08 de julho de 2026
Geral

Malhação de Judas acaba nos bairros

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

A malhação de Judas tem se mostrado uma tradição popular cada vez mais rara. Ontem, a equipe do JC percorreu vários bairros onde sempre foi promovida a encenação, mas não encontrou ninguém “malhando” o boneco que o representa. Tido com o traidor de Jesus, Judas Iscariotes, porém, continua presente em nossos dias na opinião do pároco da Igreja São Cristóvão, padre Luiz Ricci.

“O povo se acostumou a associar a figura dele à daqueles que traem a confiança da população. A corrupção, o desvio de dinheiro público, tudo aquilo que gera violência. A campanha da fraternidade deste ano aborda exatamente isso, a corrupção. Isso não deixa de ser uma traição a Jesus e à vida.”

Segundo o padre, tudo aquilo que fazemos de mal para quem está perto de nós, estamos fazendo para o próprio Jesus. “Não vamos resolver as questões com violência, vamos resolver com ética, cobrança e comprometimento. Este é o caminho cristão para construir um mundo melhor. Para que as pessoas se convertam para o bem, para a vida.”

O padre faz questão de ressaltar que a tradição popular, realizada sempre no sábado de Aleluia, nunca foi incentivada pela Igreja Católica.

“A Igreja Católica não incentiva essa prática. Ainda que Judas tenha sido traidor, nós nunca podemos pagar o mal com o mal. Nós devemos aprender a perdoar. Para nós, a malhação de Judas incita a violência. Nessas ocasiões, as pessoas davam pauladas nos bonecos que representavam Judas. Isso é uma forma de agressividade, e já temos tanta violência, tanta agressividade nas escolas e em todos os ambientes”, lamenta.

A igreja não estimula nenhum tipo de violência. “Porque o próprio Jesus na cruz disse: Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem. Antes de morrer Ele pediu para que nós perdoássemos os inimigos. O cristão procura pagar o mal com o bem.  A malhação incita a violência, e já temos muito isso na sociedade atual. Se Judas tivesse pedido perdão a Jesus, teria sido perdoado.”


Uma nova imagem


Alguns teólogos fizeram uma releitura da história para tentar mostrar outras hipóteses e até amenizar a imagem de Judas Iscariotes junto ao povo. Nessa nova versão, ele aparece não tão maldoso, mas como um apóstolo que entendia a situação de maneira diferente, comenta o padre Ricci.  

“Alguns teólogos tentam fazer uma releitura de Judas no sentido de restaurar a imagem dele. Li um artigo que o título era: Judas redimido. Nele, Judas entregou Jesus por 30 moedas de prata para antecipar a chegada do reino de Deus. Ele achava que Jesus era um messias mais político. Talvez ele tenha pensado em acelerar a libertação da Palestina do domínio romano.”

Nesse novo estudo, Judas teria pensado em entregar Jesus para que Ele reagisse e mostrasse toda sua força. “É lógico que Jesus tinha uma força imensa, mas a força Dele era o amor, e não a violência. Alguns pensam que Judas fez isso para acelerar a chegada do reino de Deus, mas um reino no aspecto político, e não espiritual. Mas Jesus não usou violência não usou a força para se livrar dos inimigos. Pelo contrário, Ele deu a vida para nos salvar, mostrou que o poder Dele é o amor e o perdão, e não a força.”

Judas, nessa nova releitura, teria pensado que não ia acontecer nada a Jesus, porque Ele era Deus. “Tanto é que quando Judas percebeu que não tinha dado certo, ele se matou. Arrependeu-se e se matou, segundo a tradição”, encerra padre Ricci.