O humor era considerado por S. Thomaz de Aquino como "um bem útil". Assim como o sono está para o repouso corporal, também o humor está para o repouso da alma - reconhecia o doutor da Igreja. Quando morre um humorista o mundo se empobrece e as "pessoas comuns da pólis" perdem seu protetor, pontuava Aristóteles, em sua "Arte Poética". Perdemos Chico Anysio, o nosso mestre do humor. Morrer é fácil, difícil é fazer comédia. Ele deixa mais de 200 personagens criados para defender o pobre, o preto, o nordestino retirante, o mendigo, o preso, o esfarrapado, o homossexual. Essa qualidade Chico reconhecia nos objetos de suas criações. Os ricos é que eram os ridicularizados. Era a sua forma de chamar a atenção para as diferenças de tratamento e preconceitos que separam os estratos da sociedade brasileira. O Brasil melhorou muito nos 60 anos de carreira desse gênio nascido em Maranguape, no Ceará. Não por causa dele, mas também pelo seu humor corrosivo contra as mazelas do país. O Professor Raimundo, talvez o mais conhecido dos seus personagens, pode não ter melhorado "o salário, ó!" dos professores. Eles continuam ganhando muito pouco. Cada vez se arriscam mais a serem espancados e mortos pelos alunos. O "boneco" de Chico, pelo menos, serviu para que todos tenham consciência de que a educação não passa de um tema demagógico no discurso dos políticos.
Chico Anysio deixa extensa obra, mas não deixa herdeiros, fato por si só lamentável. Hoje se fala muito numa tal "stand-up comedy". O piadista se apresenta só, para divertir a plateia com chistes os mais primitivos, como fazer troça com autista, chamar negro de "macaco", coisas tão ruins como dar rasteira em cego. E há quem ria. O escritor Arthur Koestler (1905-1983) tentou estabelecer uma gramática do humor. De um modo geral, rimos quando percebemos um choque entre dois códigos de regras ou de contextos, todos consistentes, mas incompatíveis entre si. Por exemplo: "O masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma uma ducha quente". O masoquista faz o contrário do que gosta porque adora sofrer. A lógica formal não coexiste com seu reverso, daí a graça da piada. Uma variante do mesmo padrão, mas com dupla inversão, é: "O sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista". Essa estrutura de choque de contextos excludentes entre si está presente em todas as pilhérias. Até no mais infame trocadilho há um confronto inesperado entre o significado da palavra e o seu som: "A ordem dos tratores não altera o viaduto". O humor de Chico não era para dar gargalhadas, mas para levar ao sorriso e à reflexão. O seu humor estava no conteúdo e não na surpresa do trocadilho. Diferente do Stanislau Pontepreta, também morto e fazendo falta: "Quem gosta de doce de coco preza muito o circunflexo".
Tive duas experiências com Chico Anysio, encarregado de entrevistá-lo. Pessoa incapaz de um sorriso. Todos os humoristas que conheci ? Sérgio Porto, Leon Eliachar, Didi, Ronald Golias ? eram chatos, pessoalmente. Pareciam que estavam sempre pensando no que dizer de engraçado para o público, sem tempo de se aproveitar do próprio humor. Dizem os cientistas que o humor é algo saudável, pois libera endorfina (hormônio produzido no cérebro que produz sensação de bem-estar e alivia a dor), além de diminuir a pressão arterial e aliviar a tensão. Notei que Chico tinha um caderninho onde escrevia o tempo todo: no carro que o levava para o local do show, no aeroporto à espera do avião. Em qualquer minuto livre ele escrevia no seu caderninho. Deixou 20 livros, principalmente de contos. Aqui em Bauru perguntei-lhe o que tanto escrevia, e ele me disse que era uma história para crianças. Contava as frustrações de uma "Borboleta Cinzenta". Enquanto todas são coloridas ela é cinza. O turbilhão de sentimentos ? que ia da aceitação à inveja das cores alheias ? é aplacada somente no dia em que decide voar pelo mundo. O humorista se entristecia de não ser reconhecido como escritor. "Editaram os Cem Melhores Contos Brasileiros e nenhum é meu". Também era pintor de paisagens marítimas.
Considerava-se o melhor marinista, depois de Pancetti. Também não o reconheceram. A Globo extinguiu seus programas de humor em nome de um "rejuvenescimento" da programação. Agora, a voar pelo céu em companhia da borboleta cinzenta, Chico pode rir em vez de fazer rir. Na terra, permanece, indelével, a marca do seu talento.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC