09 de julho de 2026
Geral

25 de Março: mais que uma data, o reinado das sacoleiras

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 11 min

Divulgação

Clarice Teófilo Astolfe, guia de excursão há 2

anos

É data, mas pode chamar de rua

 

Gente nas lojas, gente nas calçadas, gente nas ruas. Um mar de gente por todos os lados. Lotada. Faça chuva, sol, calor ou frio, assim fica diariamente a rua 25 de Março e seus arredores que, juntos, formam o maior e mais famoso complexo comercial popular do País. 

 

Por ali, segundo o guia virtual da 25 de Março, passam cerca de 4

mil pessoas diariamente. Gente que vem de todo o canto do Brasil para garimpar a variedade de produtos e de preços oferecidos em larga escala. 

 

O JC foi até São Paulo com uma excursão de sacoleiras conferir o que tem a oferecer a rua batizada com a data de hoje em homenagem a promulgação da primeira Constituição Brasileira, no ano de 1824.

 

Um lugar onde é possível encontrar de tudo um pouco. Ou muito de muita coisa. A primeira impressão, logo pela manhã, é de uma rua comum do comércio popular paulistano. Lojas abrindo as portas, pouca gente pelas ruas... Mas, em poucos minutos, a correria e um batalhão de consumidores e de vendedores invadem tudo dando cor, som, cheiro e ritmo à rua, fazendo dela, o que ela mais tem a oferecer: variedade.

 

Variedade de produtos, é claro, mas também variedade de gostos, desejos, procura. Na 25 de Março as pessoas se misturam pela necessidade e prazer das compras. É possível ver desde as ilustres e fortes sacoleiras, que entram de loja em loja, atravessando as calçadas, atarefadas, ávidas pelos melhores produtos e preços, apressadas. Lá, tempo é dinheiro. E de tênis nos pés, elas conseguem como guerreiras carregar o peso das compras. 

 

Mas também é fácil encontrar senhoras bem vestidas, andando devagar, passeando pelas lojas e vendo a vida agitada que por ali existe. Famílias também vão às compras e as crianças se divertem com os artistas de rua nas calçadas.  

 

 

 

Calçadas

 

E por falar em calçadas, abrigam uma infinidade de universos paralelos: estátuas vivas, camelôs autorizados, ambulantes bolivianos que juntam seus produtos rapidamente quando a polícia passa e saem correndo para voltar segundos depois, policiais que tentam fazer a segurança das milhares de pessoas, pastores evangélicos que disputam o ouvido dos pedestres com o apelo dos moços contratados pelas lojas para “cantar” os seus produtos... E uma infinidade de caixas e sacolas nos ombros, mãos ou carrinhos dos consumidores.

 

 

 

Lojas

 

As protagonistas da rua são mesmo as lojas que atraem os consumidores e fazem ferver o caldeirão da 25. Ao primeiro olhar, elas são pequenas portas iguais umas ao lado das outras. Entretanto, ao entrar nas unidades, mostram sua extensão e infinidade de produtos. Muitas dessas lojas possuem mais de um andar.

 

Bijuterias, artigos para presente, acessórios para festas, fantasias, eletroeletrônicos, roupas, bolsas e acessórios, embalagens... É possível encontrar isso e todo o tipo imaginável de produtos importados.

 

 

 

Dois lados da mesma moeda

 

Enquanto comerciantes e consumidores pagam e recebem dentro das lojas, fora delas há moradores de ruas e dependentes químicos que preambulam em busca de um trocado para um lanche, ou mesmo para sustentar o vício. Deitados nas calçadas ou revirando o lixo, é inevitável notar que eles também fazem parte da variedade da rua 25 de Março.

 

Outro problema notado pelo JC é a falta de acessibilidade da rua mais famosa do comércio popular de São Paulo. Para todos, mas, infelizmente, nem tanto assim.  

 

 

 

Um corredor de pura história

 

Até pouco antes de 185

, a rua 25 de Março era, literalmente, um rio. Um leito do Tamanduateí, totalmente navegável, corria no atual traçado da via, recebendo as águas do rio Anhangabaú e desaguando no famoso rio Tietê. 

 

Havia ali um porto que servia de escoadouro para as mercadorias importadas, que chegavam de navio em Santos, subiam a serra de carroça e, posteriormente, pela estrada de ferro Santos-Jundiaí e alcançavam o Ipiranga. De lá, eram levadas via Tamanduateí até um porto para barcas, o chamado Porto Geral - daí o nome da conhecida ladeira. 

