09 de julho de 2026
Geral

Homem ganha coração, mas não resiste

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 5 min

A violência praticada por alguns membros das torcidas organizadas Gaviões da Fiel (Corinthians) e Mancha Alviverde (Palmeiras) no último domingo terminou em tragédia com a morte de dois jovens palmeirenses: André Alves Lezo, 21 anos, baleado, e José Guilherme Vinícius Jovanelli Moreira, 19 anos, que teve morte cerebral. Porém, neste caso, o fim da história teve um desfecho de solidariedade.

Depois de quatro meses esperando por um transplante de coração, Maurício Lopes Taveira, 49 anos, morador de Bauru e corintiano fanático, acabou recebendo o coração compatível doado por Moreira. No entanto, um problema metabólico, segundo os médicos, impediu que os dois corações permanecessem batendo juntos e Maurício não resistiu.

Trabalhando há anos como gerente de negócios da Telefônica, ele era muito querido entre seus amigos e colegas por ser companheiro, alegre e fiel. No ano de 2001, quando ainda morava em Santo André, descobriu ser cardiopata. Precisou receber uma ponte de safena e sofreu um infarto na mesa de cirurgia. 

 

“Esse infarto causou uma lesão no lado esquerdo do coração dele, e desde então, precisava tomar medicamentos para que o coração funcionasse bem. Por isso resolvemos tirá-lo de Santo André, por conta da vida corrida, trânsito, e vir para o Interior. Conseguimos vaga de transferência em Ribeirão Preto e depois para Bauru”, contou a esposa Solange Vidotto Taveira, 48 anos.

 

Em 2003, já em Bauru, ele conheceu o colega de profissão Márcio Danilo de Sá, 39 anos, e se tornaram grandes amigos. A paixão pelo mesmo time era algo em comum entre Taveira e Sá. “Ele era um grande amigo, sempre estava contente. Era especial. Companheiro, alegre, lutou até o fim”, definiu o amigo.

 

Como o coração de Maurício já não funcionava mais como antigamente, assistir aos jogos do Corinthians tinha uma restrição: não ter fortes emoções. Mesmo com o problema, ele conseguiu levar uma vida normal até o dia 5 de dezembro do ano passado, quando uma insuficiência cardíaca o levou para o Instituto do Coração (Incor) em São Paulo, onde permaneceu internado nos últimos quatro meses.

 

 

Luta diária

 

A esposa Solange conta que Maurício não permitiu que a família ficasse todos os dias com ele no hospital. “Ele dizia que quem estava doente era ele e que nós tínhamos que continuar levando uma vida normal. Eu trabalhando e o Victor, nosso filho de 16 anos, na escola. O Maurício tinha que permanecer o tempo todo com medicamento endovenoso para que o coração trabalhasse, por isso nunca saía do quarto”, relatou.

 

Natal e Ano-novo foram comemorados com a família dentro da unidade de saúde. Há uma semana, o quadro de saúde de Maurício piorou e ele precisou ser transferido para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para aumentar a dosagem de medicamentos. Lá, ele também ganhou prioridade na lista de futuros transplantados.

 

 

Violência

 

Pouco antes da partida entre Corinthians e Palmeiras realizada no último domingo, no Pacaembu, as torcidas organizadas Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde entraram em confronto na avenida Inajar de Souza, no bairro do Limão, a 8 quilômetros de distância do estádio, em São Paulo. 

 

Segundo informações da polícia, eram cerca de 300 corintianos e palmeirenses. Os torcedores rivais se enfrentaram com armas de fogo, pedaços de pau, pedras e barras de ferro. O jovem André Alves Lezo, 21 anos, foi baleado na cabeça, e José Guilherme Vinícius Jovanelli Moreira, 19 anos, agredido, sofrendo traumatismo craniano. André morreu nesta segunda-feira e, um dia depois, o Hospital São Camilo confirmou a morte cerebral de Jovanelli.

 

A esposa de Maurício ressaltou que o marido não sabia da briga entre as torcidas, apenas assistiu ao jogo. “Depois que ficamos sabendo da morte de um dos garotos pela televisão”. O que eles não esperavam é que Jovanelli teria seus órgãos doados e que o coração palmeirense seria compatível ao do corintiano Maurício Lopes Taveira.

 

 

O clássico

 

Mesmo na UTI, Maurício não deixou de assistir ao clássico entre Corinthians e Palmeiras, que teve início às 16h, no Pacaembu, no último domingo. Final 2 a 1 de virada para o alvinegro, que tirou a invencibilidade do alviverde. 

 

“Eu liguei para ele e ele estava muito feliz. Nós ficávamos brincando: imagine se você receber o coração de um palmeirense? E ele disse: ‘se eu receber, até mudo de time’. Nem sabíamos que era realmente o que iria acontecer”, disse o amigo Márcio Danilo de Sá.

 

 

O transplante

 

Na noite de ontem, a equipe de reportagem do JC conversou com um dos médicos responsáveis pelo caso de Maurício Lopes Taveira, o cardiologista e especialista em insuficiência cardíaca e transplante Paulo Roberto Chizzola. Ele explicou que não era possível conceder entrevista por respeito ao código de ética, mas “se pronunciou” através da família do paciente.

 

“O doutor Paulo explicou que 

todos os exames foram realizados antes do transplante e que o Maurício estava apto a receber o coração”, disse a esposa Solange. “Ele também tinha uma pressão no pulmão desde dezembro, e por isso os médicos optaram por deixar os dois corações trabalhando juntos”, acrescentou.

 

A notícia do transplante chegou por volta das 18h30 desta terça-feira e poucas horas depois ele foi encaminhado à sala de cirurgia para receber o coração novo. “Ele me ligou e disse: ‘meu coração chegou, chegou a minha vez’. Ele até brincou que se tivesse que mudar de time para salvar sua vida, ele mudaria. Mas acredito que, até em respeito aos dois times, ele usaria uma camiseta metade Palmeiras e metade Corinthians”, comentou a esposa. 

 

Ainda naquela noite, o amigo Márcio Danilo de Sá levou Solange para acompanharem juntos a cirurgia de Maurício. Infelizmente, um problema metabólico impediu o sucesso da operação. 

 

“O médico explicou que os dois corações chegaram a bater juntos, mas um problema no metabolismo dele fez com que o fluxo de sangue diminuísse e formasse coágulos. Então, ele não resistiu. Acredito que ele morreu em paz, porque o semblante dele estava feliz”, finalizou Solange.

 

Durante o dia de ontem, Maurício Lopes Taveira foi velado no Cemitério Quarta Parada, mais conhecido como o Cemitério do Brás, em São Paulo. Recebeu homenagens de amigos das cidades de Ribeirão Preto, Araçatuba e Bauru, além de familiares. “Eu agradeço a todos que nos ajudaram de forma geral, amigos, família”, frisou a esposa.

 

O gerente de negócios da Telefônica foi sepultado na tarde de ontem no Cemitério Vila Alpina, também na Capital paulista. Ele deixa viúva Solange Vidotto Taveira e o filho de 16 anos, Victor Vidotto Taveira, além de irmãos e familiares. “Ele foi um homem muito correto em tudo o que fez e tenho certeza de que deixou um legado ao nosso filho Victor”, encerrou Solange, emocionada.