07 de julho de 2026
Articulistas

O poder das palavras

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"Lutar com palavras/é a luta mais vã./ Entanto lutamos/mal rompe a manhã". Drummond tem três poemas onde relata o quanto é difícil enfrentar o poder das palavras, "Algumas tão fortes/como o javali". Diderot e d?Alembert, que inventaram a Enciclopédia no século 18, foram ameaçados de prisão e morte por terem simplesmente relatado o sentido popular de algumas expressões. Depois da publicação do seu Dicionário Filosófico (1764), Voltaire teve que fugir da França por ter dado sentido político e filosófico a certos conceitos que permeavam a sociedade do seu tempo. No verbete "japonês" há coisas como "bêbado que perturba o sono do cidadão". Os japoneses, acostumados ao saquê, à época andaram abusando do absinto, dez vezes mais forte. Partiram para a esbórnia gritando pelas ruas de Paris em um idioma completamente desconhecido.

Tinha razão Carlos Drummond de Andrade: "certas palavras não podem ser ditas/ em qualquer lugar e hora qualquer". Quem não quer encrencas, deve pronunciá-las com todo cuidado, "sacralmente". Qualquer pequeno deslize pode provocar tragédias. O fim de uma Copa do Mundo de Futebol, por exemplo. A não ser que o emissor tenha poderes de Tibério. Uma vez, seu conselheiro Ateio chamou a atenção do imperador pelo vício de usar palavras vulgares. "Tudo o que César pronuncia é latim, do mais puro" ? respondeu. Nem tanto poder tem o secretário-geral da Fifa Jerôme Valcker. Ele quase põe em risco o campeonato, no Brasil, quando disse que o "país precisava de um pontapé no traseiro" para cumprir com mais presteza as tarefas impostas. Segundo os multilíngues, "se donner um coup de pied aux fesses", na França não tem o mesmo sentido que atribuímos aqui no Brasil à expressão. Lá, significa apenas "acelerar o ritmo". Em inglês, "kick your behind" equivale ao nosso maternal puxão de orelha. Qualquer que seja o entendimento, chute na bunda também tem suas vantagens porque empurra o indolente para frente. O presidente Joseph Blatter veio ao Brasil, falou com Dilma, Pelé, Ronaldo, com Aldo Rebello. Tudo terminou em churrasco e com a promessa do país fazer, direitinho, as lições de casa.

Palavra é chama! O Ministério Público Federal de Uberlândia quer tirar de circulação o dicionário Houaiss por revelar acepções pejorativas à palavra "cigano", que teriam "caráter discriminatório". O dicionário, muito a propósito também chamado de "pai dos burros", apenas indica os sentidos ? sejam eles elogiosos, pejorativos ou neutros ? que uma palavra tem no corpo vivo da língua. Dicionários servem para ler a língua, não para escrevê-la. Para escrever existem as gramáticas, os manuais de redação. O procurador federal pede indenização de R$ 200 mil ao Instituto Antonio Houaiss, em nome dos 600 mil ciganos existentes no Brasil. Acusa o dicionário de conter conotações pejorativas no verbete "cigano", como "aquele que trapaceia", "velhaco". Seguindo esse raciocínio, teríamos que cassar a letra do baião Asa Branca, na qual Luiz Gonzaga fala em "tamanha judiação" para os efeitos da seca no sertão. E a Nega do Cabelo Duro, de Davi Nasser, "qual é o pente que te penteia, ô Nega?". Polaca tanto é quem nasce na Polônia quanto meretriz, no Sul. Judeu, turco, crente têm significados pouco louváveis na boca do povo. O dicionarista há que registrá-los, sem que tipifiquem Crime de Racismo, como quer o Ministério Público. O procurador federal não é um profissional qualquer. É membro de uma elite que passou por um processo altamente seletivo. Ganha bem para procurar que a justiça seja feita, na República. Diz o brocardo jurídico que "o que não está nos autos não está no mundo". O inverso também se aplica na prática desses profissionais. É o positivismo do direito. Enquadrou no art. 20, Lei 7716/89? Tá denunciado. Que se defenda o prejudicado. Também "denunciei" o Houaiss quando, na sua primeira edição, disse que "bauru", além de cidade do Estado de S. Paulo, era o nome de um sanduíche feito de "presunto, queijo e ovo frito". Na segunda edição, a receita já estava igual a do Skinão. Inclusive, menciona a lei do então vereador Ávila, oficializando os ingredientes. Estamos sempre em luta com as palavras, frases e significados. Volto a Drummond: "E tudo é proibido. Então falemos".

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC