09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Isolina Bresolin Vianna

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 9 min

‘Melhor do que Bauru, só Paris’

 

A impressão que passa a escritora, professora e jornalista Isolina Bresolin Vianna é de fragilidade. Três minutos de conversa com essa senhora, com dificuldade em ouvir e visão prejudicada, mudam a perspectiva. 

 

Aos 84 anos, Isolina poderia ser esnobe tamanho é seu conhecimento e vivência de vida. Ela é segura ao defender suas posições sem retoque nas ideias : “Um pouquinho melhor que Bauru, só Paris”, logo avisa.

 

Isolina conhece Londres, Madri, Jerusalém, Tel Aviv e Salzburg (Áustria), além da capital francesa. Fala cinco idiomas.  A escritora diz que não gosta da língua inglesa. Contraditoriamente, seu escritor predileto é exatamente o inglês Charles Langbridge Morgan.  Isolina argumenta que a preferência pela obra de Charles Morgan é uma demonstração de que não nutre preconceito.

 

Ela é apaixonada pelos familiares aos quais se refere com emoção da nora Wânia, das netas Graziela e Gisele e dos bisnetos Mateus e Ana Laura. Na sequência, Isolina fala da vida, ensina como um intelectual deve se comportar, como os moços devem encarar os idosos e cutuca as mulheres com um conselho.

 

 

 

Jornal da Cidade – Qual a sua relação com Bauru?

 

Isolina Bresolin Vianna – Posso dizer que um pouquinho melhor que Bauru, é Paris (risos). Conheço Paris, Londres, Madri, Jerusalém, Tel Aviv. E passei por Salzburg. São cidades maravilhosas. Mas um pouquinho melhor do que Bauru, só Paris. 

 

 

 

JC - Então a senhora é adepta de que quem faz o lugar é a pessoa?

 

Isolina - Não há dúvida nenhuma. Você se sente bem no lugar onde participa, onde você é um fator de progresso, de aprendizado, de amizade, de camaradagem. 

 

 

 

JC - Como surgem as histórias que a senhora escreve no Politicando do JC? 

 

Isolina - São lembranças de leituras. Algumas até do próprio Jornal da Cidade de outros tempos. Sou uma pessoa que lê por semana de dois a três livros. Então são leituras, lembranças, teses,  monografias e livros que eu faço revisão. E continuo aprendendo porque isso tudo me leva a outros assuntos e a aprender outras coisas. Então, é um eterno aprendizado. 

 

 

 

JC - Qual sua avaliação dos políticos?

 

Isolina - Lamento imensamente dizer que eu acho a situação dos políticos de altos coturnos lamentável. Acho muito bom que esteja havendo um movimento, praticamente nacional, por parte da imprensa, de levar esses safados e corruptos a prestarem conta dos seus atos. Então eu acho que essa nova imprensa investigativa é o que vai acabar salvando o nosso país. 

 

 

 

JC - A senhora guarda que imagem da transformação de Bauru?

 

Isolina - Em Bauru, a fila não parou, não. A fila andou. A cidade evoluiu e, hoje, é capital de uma região.

 

 

 

 

JC - Que lembranças a senhora tem da Maria-Fumaça?

 

Isolina - Ah! Lembranças muito agradáveis. Como moro do lado da via férrea, desde pequenos, os meus bisnetos, hoje com 8 anos, já escutavam o barulho da Maria-Fumaça. E nós íamos fazer o passeio da Maria-Fumaça. Pegávamos ali, na porteira da Fepasa, encostada na minha casa e íamos até a estação central e voltava. Era uma alegria para as crianças. 

 

 

 

JC - Defina a sua relação com a leitura?

 

Isolina – Pela manhã, leio o Jornal da Cidade e o Agora. Já minha relação com os livros é familiar. Porque eles é que são meus filhos, os meus irmãos, os meus maridos. Eles são os companheiros inseparáveis e sempre à disposição. Já pensou que o livro é um amigo que está à sua disposição na hora que você quiser. E que, também se você não quiser, põe para lá e ele não fala nada, não acha ruim. Fica quietinho lá e depois você vai buscar. É aquele amigo que perdoa sempre, tolera sempre, acompanha sempre. 

