09 de julho de 2026
Articulistas

O burro do presépio e o cristo nu

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No Céu também há estrebarias. É isso que ensina o burro do presépio. "Na casa de meu Pai há muitas moradas" (João 14,2). O Céu não é só o lugar derradeiro de grandes apóstolos, dos mártires heroicos, dos sacerdotes e dos doutores da Igreja, das virgens puras e santos incomparáveis. Lá também há lugar para aqueles que souberam levar a carga que a vida impõe a cada um, com fidelidade e diligência. Mas não é qualquer asno que entra no Céu. Não basta ser um bom jerico para ter lugar nas cocheiras celestiais. Claro que é condição essencial ser um jumento de qualidade. E isso, admitamos, não é nada fácil. Muitos conseguem carregar certas coisas algum tempo, mas o bom burro é aquele que carrega o que tiver de ser, sem discutir, sem escolher, sem resmungar, sem pedir descanso, contentando-se com a ração.

Há outra condição para o burro entrar no Céu. Que ele entenda ? embora burro ? o valor da carga que leva. O burro do presépio levava uma mulher, como qualquer outra. Mas aquela senhora tinha dentro de si o Salvador. Era isso que fazia dele o burro do presépio. Aqueles que pretenderem seguir os seus passos para chegar ao Céu têm que compreender o valor de tudo o que levam. "Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16,24). Assim se entra o céu, levando a carga da vida. Podem achar que virei um pregador arrependido, com esta lição conformista. Para os utópicos não metafísicos só serve para atrasar a Revolução e induzir ao trabalho dócil em função dos interesses do capital. Não tenho tal pretensão. A carga que me refiro é aquela imposta pelos percalços da vida, da qual ninguém escapa ? nem a burguesia e muito menos o proletariado. Esta é a grandeza do burro do Presépio, uma das mais notáveis da história da salvação.

O presépio poderia existir sem a vaca. Poderia existir sem os pastores, os carneiros e sem os Reis Magos. Até poderia existir sem José e os anjos. No Presépio existem apenas três personagens indispensáveis: Jesus, Maria e o burro. Jesus é o Deus que se fez homem, que muda o sentido do universo. Maria é o caminho que Jesus escolheu para vir. O burro é o meio de lá chegarem. Sem Jesus não há presépio. Sem Maria, Jesus não teria nascido. Sem o burro, Maria não teria chegado ao presépio. São os que sobram no final da Semana Santa. Jesus é crucificado, a Senhora das Dores o ampara até o final e o burro leva o Rei no Domingo de Ramos. Até a glória da cavalariça celestial. A própria Igreja compreende a necessidade de levar a carga da crise que atinge o catolicismo universal. Bento XVI tem o desafio de "limpar a Igreja", como ele mesmo afirmou. A crise é sempre uma oportunidade de mudança, a começar pela relação entre o catolicismo e a sexualidade. Não dá mais para interditar métodos "artificiais" de planejamento familiar, como impõe a encíclica Humanae Vitae há quatro décadas. Milhares de padres e freiras distribuem camisinhas na África, em campanha de combate à Aids. O celibato castrador de afetos é tido como uma das causas da pedofilia. É certo que a maioria dos casos de abusos acontece com pais e familiares próximos das crianças. O celibato, como opção voluntária pode representar mais dedicação à atividade pastoral. Mas, chega de proibir o que é natural. As mulheres, em busca do justo espaço, querem o seu lugar também no altar, dizendo missa, pregando a Palavra e cuidando do rebanho.

Chegou ao fim o ensino compulsório de religião nas escolas públicas; de riança ser obrigada a rezar o pai-nosso antes da aula e do crucifixo em todas as repartições públicas. O laicismo se manifesta em tudo, até em função do espetáculo. Lady Gaga lança um vídeo chamado "Judas", onde interpreta o papel de Maria Madalena. Inspira-se em "Like a Prayer", de Maddona. Na cidade de Medina Del Campo, interior da Espanha, a comunidade mandou fazer uma imagem de Cristo "nos braços da morte", nu, exibindo os genitais. Os fiéis se cansaram de Jesus emasculado. Querem mostrar que "a Igreja é que está nua" e chegou a hora de levar a própria cruz.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC