11 de julho de 2026
Bairros

Após furtos, homem escreve ao ladrão

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Malavolta Jr. 

Marcio mostra janela quebrada pelo assaltante

“Sr. Ladrão”. É desta maneira ironicamente carinhosa que um empresário de Bauru resolveu se referir a quem vem lhe “visitando” inúmeras vezes este ano. Por meio da “Tribuna do Leitor” do Jornal da Cidade, a vítima decidiu se comunicar com o bandido pedindo para que ele amenizasse os danos em seu estabelecimento comercial durante os próximos furtos. Neste fim de semana, porém, o ladrão voltou e não atendeu ao apelo da carta, quebrando portas e janelas do imóvel. 

 

O alvo dos bandidos é uma autoescola na quadra 9 da rua Cussy Júnior, na região central da cidade. O proprietário do local, Marcio Augusto Escarabelo, 38 anos, conta que, em menos de dois meses, foram quatro furtos.

 

“A primeira vez foi no dia 29 de janeiro. Eles arrombaram e levaram cerca de R$ 5 mil”, conta. Depois, os crimes continuaram. “Acho que eles viram que tinha dinheiro e continuaram voltando. Tirei o dinheiro e eles começaram a levar tudo que encontravam pela frente”, ressalta o empresário.

 

Da segunda vez, durante o feriado do Carnaval, invadiram e levaram objetos de pouco valor. Porém, os estragos foram grandes. Foi então que ele resolveu escrever para o bandido. 

 

Na carta, ele pede para ser informado sobre o dia da nova “visita”, assim, deixaria a porta aberta para o ladrão, evitando novos estragos no estabelecimento.  

 

“Deixe um bilhetinho debaixo da porta dizendo qual o dia que irá retornar, assim poderei deixar a porta entreaberta e o dinheiro que gastaria com toda esta parafernália separarei para o sr.”, escreve o empresário, de forma irônica, em sua carta.

 

O apelo, entretanto, não deu certo. Dias depois, voltaram novamente ao local. Dessa vez, “fizeram a festa”. Furtaram computador, televisão, impressora, entre outros produtos de valor.  “Eu reforcei os sensores de alarme e contratei uma empresa de monitoramento, que, inclusive, fica bem perto”, conta Escarabelo.

 

Assim como o apelo feito pelo jornal, os investimentos também não funcionaram. Neste fim de semana, na madrugada de domingo, invadiram pela quarta vez a autoescola. Apesar de só terem levado objetos de pouco valor e a carteira profissional de um funcionário, fizeram novos estragos nas janelas e portas.

 

O novo crime fez com que o empresário novamente se correspondesse com o ladrão na edição de ontem do JC, também pela Tribuna do Leitor. Desta vez, trocou a ironia pela agressividade. 

 

No texto, ele não pede, mas manda o bandido ficar longe. Como acredita que o ladrão seja “analfabeto”, afirma que ele não lerá tal aviso, por isso, pede que alguém avise “esse estúpido”.

 

 

 

1 ano de prejuízos

 

Contabilizando os estragos estruturais das quatro invasões e o que fora levado em dinheiro e objetos, Marcio Escarabelo estima que já teve prejuízos superiores a R$ 1

mil. “Se eles não me furtarem mais, eu vou pensar em ter lucro só no ano que vem. O resto de 2

12 vai ser para pagar os prejuízos causados pelos bandidos”.

 

Para o empresário, que nunca havia sido furtado em 12 anos, a autoescola se transformou em alvo dos bandidos depois da demolição do Cine Bauru. 

 

“Eu sou vizinho do cinema e de uma outra casa abandonada. Quando houve a demolição, minha casa virou o alvo mais fácil. Realmente, não sei mais o que fazer”, completa o empresário, que mescla momentos de bom humor com outros de extremo desânimo.

 

 

 

Polícias Militar e Civil confirmam dificuldade em atuar na prevenção e investigação desses casos

 

Quatro furtos no mesmo local em um curto espaço de tempo. O fato impõe questionamentos tanto na prevenção do crime quanto no trabalho investigativo para identificar o autor. As duas instituições responsáveis por estes trabalhos - Polícia Militar e Civil - confirmam que existem dificuldade, principalmente, por conta do número elevado de ocorrências e do provável autor ser usuário de crack.

 

“Infelizmente, este empresário é mais uma vítima entre uma enormidade de outros delitos semelhantes. Realmente, fica difícil pegar o autor depois que o crime ocorre. Além disso, os objetos são pulverizados de forma muito rápida no tráfico”, aponta o delegado do 3.º Distrito Policial (DP), Milton Bassoto Júnior.

 

O capitão Jorge Luís Dias, comandante da 1.ª Companhia da Polícia Militar, afirma que as viaturas estão intensificando o patrulhamento na madrugada. “Durante todo o mês de fevereiro e março, colocamos mais viaturas para patrulhar após as 3h da manhã por conta da operação ‘Centro Seguro’. E nós reforçamos ainda mais em áreas reincidentes”, aponta.

 

Ainda segundo o comandante, o fato de provavelmente serem usuários de drogas dificulta a ação da polícia. “Os usuários de droga não tem o senso de responsabilidade. Às vezes, a viatura passa por eles e quando o carro vira a esquina, eles cometem o crime”, diz.

 

 

 

Na madrugada

 

É comum, principalmente aos mais pessimistas, sentir calafrios quando o telefone toca durante a madrugada. Para a maioria, a ligação inesperada significa a morte de um familiar ou amigo próximo. Mas neste caso, os furtos repetidos em sua empresa mudaram este sentimento para Marcio Escarabelo.

 

“Quando escuto o telefone, já acho que é alguém para avisar que meu estabelecimento foi furtado. É a primeira coisa que penso. De verdade, estou cansado. Isto traz um prejuízo financeiro, mas o fator psicológico também acaba conosco”, desabafa.