 

O rio foi retificado, a área da Várzea do Carmo foi drenada e surgiram as primeiras chácaras na região. A via, então, foi chamada de Rua de Baixo, dividindo a cidade em duas partes: a Alta e a Baixa. Nesse período, o comércio, comandado pelos primeiros imigrantes árabes, concentrava-se na parte de cima, mais precisamente onde hoje, está a rua Florêncio de Abreu. Com a urbanização pós-drenagem, os aluguéis começaram a subir e quem pisava lá pela primeira vez se instalava na parte baixa, onde os preços eram mais acessíveis. Chegaram os bondes e o trecho principal foi rebatizado, em 1865, como 25 de Março, homenagem à data da promulgação da primeira Constituição Brasileira, ocorrida em 1824.

 

 

Fonte:  www.guiada25.com.br

 

 

 

Região conquista pela diversidade

 

Nem só de 25 de Março vive o comércio central paulistano. Os arredores da rua mais popular do Brasil reúnem atrações que também englobam a gastronomia. 

 

Nesse quesito, o destaque vai para o tradicional Mercado Municipal de São Paulo, que fica na rua da Cantareira, do ladinho da 25 de Março e do Parque Dom Pedro. 

 

Inaugurado em 1933, o “Mercadão” é um dos conglomerados comerciais de atacado e varejo mais importantes do País. História à parte, é impossível não se maravilhar com o cheiro bom das frutas que se espalha e perfuma todo o grande “galpão”.

 

Especializado na comercialização de frutas, verduras, cereais, carnes, temperos e outros produtos alimentícios, o lugar tem como marcas registradas os famosos e saborosos pastel de bacalhau e sanduíche de mortadela. Isso sem falar nos vinhos e azeites importados, muito apreciados pelos que passam pelo lugar.

 

Entre os milhares de visitantes é possível encontrar figurinhas carimbadas do meio artístico fazendo matérias ou mesmo saboreando o que o espaço tem a oferecer. Quando o JC esteve por lá, encontrou o cantor e humorista Falcão, que distribuiu simpatia enquanto participava da gravação de um programa de TV. As frutas representam atrações à parte, principalmente pelo tamanho fora do comum. Procura por uma fruta exótica? Lá você encontrar a pitaya colombiana por R$ 99,99 o quilo ou a granadila por R$ 89,9

, que garante ser um bom relaxante muscular. 

 

 

 

Feira da Madrugada: mandarim e português

 

Às 3h da manhã ela já tem vida. A Feira da Madrugada, no Brás, é um convite para quem quer bons preços e não tem medo de tumulto.

 

Imagine um grande espaço aberto cheio de boxes individuais e cobertos. Muitos boxes de chineses, bolivianos e alguns brasileiros. A gigantesca feira “briga” pelo mesmo espaço que os ônibus de excursão e, nas primeiras horas da madrugada, tem o cheiro forte de uma comida típica que os chineses consomem como café da manhã.

 

Ao contrário da 25 de Março, na Feira da Madrugada eles pouco usam a voz para anunciar seus produtos, ao menos nas ruelas formadas pelos boxes. E não precisam mesmo anunciar, já que eles estão todos ali, expostos nas bancas. 

 

O espaço apertado é dividido pelos mais diversos produtos importados: roupas, bijuterias, lenços, relógios, pequenos eletrônicos, meias, brinquedos... E do pagode paulistano às músicas românticas em mandarim, o som da Feira da Madrugada também tem música.

 

 

 

Sacoleira ‘reina’ na 25 de Março

 

A viagem das sacoleiras e lojistas começa já na Praça Rui Barbosa onde se reúnem para embarcar na excursão que as leva até a rua 25 de Março, Feira da Madruga e ladeiras e mais ladeiras de compras. Lista de presentes completa, elas e eles - a maioria elas -, partem para o estacionamento do shopping Azulão, no Brás, em São Paulo. O grupo acompanhado pelo JC saiu de Bauru na quarta feira às 21h45, chegou ao destino na quinta às 3h e retornou a Bauru às 15h. Foram 12 horas de compras, aventuras e batalha pelo pão de cada dia.

 

O bagageiro do ônibus que vai praticamente vazio, ocupado apenas pelos carrinhos com rodinhas, volta recheado por sacolas e caixas que disputam lado a lado cada vão do espaço. Acostumadas com a rotina quase que semanal, elas vão preparadas e o mais confortáveis possível.

 

Cobertores, travesseiros, roupa e sapato confortáveis são itens necessários para a viagem. Na ida, o descanso é fundamental e o silêncio prevalece para o sono que é quebrado apenas com uma parada na estrada para um lanche rápido e aquela esticada nas pernas.

 

Ainda é muito cedo quando as “turistas de toda a semana” chegam em São Paulo. A primeira a sair do ônibus é a guia, Clarice Teófilo Astolfe, que prepara o café da manhã do grupo. Ela explica que a primeira refeição do dia é importante para deixar o pessoal em pé depois de entrar e sair de tantas lojas e de carregar as sacolas com as mercadorias escolhidas.

