E lá se vai o companheiro Arcôncio, a caminho da eternidade, carregando consigo seus sonhos, sua dignidade e seus 96 anos de meninice, a maior parte deles vividos na luta por um mundo melhor. Alagoano e ferroviário, no seu cotidiano de dificuldades e sofrimentos foi aprendendo que a exploração não ocorria por acaso, fruto de um sistema onde a dor do oprimido nada significa para os donos do poder.
Militante comunista, participou da histórica greve dos ferroviários de 1949, sendo demitido e preso. As agruras não abalaram sua disposição de luta e suas convicções numa sociedade diferente e eram inevitáveis novas prisões, principalmente depois do golpe civil/militar de 1964. Conheci Arcôncio nos anos 80, quando estudante de jornalismo, e tive a oportunidade de entrevistá-lo. Com o passar dos anos pude compartilhar de sua amizade, suas histórias e sua alegria.
Arcôncio pertence a uma geração de rara estirpe, lutadores incorrigíveis, comunistas convictos, de raro despreendimento e coragem. Homens e mulheres que tanta falta nos fazem neste mundo mesquinho em que vivemos onde muitos, como dizia outro velho comunista falecido, "somente é de esquerda até ter um gato para puxar pelo rabo".
Se existe um paraíso celeste lá certamente estarão todos estes seres memoráveis que deram o melhor de suas vidas por um sonho coletivo: Marighela, Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho, Pagu, Prestes, Olga, Beatriz Bandeira, Alberto de Souza, Elias Calixto e tantos outros e outras, todos atentos à chegada do velho companheiro que os brindará com a beleza da declamação dos versos que aqui na terra sentiremos tanta falta. (P.S.: agradeço ao companheiro Pedroso por algumas informações extraídas do seu livro "Subversivos anônimos".
Arthur Monteiro Junior ? advogado