08 de julho de 2026
Polícia

Após dois anos, Tripodi é enterrada

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Dois anos, três meses e três dias de angústia não couberam em uma pequena urna de aproximadamente 5

centímetros, onde estavam os ossos da vendedora Fernanda Tripodi. Porém, este sentimento coube perfeitamente no abraço emocionado que o filho mais velho de Fernanda deu em sua tia ontem, no Memorial Bauru. Era o esperado enterro da vendedora, um ponto final que, paradoxalmente, está longe do fim para a família (leia mais abaixo).

 

Foi uma cerimônia simples. Cerca de 2

pessoas, entre familiares e amigos. Na porta, uma placa com o nome da vítima datando uma vida curta compreendida entre 6 de junho de 1982 até 17 de dezembro de 2

9, quando ela desapareceu.

 

“Para mim, é como encontrá-la depois de muito tempo”, disse, emocionada, Antônia Tripodi, mãe de Fernanda. Além dela, as quatro irmãs de vendedora estavam presentes com uma “turma” de crianças, o que, de um modo ou de outro, simboliza que a vida que continua.

 

Entre os pequenos, dois em especial: os filhos de Fernanda, de 6 e 11 anos. Perto um do outro, eles evidenciavam como a idade traz um peso de realidade a mais. O primeiro queria ver os peixes da frente do Memorial Bauru. Encantado com o gravador da reportagem, ele não parava de repetir que era corintiano para depois ouvir a própria voz. Agitado, se acalmou somente em um dos poucos momentos que se aproximou da urna com os ossos da mãe para “dar-lhe” uma rosa.

 

Já o segundo estampava a tristeza de quem já tem a dimensão da realidade. Tão novo, já fala em rebeldia, vingança e até na troca do próprio nome (leia abaixo). Mas, de um modo ou outro, o sorriso vem. Quando o repórter o desafia para uma partida de futebol no videogame, ele recupera a infância, dá um riso tímido e garante: “vou ganhar por 3 a

”.

 

Os dois moram hoje com a avó. E é para dona Antônia que eles correm várias vezes durante a cerimônia. Seja para se apoiarem em seu ombro ou para perguntar se ela quer bolacha. Mas ela não quer. “Quero justiça. Quero ver todos os responsáveis por minha filha estar aqui presos”, afirma.

 

 

 

‘Adeus’

 

Uma cerimônia curta para quem esperou tanto tempo. Os presentes só tiveram uma hora e meia para dar o adeus a Fernanda Tripodi. Os minutos finais, certamente, foram os mais intensos. E também mais tristes.

 

Todos se reuniram em volta da urna. Dentre as irmãs, Fabiana Tripodi, 25 anos, era a que mais chorava. Minutos antes, ela tinha expressado toda sua indignação. “Eu quero que o marido dela, que fez isso, apodreça na cadeia. Tinha pensado que poderia perdoá-lo, mas não dá. Só sinto ódio”.

 

Se a comoção já era tamanha, intensificou-se quando resolveram abrir a urna. Fabiana chegou a desmaiar e teve que ser socorrida pela família. 

 

Da sala velatória no térreo, dois funcionários do Memorial Bauru levaram a urna para dois andares acima. 553. Este foi o número do ossário onde Fernanda fora depositada. Uma das irmãs anotava, improvisadamente, o número no braço. Nem precisava. Certamente, irão se lembrar daquele momento.

 

“Ela pode estar aqui morta e enterrada. Mas não morreu para mim. No meu coração, ela vai estar sempre viva”, completou Antônia, mãe de Fernanda.

 

Aos poucos, todos começam a se dispersar para ir embora. Vida que segue. Lembrança que fica. Por alguns segundos, o filho mais velho da vendedora se posta sozinho em frente ao ossário e olha para cima. Em silêncio, ele dá o seu próprio adeus.

 

 

 

‘Vou colocar Tripodi no meu nome’, afirma o filho mais velho da vítima

 

“Posso falar com você sobre algo mais chato do que videogame?”. Ao ouvir a pergunta do repórter, o filho mais velho de Fernanda Tripodi, de 11 anos, abaixa a cabeça e consente. Ele já sabe o que é o tal assunto chato. 

 

“Só tenho tristeza. Estava com 9 anos quando minha mãe sumiu. Lembro sempre dela me ajudando. Meu irmão engatinhava e nós dois o pegávamos para colocar na cama”, relata.

 

Questionado sobre o que sente pelo pai - o principal suspeito do crime -, ele é bem direto: “nada”. “Quero trocar meu nome. Ainda não sei qual vai ser, mas não tenho o sobrenome da minha mãe. Com certeza, vai ter ‘Tripodi’ nele”, completa o garoto.

 

Em relação ao dia do desaparecimento de sua mãe, ele conta que queria ir com Fernanda quando ela saiu, porém, foi impedido pelo pai. “Eu queria sair com minha mãe naquele dia. Mas ele não deixou. Disse que eu tinha que ficar tomando conta de casa. Lembro da última vez que eu vi ela. Estava jogando bola e ela chegou. Fui para dar ‘oi’. Logo depois, ela saiu”, finaliza.

 

 

 

Ponto final?

 

O enterro certamente marca o fim de uma espera que levou mais de dois anos. Errado. Para a família de Fernanda Tripodi, o caso está longe de um ponto final. Além da saudade e tristeza que afirmam serem eternas, eles clamam por justiça.

 

A todo momento, a mãe da vendedora, Antônia Tripodi, pergunta se haveria alguma chance do principal suspeito do caso, seu ex-genro, ser inocentado. “Ele não pode sair livre do que fez. Este é meu maior medo”.

 

Roberto Carlos Fagundes, 44 anos, está preso no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru e deve prestar depoimento ainda esta semana. Ele foi detido no mês passado em Balneário Camboriú (SC), depois de ter agredido sua atual companheira.

 

 

 

Longa espera da família começou com o desaparecimento em 2

9

 

Fernanda Tripodi, 26 anos, desapareceu em 17 de dezembro de 2

9 após sair de sua casa, localizada no Núcleo Nova Bauru, com o carro da família. Na ocasião, a polícia passou a suspeitar de latrocínio

 

A hipótese ganhou força poucos dias após, quando o veículo da vendedora de roupas foi localizado com bastante sangue no porta-malas. Logo, porém, o marido de Fernanda, Roberto Carlos Fagundes, virou o principal suspeito. Antes que fosse capturado, ele fugiu.

 

Somente em outubro do ano passado, uma nova pista apareceu: duas mulheres encontraram uma ossada na estrada municipal Bauru-Santelmo. No mês passado, veio a confirmação divulgada com exclusividade pelo JC: os ossos eram da vendedora.

 

Uma semana depois, Fagundes foi encontrado em Santa Catarina, mas não pela suspeita do crime pelo qual era procurado. Foi preso pela polícia daquele Estado por espancar sua atual companheira.