08 de julho de 2026
Geral

Eternos pombinhos

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Seis panos de prato por R$ 1

,

. É este o preço que dona Arinda Garcia cobra pelos seus bordados. “Tá muito caro”, brinca o repórter. “Mas eu não fiz para vender a você mesmo”, rebate dona Arinda. No auge dos seus 93 anos, ela é assim. Falou, levou. 

 

Quem sabe bem é João Alberto Garcia, com 88 primaveras. Eles se “aguentam” por muito tempo. Hoje, completam incríveis 65 anos de casamento.

 

Sentados à espera da reportagem na varanda da residência onde moram, no bairro Jardim Carolina, dona Arinda – sem usar os óculos - bordava os valiosos panos de prato com João Alberto ao seu lado. 

 

No meio do casal, uma cadeira vazia. Quando foi pedido que sentassem lado a lado, ela cutuca de novo. “Deixa ele lá longe”. Logo, porém, levanta para se sentar ao lado do companheiro. 

 

Já postados, a pergunta óbvia precisava ser feita: como ficar tanto tempo juntos em uma época na qual o menor obstáculo é motivo de separação? O segredo, conforme revela João, é só um. Ou melhor, três. “Paciência, paciência e paciência”.

 

E com todas estas três “paciências”, ele, que esbanja sensatez e inteligência, faz outra revelação quase que inacreditável: “Em todo este tempo, nós nunca brigamos”. Orgulhosa, dona Arinda balança a cabeça e confirma.

 

Uma história assim deve ter sido igual naqueles amores de cinema, que um olha para o outro e é paixão à primeira vista. Bem, foi quase. 

 

Quando se conheceram, em baile em Guaricanga (56 quilômetros de Bauru), dona Arinda estava era interessada em um farmacêutico. “Eu estava de olho neste farmacêutico há um tempo. Mas uma amiga me apresentou este João Garcia, que tinha ido para Guaricanga trabalhar com o seu tio. Nós dançamos e deu no que deu, né?”, brinca.

 

 

 

Namoro: 1942

 

Desde este baile, que aconteceu em 11 de julho de 1942, eles começaram a namorar. “Nunca mais ficamos separados. São 65 anos de casamento, mas nos conhecemos e namoramos há 7

. E nunca nos largamos”.

 

Bom, o casal não se largou mais em momento algum pelo coração, porém, enfrentaram épocas difíceis em que a distância era o maior obstáculo. Durante cerca de 2

anos, João ficou trabalhando em Rondônia, enquanto a esposa ficava em São Paulo, com o único filho do casal. 

 

“Eu vinha para cá de dois em dois meses e depois ela ia para lá. Foi um período difícil, mas nunca pensamos em desistir”, relembra João Garcia.

 

E não é somente Guaricanga, Rondônia e São Paulo que fazem parte dos cenários desta união cinematográfica. Durante a jornada, o casal já passou por Presidente Alves, Lucélia e, finalmente, Bauru. 

 

 

 

5

alqueires de amor

 

Aos poucos, João começa contar a sua trajetória profissional. Comerciante bem sucedido, com passagem pelo exército (leia mais abaixo) e com outras habilidades que não deu tempo de contar em pouco mais de uma hora, ele destaca que dona Arinda foi decisiva em sua vida. 

 

“Eu tinha uma fazendo de 5

alqueires em Rondônia. Lá, tinha de tudo, até onça. Mas ela não gostava. Então, larguei pela namorada”. 

 

Ué? “namorada”? Na época, eles já eram casados, mas isto exemplifica bem como um trata o outro até hoje. Brincadeiras de namorados, carinho de namorados, amor de namorados. É assim que o “bem” trata a “bem”.

 

Perto do fim da entrevista, já na cozinha do casal, a ex-professora dona Arinda oferece alguns quitutes. “Ela me conquistou pelo estômago”, diz João. E, com suspiros, cocadas, pé de moleque e um suco de abacaxi geladinho, conquistou o repórter e o fotógrafo também.

 

Mais bem alimentados do que os pombos os quais João trata todo fim de tarde, a reportagem se despede. Antes de sair, João Alberto responde uma última pergunta: o que mais você gosta dela? “Tudo”, afirma. A resposta retira um sorriso tímido dela, que, sem perder o humor, retruca: “E o que eu mais gosto dele é que ele gosta de tudo que eu faço”.

 

 

 

‘Frutos’ do amor

 

Após os 65 anos de matrimônio, o casal teve um único filho. “Eu tive um tumor e não pude mais ter filhos”, conta Arinda Garcia. 

 

O administrador de empresas José Francisco Pereira Garcia, que atualmente mora em São Paulo, tem 64 anos. “Agimos rápido”, brinca João Alberto. Além do filho, o casal tem duas netas e uma bisneta. Todas muito bonitas por sorte do destino, segundo dona Arinda. “São lindas. Não puxaram nem o avô e nem a avó. Ainda bem”.

 

 

 

E no Exército...

 

Por muito pouco, a história de amor de João Alberto e Arinda Garcia não muda de um filme romântico para um de guerra. É que ele entrou no Exército em maio de 1945, exatamente um dia antes de a Segunda Guerra Mundial, que havia começado seis anos antes, terminar.

 

“Lá, fiquei por cerca de um ano. Fui muito feliz no Exército. Comecei lá embaixo e fui subindo”, relembra. João conta que chegou a receber a oferta de se tornar sargento, porém, mais uma vez, optou pela sua companheira.

 

“Larguei pela namorada. Ia ficar longe dela e resolvi deixar o posto, sair do Exército e resolver logo tudo de uma vez”, completa. 

 

 

 

Até o Pelé faz parte deste ‘filme’

 

E para agradar aqueles que acham que filme bom precisa ter atores famosos, até o rei do futebol, o Pelé, faz parte desta história. Dona Arinda conta que, quando ele ainda era menino, ela quase destruiu um dos “troféus” do futuro craque. Na época, segundo ela, Pelé era engraxate. “Ele veio em um bar muito famoso que éramos os proprietários aqui em Bauru. Era garoto ainda. O bar estava limpinho e ele derrubou toda a graxa. Eu saí correndo atrás dele e joguei a caixa de engraxate no meio da rua”, conta.

 

Ela relembra que, por pouco, a caixa não quebrou. Sem papas na língua, revela que não gosta do Pelé, justamente por ele nunca ter reconhecido a cidade onde ele se criou, diz ela. 

 

Já a caixa que quase foi “vítima” de dona Arinda existe até hoje e está entre os troféus do jogador no Museu Rei Pelé, localizado em Santos.

 

 

 

Bodas de quê?

 

Os 65 anos de matrimônio significam a comemoração de bodas de ferro. A palavra “boda” é derivada do latim “voda”, que significa promessa.

 

Apesar da explicação lógica, há lenda curiosa sobre a origem etimológica do termo. Como nos festejos eram feitos churrascos usando fêmea do bode – pela carne macia -, acreditava-se que era por conta disso: morte da “boda”.

 

 

 

Bem católicos

 

No sábado, o casal não vai matar nem bode e nem boda. Após missa, visto que ambos são bem católicos, haverá grande comemoração para familiares e amigos em uma pizzaria da cidade.