 

 

 

JC - Como é sua faceta de tradutora?

 

Isolina - Tenho traduzido muito e me gratificado com esse trabalho que, aliás, quem me levou para ele foi o Jair, da Jalovi. A ponto de fazer traduções dificílimas, como “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”. É um livro publicado em 186

e em um francês clássico da época. Um francês difícil que não é o francês que se aprende na faculdade em alguns anos. Eu falo cinco idiomas neolatinos. Eu falo espanhol, italiano, francês, latim e português. Imagine um diálogo entre Maquiavel, do século XV, e Montesquieu, do século XVIII. Na porta do inferno. Montesquieu é o pai das leis e eu já tinha feito a tradução das Leis de Montesquieu. Maquiavel, o maior fraudador de leis. Então o diálogo entre eles é fabuloso e eu fiz essa tradução e aprendi muito. Maquiavel aconselha ao príncipe a pôr impostos bem escorchantes e, quando o povo começar a reclamar, pegar um pouco daquele imposto e dar para os mais necessitados. Para aqueles que estão mesmo no fundo do poço. Eles vão ficar felizes e achar que ele é ótimo, maravilhoso e que salvou. Você não acha que tem gente até hoje seguindo esse conselho (risos).

 

 

 

JC - Como a senhora veio morar em Bauru?

 

Isolina - Nasci em Piratininga. Faço aniversário em dezembro. Depois que completei 7 anos é que entrei na escola. Não aceitavam porque tinha que fazer 7 anos até junho. No ano seguinte entrei para a escola. Mas lá no grupo escolar não havia lugar. Tanto pererequei que acabou criando uma classe fora da escola para poder atender a crianças que já estavam querendo escola e não tinham lugar. Mas aí essa escola só ia até o terceiro ano. Quando chegou no quarto ano, a minha família mudou para Bauru para eu fazer o quarto ano e eu fiz aqui no Lourenço Filho. Eu tinha 1

anos.

 

 

 

JC - Como percebe as mulheres pioneiras como a senhora?

 

Isolina - Eu vou dizer uma coisa que pode parecer que estou na contramão da história. Porque toda essa luta que as mulheres querem ter essa ou aquela superioridade sobre os homens, para mim, isso não vige. Eu nunca encontrei um homem que não fosse para mim delicado, gentil, cavalheiro. Eu tive dois casamentos. No primeiro, com doutor Carlos Ribeiro Viana, um advogado. No segundo, com doutor  Romeu Yague, médico. Fui a primeira rotariana da região e fui recebida como um rotariano mesmo, com toda a consideração. Os homens com os quais eu convivi, irmãos, pais, primos, todos sempre me trataram com tapete vermelho. De modo que eu não tenho nada para reclamar e nem reivindicar de homens. Tenho para mulheres um conselho. Se elas forem damas, eles serão cavalheiros.

  

 

 

JC -  Seu nível intelectual e sua postura convicta não amedrontam os homens?

 

Isolina - Talvez você tenha razão. Mas é por isso que eu digo que, se as mulheres se comportarem como damas, eles serão cavalheiros. Como na telenovela, se ela partir para bater no marido, o marido também irá bater nela.

 

 

 

JC - O fato da senhora estar sempre ‘antenada’ com seu tempo ajuda a abrir portas?

 

Isolina - Muitas vezes, o idoso é visto com certo preconceito porque as pessoas são levadas a crer que ele não valoriza o presente e só valoriza o passado. Isso comigo não é verdade. Eu leio diuturnamente e escrevo.  Eu leio monografias técnicas e de alto nível. De finanças, direito, de nutrição. Dos mais variados assuntos e atuais. Eu vivo o meu tempo.

 

 

 

JC – A senhora já pensou como é a morte?

 

Isolina –  Eu sou ligada à filosofia doutrinária de Allan Kardec. Então acredito em uma vida no além e estou preparada para assumi-la na hora que eu for chamada.

 

 

 

JC – O seu livro “Masmorras da Inquisição” tem profunda relação com sua vida.