 

E o café é completo. Pães, biscoitos, café, chocolate quente e frutas não podem faltar. Com a lua ainda brilhando no céu, algumas começam a descer do ônibus para pegar as melhores mercadorias na Feira da Madrugada. Enquanto isso, outras aproveitam para dormir enquanto esperam as lojas da 25 de Março abrirem.

 

 

 

Operação compras

 

Dinheiro, cartões, celular, documentos e lista de compras vão bem guardadas em uma bolsa na frente do corpo para evitar os comuns roubos. Normalmente, os “gatunos” são espertos a ponto de cortar a bolsa, retirar os pertencer sem ao menos a vítima perceber. 

 

Pessoas chorando pelo prejuízo é cena comum na região. Por isso, todo cuidado é pouco. Muitas realizam as compras em um determinado lugar, levam as sacolas no ônibus, a pé ou de táxi, e voltam para comprar mais. Assim, as mãos ficam livres para mais sacolas e as compras ficam seguras. 

 

O que é bastante comum são os fretes de carrinho de mão. Homens que ficam em determinados pontos e cobram um valor que depende da distância a ser percorrida com a mercadoria.

 

 

 

Cliente vip

 

Outra dica das consumidoras é a atenção e a pesquisa na hora das compras. Os preços e a qualidade dos produtos variam de loja para loja ou de banca para banca. E como negociar nem sempre é possível, o segredo está na pesquisa.

 

O que é bastante comum é a sacoleira fidelizar as compras, ou seja, eleger as que para ela são as melhores lojas e ir direto ao ponto. Com isso, ela ganha tempo, atenção das vendedoras que já a conhece e a chama pelo nome ou até apelido, além de mimos das donas das lojas, como cafezinho, refrigerante...

 

 

 

2

anos de estrada

 

Clarice Teófilo Astolfe tem uma loja de bijuterias e presentes na quadra 1 da rua Batista de Carvalho, em Bauru, mas há 2

anos ela atua como guia e freta ônibus para levar sacoleiras a São Paulo.

 

“Isso já faz parte da minha vida. As viagens fazem parte da minha rotina duas vezes na semana. Fiz muitas amizades ao longo desses anos e vi de tudo um pouco”, conta.

 

Entre as idas e vindas, Clarice lembra que já riu muito. Uma de suas histórias mais pitorescas diz respeito a uma dentadura. Isso mesmo. A guia lembra que uma passageira entrou rindo no ônibus e deixou cair a dentadura. 

 

“Ela disse que não voltaria para Bauru sem os dentes e foi aquela algazarra. Todo mundo ria enquanto procurava o objeto perdido. Enfim, um senhor encontrou a dentadura e a mulher colocou na boca com terra e tudo. Foi hilário”.

 

 

 

Pronta para o que der e vier

 

“A gente precisa estar preparada para viver um dia intenso. O tempo pode virar a qualquer momento, a rua pode estar tranquila e, de repente, ficar lotada de pessoa e com o trânsito congestionado. As lojas podem apresentar coisas repetidas e ser preciso pesquisar muito para achar produtos diferenciados...”, relata a comerciante Márcia Yadomi, que tem uma loja de acessórios para festas, semijoias e presentes na galeria 21 Center, em Bauru.

 

Márcia ainda relata que é muito comum se ver diante de confusões envolvendo polícia, camelô e roubos. Em um piscar de olhos a bolsa pode ser aberta, e lá se foi o dinheiro e as compras, ficando o trauma e a frustração no lugar.

 

Há 19 anos ela viaja para São Paulo em busca das melhores novidades para suas clientes. E conta que vai sempre com uma lista que apelidou de “os impossíveis”, com pedidos dos mais variados. Com lista nas mãos, ela começa a busca pelos objetos. A correria é tanta que, muitas vezes, não há parada nem para o almoço. Cada minuto das sacoleiras é sagrado no mar de opões que a 25 de Março representa, onde é preciso navegar com atenção e olho clínico. “Há lutas e dificuldades, mas também há muitas vitórias”, acredita.

 

 

 

Se sente em “casa”

 

Em terra onde grande parte do comércio é dirigida por chineses, a comerciante Selina Wang se sente em casa. Nascida na ilha de Taiwan, ela veio para o Brasil com a família ainda menina, aos 12 anos de idade, e desde então vive em Bauru, onde tem comércio no minishopping da Batista de Carvalho junto do marido e dos filhos.

 

Selina diz que gosta muito do trabalho de compra e venda, profissão que está no sangue da família. E quase toda semana a rotina dela se mistura a de milhares de mulheres que desbravam a rua 25 de Março e seus arredores em busca dos melhores produtos e preços para a revenda: “Quase tudo que se vende no comércio popular de São Paulo vem da minha terra. Estou em casa quando negocio com os chineses”, diz.

 

Selina é exemplo no quesito manter a tradição. Mais do que trabalhar com produtos importados, ela mantém viva a língua oficial da China. A comunicação com a família, amigos e conterrâneos é sempre em mandarim.