09 de julho de 2026
Polícia

Pai atira em filho que defendia a mãe

Bruna Dias com Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Mais uma vez, um caso de violência contra mulher quase termina em tragédia, no Parque Santa Edwirges, em Bauru. Depois de ameaçar de morte sua ex-mulher e a ex-cunhada, J.C.D. atirou contra o próprio filho de 19 anos, que defenderia a mãe das agressões sofridas há anos. Apesar da grande quantidade de denúncias recentes veiculadas pelo JC, segundo a titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), Flávia Regina dos Santos Ueda, o número de registros de lesão corporal contra mulheres caiu 28% em relação ao primeiro trimestre do ano passado (leia mais abaixo).

 

A vítima, uma mulher de 48 anos que teve a identidade preservada pela reportagem, bem como as identidades dos demais envolvidos, relatou que sofre agressões do ex-marido há vários anos, mas apenas há dois meses conseguiu se separar dele. 

 

“Ele sempre foi violento, sempre me agrediu. Eu perdi meu emprego por isso. A minha patroa não queria que eu chegasse com a cara toda roxa no trabalho. Então, resolvi me separar e estou morando com a minha filha. Como meu filho me defende das agressões, ele quer bater no meu filho e ontem (anteontem) ele foi me procurar, mas eu não estava em casa”, contou.

 

A mulher tinha saído para visitar outro filho quando, por volta das 16h de domingo, o acusado foi procurá-la na casa de sua irmã. “Quando ele chegou lá, disse ‘pra’ minha irmã que iria matar ela e depois me matar. Aí resolveu subir para a casa da minha filha, mas só o meu filho estava lá. Ele disse que ia matá-lo, então meu filho disse: ‘se você quer me matar, então me mate aí fora’”.

 

 

 

Ameaça

 

O jovem de 19 anos foi até a rua, momento em que o pai efetuou o primeiro disparo a esmo com a arma de fogo que portava. O segundo tiro foi em direção ao próprio filho, segundo informações que constam no boletim de ocorrência (BO), mas a arma falhou e o projétil não deflagrou. A mulher só ficou sabendo do fato quando chegou à sua residência, minutos após os disparos efetuados. A Polícia Militar já havia sido acionada e estava no local.   

 

A vítima diz que tem medo do que pode acontecer depois das ameaças feitas pelo ex-marido no último domingo, e que já sabia da existência da arma de fogo. “Eu já sabia que ele tinha arma, mas ele escondia. Ele já tem outra família e eu só quero que ele me deixe em paz. Não quero nada dele”, disse. Na tarde de ontem, ela compareceu à DDM e prestou depoimento novamente. O caso foi registrado como ameaça e disparo de arma de fogo.

 

 

 

Número de queixas registradas cai 28%

 

Os registros da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Bauru mostram que o número de queixas registradas por mulheres agredidas pelos companheiros diminuiu 28% no primeiro trimestre deste ano, comparado ao mesmo período do ano anterior.

 

Em janeiro do ano passado foram computados 112 casos, em fevereiro 96 e em março 83. Neste ano, as queixas somaram 69 em janeiro, 71 em fevereiro e 7

em março. “Não dá para explicar o porquê aumenta ou diminui este número. É cíclico. Às vezes, uma maior divulgação em eventos, cartazes e até novelas influenciam para que as mulheres tomem coragem e denunciem os parceiros”, explica Flávia Regina dos Santos Ueda, delegada titular da DDM de Bauru.

 

 

 

Outros casos de violência

 

Além deste caso, outras quatro ocorrências envolvendo brigas entre marido e mulher foram registradas pela polícia durante o final de semana. Em um deles, a esposa teria sido agredida com uma garrafa pelo marido no Núcleo Fortunato Rocha Lima. Com hematomas no braço esquerdo, a mulher de 45 anos não soube explicar aos policiais as causas da discussão, que aconteceu às 19h4

de domingo.

 

Em outro caso, no Centro, populares teriam agredido o marido que batia na esposa de 4

anos. Conforme apurado junto ao boletim de ocorrência (BO), quando os policiais chegaram à residência, foram avisados pela vítima de que três motociclistas passaram pelo local, ouviram a briga e teriam parado para defender a mulher. O marido, acusado de agressão, teria xingado os PMs e chutado o retrovisor da viatura.

 

No terceiro fato, o marido, que segundo a própria esposa havia ingerido bebida alcoólica, já teria batido nela no dia anterior, no entanto, as agressões teriam continuado na noite de anteontem.

 

O último caso envolveu não só o marido, mas também seus familiares. Após a discussão entre o casal em uma residência localizada no Núcleo Habitacional Mary Dota, o tio do jovem de 19 anos teria empurrado a vítima contra a parede e tapado sua boca, fazendo ameaças.

 

 

 

Vítima de agressão não precisa representar contra companheiro

 

Até janeiro deste ano, para fazer valer a Lei Maria da Penha, de número 11.34

de 2

6, era preciso que a mulher vítima de agressão pelo companheiro registrasse boletim de ocorrência (BO) e ainda fizesse uma representação contra o acusado em um período de seis meses.

 

Porém, em fevereiro, o Superior Tribunal Federal (STF) decidiu que esta medida não será mais necessária e que o Ministério Público (MP) pode entrar com representação contra o acusado mesmo que a vítima não se manifeste ou, até mesmo, retire a queixa. A lei continua a mesma, apenas mudou a sua interpretação.

 

Para a delegada titular da DDM de Bauru, Flávia Regina dos Santos Ueda, a medida pode fazer com que as vítimas se sintam acuadas. “Antes elas registravam os boletins de ocorrência mais para intimidar o parceiro, poucas representavam contra eles. Talvez, essa mudança as deixe mais acuadas, com medo de registrar o boletim de ocorrência”, opinou.