 

Isolina – Eu tive um único filho, Carlos Ricieri Bresolin Vianna que faleceu aos 34 anos.  A história está relatada no começo desse livro (“Masmorras da Inquisição - Memórias de Antônio José da Silva, o Judeu”). Como o Antônio José do livro, ele deixou duas netas e morreu aos 34 anos, exatamente como José da Silva, o Judeu. Um dos motivos que me levou a ter como tese de doutorado a vida de Antônio José e a publicação do livro foi justamente as coincidências da vida dele, da minha e do meu filho. Tanto é que na minha defesa de tese falando dessas coincidências, o meu filho disse: “Mamãe, agora só falta eu morrer com 34 anos e deixar duas filhas e esposa”. E ele morreu com 34 anos, deixou as filhas e a esposa. Não faltou nada. Meus bisnetos, Mateus e Ana Laura, são minha paixão. 

 

 

 

JC – Que livro a senhora está planejando escrever?

 

Isolina – Estou terminando “Vida Virtual”. 

 

 

 

JC – E sem utilizar a Internet?

 

Isolina – Se eu tiver Internet eu não leio três livros por semana. Como vou revisar minhas teses e monografias e como vou fazer minhas traduções? Uso meu computador como máquina de escrever. Se eu preciso de uma informação, eu vou nos meus livros. Quem não tem um bom acervo, precisa da Internet.

 

 

 

JC – Qual sua opinião sobre a Internet?

 

Isolina – Eu costumo dizer que eu não tenho hábito da leitura. Eu tenho vício da leitura. Eu não vivo sem ler. Não dá para eu ir para a Internet. O grande perigo da Internet é a pessoa se acostumar a ter informação que ela quer e na hora que ela quer, na maior facilidade. Isso faz com que ela não estude. Ela não procure reter a cultura. Então a cultura dela é passageira e só sabe quando consulta a Internet. Mas não fica. Ela aprende, mas não apreende.  

 

 

JC – A televisão não é superficial?

 

Isolina – Eu, como todo intelectual metido a besta, achava que a televisão era para a massa, era para a plebe. Quando comecei a me aprofundar nos estudos, fiz especialização, mestrado e doutorado, tive aula com o ator Mário Lago. Ele explicou o que representam as novelas da TV. Falou para observar: “Aquilo que eles enfocam é o que está na mídia. É como se fosse o pensamento global”. Comecei a prestar a atenção principalmente nos programas informativos e a observar que esse negócio de achar que televisão era escapismo era esnobismo da minha parte. 

 

 

 

JC – A senhora mantém uma postura bastante crítica sobre como deve funcionar a Academia Bauruense de Letras.

 

Isolina –  Nossas reuniões são muito importantes, embora a gente ainda tenha muita coisa a aprender. Eu estou tentando fazer com que elas continuem e evoluam. 

 

 

JC – Como divide seu conhecimento e experiência de vida?

 

Isolina – Eu considero que a vida muita longa não deixa de ser espécie de universidade que a gente faz. E uma universidade em que você aprende ou aprende. Não fica para segunda época. Se não aprendeu, vai pagar por isso. Veja bem: aqueles que chegam a uma certa idade, tipo sessenta anos, devem se integrar à universidade da vida. Meu conselho: estudem e aprendam. E, assim, preparem para, na vida do “além”, ter alguma coisa para realmente apresentar. 

 

 

Perfil

 

Nome: Isolina Bresolin Vianna

 

Idade: 84 anos

 

Local de Nascimento: Piratininga

 

Signo: Sagitário

 

Religião: Espiritismo

 

Casamentos: com advogado Carlos Ribeiro Vianna e médico Romeu Yague

 

Filho: Carlos Ricieri Bresolin Vianna

 

Livro de cabeceira: Trilogia “A Viagem”, “A Fonte” e “Sparkenbroke”,  do escritor inglês Charles Langbridge Morgan

 

Filmes: Casablanca e Doutor Jivago

 

Músico: Wolfgang Amadeus Mozart

 

Time: Palmeiras

 

Comida: Bolinho de arroz

 

Para quem dá nota 1

: Nora Wânia

 

Nota

: Políticos corruptos e seus cúmplices