08 de julho de 2026
Bairros

Plante seu jardim

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Era uma vez uma viela

 

Osmar Antônio Godoy aprendeu, com seus 67 anos de vida, que viver não basta. É preciso ser feliz, ter sonhos e ir em busca deles. Ser apenas mais um neste mundo não o interessa. Ele quer fazer a diferença. 

 

E foi justamente essa a motivação para que ele decidisse transformar a viela localizada próxima a sua casa, no Novo Jardim Pagani, em um belo jardim, cheio de flores, sombra e borboletas.

 

A iniciativa foi posta em prática em meados de 2

1

, mas o projeto era parte de um sonho antigo.

 

“Eu via aquela viela toda cheia de mato, entulho e animais peçonhentos e não me conformava. Como podia morar em um lugar com uma paisagem como aquela. Por isso, resolvi fazer minha parte e dar o exemplo”, conta.

 

A primeira etapa da transformação foi a limpeza da viela, que teve apoio de algumas empresas de iniciativa privada. Do local foram retirados muitos baldes de caramujos africanos e quilos de entulho.

 

“Depois, desenhei o modo como eu queria que a viela ficasse e comecei o trabalho. Fiz as guias, plantei flores, dei toda a manutenção necessária, e ainda consegui patrocínio para parte dos custos. A ajuda foi pouca, mas essencial”, relata.

 

Processo que está registrado tim-tim por tim-tim nas páginas de uma pasta cheia de fotografias, recortes e registros, que ele leva debaixo do braço e tem na capa a seguinte descrição: “aqui está a dedicação, o esforço e a perseverança de quem quer e faz”.

 

A viela foi solenemente inaugurada em 19 de fevereiro de 2

11 e hoje serve de inspiração para outras do bairro. Vendo o trabalho que teve – e ainda tem para manter a viela-jardim -, seo Osmar sente orgulho e tranquilidade.

 

“Gosto de me sentar aqui no chão, aproveitar a sombra, conversar com as plantas e refletir”, conta, sereno.

 

E quem ousa dizer que ele está errado? Afinal, já diz o ditado: o que se leva da vida é a vida que se leva.

 

 

 

De mãe para filha

 

Quem caminha pelo jardim criado na Vila Giunta por Adélia Videlis Caetano, 84 anos, e mantido por sua filha Josefina Videlis Caetano, 61 anos, demora a se dar conta que o recanto verde está localizado bem ao lado de uma movimentada rua da cidade, responsável por ligar o bairro à Vila Independência.

 

Dezenas de espécies de flores, todas esbanjando cor; muitas folhagens e o frescor fruto da combinação da terra molhada com a abundância de sombra chamam a atenção de quem passa pelo local e fazem esquecer por alguns minutos o cenário que circunda o recanto.

 

“Tudo começou há 25 anos. O terreno tinha apenas mato, lixo e entulho. Minha mãe, inconformada com aquilo, começou a fazer a limpeza aos poucos. Com o tempo, fomos plantando as flores e o espaço adquiriu a cara que de hoje, de jardim”, relembra Josefina, que herdou da mãe a responsabilidade para cuidar da praça.

 

Neste meio tempo, muita coisa aconteceu, mas nada fez mãe e filha desistirem de seu objetivo. Josefina contou que, certo dia, um trator que estava fazendo a instalação de esgoto do bairro teve de por cima de parte do jardim. Mesmo os operários tendo o cuidado de retirar as plantas maiores, dona Adélia sentiu o baque.

 

“Ela não aguentou e chorou”, lembra Josefina, que replantou todas as espécies suprimidas na obra.

 

Hoje, pitangueiras, manacás, roseiras, azaleias, mimos, hibiscos, bananeiras, entre outras espécies, fazem da praça provisoriamente nomeada Adélia Caetano um lugar especial no bairro.

 

Mas, para mantê-lo, Josefina tem muito trabalho. Além de regar diariamente as flores, ela mesma faz as podas, combate os caramujos e cuida para que o mato não tome conta do lugar.

 

“O problema é que minha saúde não é mais como era antigamente. Hoje sinto dificuldades. Minha mãe também não tem mais idade pra me ajudar. As pessoas acham muito bonito, mas ninguém se prontifica a ajudar”, reclama.

 

 

 

Paixão e terapia

 

“Preocupo-me muito com a viela. Fico pensando o que será dela quando eu me for. Meus filhos já estão criados, mas a viela... Ela depende de mim”. É com essa frase que Marlene Baruffaldi Stevanato deixa transparecer a relação de paixão que construiu ao longo de 22 anos com a viela localizada em frente a sua casa, no Jardim Pagani.

 

Tudo começou quando, inconformada com o abandono do local, Marlene decidiu tomar a iniciativa e transformar o espaço em um belo jardim.

 

“Tirei umas 5

carroças de entulho”, lembra.

 

A princípio, o trabalho não recebeu apoio da família. Seu marido costumava dizer que o trabalho seria vão, afinal, a viela era pública. Com o falecimento dele, Marlene encontrou no trabalho uma terapia.

 

“Decidi fazer as coisas que pensava e gostava. A partir daí, não me importei mais com a opinião dos outros. Faço o que considero certo”, justifica.

 

Aos poucos, Marlene comprou algumas mudas de flores e as plantou no local. Muitas foram roubadas e ela pacientemente as substituiu. Com o tempo, o jardim conquistou o respeito da vizinhança e hoje serve de exemplo para outros locais do bairro.

 

“É minha paixão. Passou horas aqui, varrendo, aguando, podando... Gosto deste trabalho e como não trabalho fora, sinto-me na obrigação de ajudar o bairro de alguma forma. Mas, caso eu falte um dia, já estou preparando meu sucessor”, brinca, apontando o vizinho Ronaldo Pereira.

 

Nas horas de folga, Marlene aproveita para colher o que plantou. Usa a sombra das árvores da viela para ler um livro e conversar com os amigos.

 

“É uma delícia. Quando eu morrer, vão me ver por aqui, cuidando da viela e desfrutando dela”, promete, brincando.