O plenário da Câmara Municipal de Bauru foi cenário de uma cena, no mínimo, constrangedora. Em uma votação que dividiu governo e oposição, foi aprovado o remanejo de R$ 1,5 milhão do orçamento da Secretaria municipal de Educação. O problema, porém, é que os vereadores disseram desconhecer de onde saiu e para onde foi o dinheiro da pasta.
A secretária Vera Casério afirmou ao Jornal da Cidade que as mudanças no orçamento, aprovado em dezembro de 2
11 pelos parlamentares, tinham como objetivo atender à grande demande de obras de reforma e ampliação e de serviços de reparos nas unidades escolares do município. “Esse dinheiro saiu da compra de alguns materiais e de alguns convênios que não prosperaram. O orçamento foi aprovado no fim do ano, mas a gente elabora por volta do mês de julho. Mudanças acontecem”, explicou.
Como nem o texto do projeto nem a exposição de motivos enviados à Câmara Municipal dispunham dessas mínimas explanações, os vereadores de oposição pediram para sobrestar a votação. “Eu não tenho problemas em votar favoravelmente, mas não posso comer embrulhado. Temos que desembrulhar isso aí”, observou José Roberto Segalla (DEM).
A solicitação foi feita em tribuna também por Chiara Ranieri (DEM), que tentou minimizar crises entre oposição e base após duas semanas de turbulenta relação. No entanto, Marcelo Borges (PSDB) escancarou o que se passava. “Eu não sei o que estou votando. Nunca houve tantas mudanças no orçamento tão rapidamente porque o ano mal começou. O prefeito deve estar achando que a Câmara é cartório”, disparou.
Mesmo com o pedido de sobrestamento reforçado pelo governista Roque Ferreira (PT), o principal crítico da forma com que o município lida com o orçamento público, a base foi enfática ao forçar a votação na tarde de ontem, contando com os votos de Moisés Rossi (PPS) e o desempate do presidente Roberval Sakai (PP).
No entanto, nenhum dos vereadores governistas conseguiu explicar do que se tratava o projeto, apesar da insistência do líder Renato Purini (PMDB) que tentava se inteirar sobre a proposta enquanto falava ao celular. Em determinado momento, o vereador soltou em alto e bom som: “Fala para mim o que é que é”, para o deleite de Marcelo Borges, que ironizou o colega enquanto estava na tribuna.
Purini tentou direcionar as intenções da oposição ao questionar o projeto para questões eleitorais. “Sempre votamos esses projetos. Por que será que essa resistência está aparecendo agora?”, questionou.
O líder, no entanto, fez uma ponderação pertinente ao lembrar que as dúvidas dos vereadores poderiam ter sido sanadas durante a tramitação do projeto pelas comissões internas. “Se tivessem pedido alguma informação, tenho certeza que a Educação teria esclarecido sem o menor problema”, pontuou.
Ao final da longa discussão, o projeto foi aprovado com votos contrários dos parlamentares do PSDB e do DEM.
Outros projetos
Na sessão de ontem, os vereadores aprovaram o projeto que extingue a taxa paga pelos comerciantes para a manutenção do Calçadão da Batista e o reajuste inflacionário dos vencimentos dos servidores municipais.
Os parlamentares sobrestaram novamente a votação do parecer de ilegalidade sobre a expansão do perímetro urbano, às margens da rodovia Bauru-Ipaussu, para a construção de um condomínio residencial de alto padrão. Há duas semanas, os vereadores pediram informações à Prefeitura, mas elas só chegaram ontem. No entanto, representando os empreendedores, Zezinho Marta, foi à Câmara e garantiu que todas as diretrizes que a serem colocadas pelo poder público serão cumpridas.
Equipe de boxe quase “nocauteia” Semel
Os Jogos Abertos do Interior voltaram à pauta da sessão legislativa de ontem e a Secretaria municipal de Esportes e Lazer (Semel) foi o alvo. José Roberto Segalla (DEM) exibiu vídeo em que o coordenador técnico da equipe de boxe ‘Leões do Ringue’, que representa Bauru em competições, aponta falhas e faz denúncias.
Marcos Pantaleão reclamou da falta de condições para que a equipe possa treinar e competir a favor da cidade no evento esportivo que será realizado em novembro, aqui em Bauru. “Dependemos de academias de amigos para treinar. Temos um local no Bela Vista, que pertence ao Estado, mas só podemos usar aos sábados”, afirmou ele.
Segundo o treinador, a equipe, que tem quatro atletas competitivos e já ganhadores de medalhas, estuda propostas de outros dois municípios para os Jogos Abertos. “Isso é estarrecedor, mas é a realidade”, avaliou.
Pantaleão denunciou ainda que, quando conseguem ônibus da Semel para viagens, precisam desembolsar dinheiro próprio para pagar os custos dos motoristas concursados pelo poder público. “Se a Semel libera R$ 3
,
para a gente, a gente gasta R$ 12
,
com alimentação e estadia dos motoristas, mas eles não dão nota para a gente e não temos como prestar contas. Então o dinheiro sai da gente”, explica.
Outra denúncia do treinador de boxe é que o ringue entregue à Semel, licitado em função dos Jogos Abertos, não estaria de acordo com as especificações técnicas exigidas em edital. O problema estaria no revestimento das cordas.
O Jornal da Cidade ligou para o, até ontem, secretário José Carlos de Souza Batata (PT), mas ele não atendeu nem retornou as ligações. O petista voltará para a Câmara a partir da sessão da próxima segunda-feira, após ter se desligado da Semel para disputar a eleição de outubro.
Ontem, na Câmara, dois assessores diretos de Batata apareceram após a exibição do vídeo, mas garantiram que a visita não tinha relação com o assunto.