Março de 2013. Lá estará Tio Gastão às voltas com suas empreitadas na saúde. E é o próprio quem projeta um amanhã produtivo apesar da inevitável “aposentadoria formal”.
Ao completar 70 anos, em 18 de junho deste ano, o carismático superintendente do Centrinho entrará, necessariamente, para o grupo dos inativos. Inativo? “Deus-me-livre!”, reage. “Se ficar em casa, morro. Implico com a mulher, com o neto...”.
A aposentadoria compulsória dos septagenários é norma da USP. Mas até que isso, de fato, ocorra - e um novo nome tirado de lista tríplice assuma a cadeira de comando do hospital -, o cidadão José Alberto de Souza Freitas caminha para ser professor sênior da Universidade de São Paulo.
Seja como for, ativo em seus contatos pessoais. “Tenho necessidade extrema de gente”, explica.
Cacau no caminho
Projetos, aqui e em Brasília, são citados. Um Centrinho na capital federal? Pode ser, já há conversas. Planos para Bauru? Sim. Destaca a pós-graduação em ciências da saúde no Centrinho (parceria com o hospital Lauro de Souza Lima).
Também quer ver o “predião” prestar atendimento hospitalar a deficientes físicos via Rede Lucy Montoro. Nem espectador, nem protagonista. Facilitador. “Sei alguns caminhos”. Pode-se dizer, atalhos. Como levar chocolates a secretárias e assessores de ministros. “Aqueles chocolates com bastante cacau”, detalha.
Reconhece: sem se aproximar do poder, inclusive (e especialmente) do segundo escalão, nada sai. Tio Gastão tem agora o poder de sair de cena. Com ou sem cargo, não deverá exercê-lo.
Renascido após 10 dias na UTI
Há quatro anos, num 10 de fevereiro, Tio Gastão diz ter nascido de novo, mas de forma bem diferente daquela de 1942, em Lindóia.
Ele ficou dez dias na UTI e um total de 50 dias em hospital de São Paulo com embolia bronco-pulmonar. “Lembro de estar no Sírio (Libanês) e, lá dentro, enviar bilhetinhos para o então vice-presidente José Alencar, também internado”.
Tio Gastão também lamenta “a perda do olho esquerdo”. Um grave problema de visão, imperceptível ao olho nu. “Sempre pensamos que o problema da gente é o pior, mas não é”. Ele se refere às crianças com deficiência auditiva que unidades do próprio Centrinho ajudam a reabilitar. E aos portadores de anomalias congênitas cujos casos mais graves, associados a cardiopatias, chegou a pensar que poderiam ser atendidos via SUS em Bauru, o que não mais ocorrerá.
Gratidão, crescimento e filosofia
Em 12 minutos, Tio Gastão elenca um nome atrás do outro. “Preciso agradecer quem ajuda”. São políticos ou ex-políticos que, a seu modo, colaboraram para que o Centrinho se tornasse referência em fissura labiopalatina e deficiência auditiva, segundo ele.
“O doutor Alcides, por exemplo, ajudou muito mais do que possa acreditar”, lembra, em referência ao empresário e ex-deputado Alcides Franciscato. A ele somam-se citações a Delfim Neto, Jarbas Passarinho, José Serra, Ernesto Geisel, Flávio Arns, entre outros. “Bem se vê que o Centrinho cresceu rápido, mas não sozinho”, destaca Tio Gastão.
Ao todo, são 83.829 pacientes cadastrados e 760 funcionários. Uma evolução também tem seus efeitos colaterais. “Espero que o hospital possa recuperar sua filosofia inicial, de muito contato direto com pais e pacientes para entender melhor o mundo e a necessidade deles. É uma falha nossa deixar que isso se perca”.