09 de julho de 2026
Polícia

PM cria ?álbum? de usuários de crack

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

A cada página, surgem imagens de homens, mulheres, brancos, negros, baixos, altos. Pessoas com todas as suas particularidades que só compartilham um traço em comum: o olhar perdido de quem teve a vida consumida pelo crack. Em mais uma tentativa de combate às drogas, a Polícia Militar (PM) de Bauru criou o “book do crack”, com fotografias e dados dos usuários. O objetivo é facilitar a identificação e captura daqueles que cometem crimes e ainda direcionar o atendimento social (leia mais abaixo).

 

O álbum começou a ser montado há pouco mais de um mês pela 1.ª Companhia da PM (que corresponde às áreas Centro e Sul) e já coleciona aproximadamente 5

perfis. Além das fotos em diferentes ângulos dos chamados “zumbis”, há o nome completo, data de nascimento, número de documento pessoal e a cidade de origem do usuário.

 

A iniciativa é mais uma das ações concentradas na cracolândia bauruense, que fica no quadrilátero compreendido entre a avenida Nações Unidas e o viaduto JK, prolongado até o viaduto inacabado, abaixo da rua Presidente Kennedy até a linha da extinta rede ferroviária paulista.

 

O comandante da 1.ª Cia. do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), capitão Jorge Luís Dias, explica que a iniciativa visa agilizar a captura de usuários da droga envolvidos com o crime. “A vítima de um furto ou roubo passa as características do bandido e, com este álbum em mãos, o policial já consegue ter alguns suspeitos para tentar localizar”, explica.

 

Conforme foi veiculado na edição de ontem do JC, os furtos na região central ainda persistem. Um exemplo foi um empresário, que após ser furtado quatros vezes em pouco mais de um mês, resolveu escrever ao ladrão.  Para a polícia, os usuários de drogas são responsáveis por grande parte dos furtos e roubos, principalmente na região central de Bauru. 

 

“Como eles se ‘desfazem’ dos produtos levados de forma muito rápida, já partir com um suspeito em vista é fundamental para a polícia poder capturá-los. E este álbum ajuda exatamente neste ponto”, completa o capitão.

 

E a promessa é de que o book seja ampliado. “Estamos fazendo este trabalho semanalmente. Vamos à linha férrea e fotografamos o pessoal que está por lá. Queremos ter uma visão geral de quem são os usuários que estão na cidade”.  

 

Com o “book do crack” em mãos, o tenente Lucas Freitas, comandante da Base Sul, explica que o conjunto de imagens e informações é somente para uso interno dos policiais. Segundo ele, é uma forma de “atacar” a causa para prevenir o efeito, ou seja, o crime.

 

 

 

O ‘book’

 

Analisando cada um dos usuários que já figuram no “book”, o tenente Freitas afirma que a maioria é composta por adultos. “O que percebemos é que são pessoas que começaram há anos no crack e estão nesta vida até hoje”, aponta.

 

Este é o único perfil mais homogêneo que se pode traçar. A diversidade de “figurinhas” exemplifica exatamente a amplitude dos tentáculos do crack.

 

“Fora a agilidade que podemos ter em identificar alguém ou prender, tem um efeito inibidor. Quando o usuário envolvido com o crime sabe que estamos com este trabalho, ele pensa duas vezes antes de agir. Pensa que há grandes possibilidades de ser pego”, ressalta o tenente Lucas Freitas.

 

 

 

Moradores próximos da cracolândia criam ‘álbuns’ próprios na memória

 

O local de trabalho da auxiliar administrativa Helen Jenifer Paroliz, 35 anos, fica a poucas quadras da  creche onde estuda sua filha , a pequena Heloísa, de 5 anos. A proximidade poderia ser um alívio, porém, está bem longe disto. Ambos os locais são “vizinhos” da linha férrea, concentração dos zumbis do crack.

 

“Eu fico com muito medo. Deixo ela às 8h da manhã e vou para o trabalho. Esses tempos, um usuário me parou e pediu dinheiro. Quando coloquei a mão na carteira, ele tirou uma faca e me ameaçou. Por sorte, um homem percebeu e ele acabou fugindo”, conta.

 

Por conta da “convivência” com os usuários, ela já registrou as próprias “figurinhas carimbadas”. “A gente passa até a conhecer alguns. Tem uma senhora com um lenço na cabeça. Quando ela pede dinheiro e não damos, ela começa a gritar e xingar”.

 

E se trabalhar ou estudar naquela região é complicado, imagine morar nas margens da linha férrea. “Eles dominam tudo. Tudo que era para ser das crianças é deles. Passamos até a conhecer alguns porque eles moram aqui mesmo”, conta uma moradora do local, de 29 anos, que preferiu não ter a identidade revelada.

 

O servidor municipal Francisco Lemos de Almeida, 46 anos, mora no começo da Rio Branco e já foi vítima de furtos. Em uma das ocorrências, noticiada pelo JC no começo deste ano, ele foi vítima de um “ladrão-aranha”, que fugiu pulando de telhado em telhado.

 

Questionado sobre o “book do crack”, ele avalia como uma iniciativa positiva. “Identificar este pessoal é um bom começo. Qualquer coisa que for para diminuir a criminalidade será bem-vinda. Este é o primeiro passo para a revitalização do Centro”, finaliza Almeida.

 

 

 

Identificação também tem finalidade social

 

O trabalho de Bauru no enfrentamento ao crack não é só coercitivo. Pelo contrário: segundo as autoridades, as operações - muitas delas de pacificação - visam a recuperação e o atendimento social aos usuários. E o caso do “book do crack” não é diferente.

 

De acordo com a titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, a identificação serve para direcionar os atendimentos e, inclusive, localizar quem se apoia no vício para cometer delitos.

 

“É muito importante fazer esta separação. Estamos trabalhando firme para recuperar muitos usuários. Mas tem muitas pessoas que usam o crack como desculpa para cometer crimes. Isto, inclusive, atrapalha quem precisa de um atendimento”, aponta Tendolo.

 

Ela explica que, apesar de a Polícia Militar (PM) estar traçando esta radiografia mais na região central, a Sebes está estendendo a ação por toda a cidade. “Nós fazemos isso em vários bairros, buscando em praças, casas abandonadas, entre outros. Procuramos saber a história de vida dessas pessoas para ajudá-las”, completa.

 

O comandante da 1.ª Companhia da PM, capitão Jorge Luís Dias, reafirma esta vertente social da iniciativa. “Com certeza, existem criminosos entre os usuários, mas existe muita gente que realmente precisa de ajuda. E esta ‘radiografia’ pretende saber quem são essas pessoas”, conclui.