarista Vera Regina Luiz da Silva, 41 anos. Ela estava com o acusado há oito meses e conta que foi agredida exatamente após levantar suspeitas sobre seu passado. 

 

“Há uns dois meses, comecei a investigar o passado dele. Neste fim de semana, ele chegou alterado e começamos a brigar. Falei que sabia que ele era foragido e ele começou a me agredir”, conta.

 

O saldo da agressão foram dentes quebrados, um corte na cabeça e um olho roxo. Porém, poderia ter sido pior. “Ele me atingiu com um pedaço de pau. Consegui correr e chamar a polícia. Uma vizinha me disse que ele saiu na porta de casa com uma faca dizendo que ia me matar”.

 

Quando descobriu o passado de Fagundes, Vera da Silva ficou incrédula. “Eu ajoelhei a Deus e agradeci por ter saído com vida. Era para ter acontecido o mesmo que aconteceu com a moça de Bauru”, afirma.

 

Conforme a polícia divulgou, o motivo da morte de Fernanda Tripodi seria ciúme. “Ele tinha um ciúmes doentio de mim. Tinha ciúmes do meu filho e até da minha neta, de 4 anos. Pelo que me disseram, era o mesmo com a moça de Bauru”.

 

Para a família da “moça de Bauru”, a diarista, ainda bastante abalada, dá um conselho. “Briguem para que ele não saia da cadeia nunca mais. Lutem por Justiça”, finaliza a vítima.

 

 

 

Passo a passo

 

Quando Roberto Fagundes foi preso pela agressão na madrugada do último sábado em Santa Catarina, não foi constatado que havia o mandado de prisão por conta do desaparecimento de Fernanda Tripodi, em 2

9. O motivo: os bancos de informações da polícia são estaduais.

 

Com isso, o principal suspeito do crime quase foge novamente. “Foi arbitrada uma fiança para ele. Mas o valor não foi recolhido e ele foi preso. Se tivesse pago, poderia ter desaparecido de novo”, conta o titular da DIG, Kleber Granja.

 

Entretanto, as investigações continuaram e os policiais foram verificar se Fagundes respondia por algum processo em Santo Antônio da Platina (Paraná), cidade natal do acusado. “No ano passado, eu fui a Maringá (PR) para investigar um caso de sequestro. Aproveitei para deixar um dossiê completo do caso lá e pedi para que fosse distribuído nas cidades vizinhas. Foi assim que tudo se ligou”, completa.

 

Agora, o delegado não descarta realizar uma reconstituição do crime. Outra ponta pendente é a participação de mais pessoas. Quando a vendedora desapareceu, dois homens, amigos de Fagundes, foram presos e liberados 6

dias depois, por falta de provas.