08 de julho de 2026
Geral

Centrinho: gratidão marcada na pele

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Éder Azevedo

Gabriela tatuou a logomarca do hospital como agradecimento ao atendimento de 20 anos

A história de Gabriela Oliveira da Silva, 22 anos, gaúcha, moradora de Pelotas, não é só de recuperação de saúde, vida social e gratidão, mas também de homenagem ao tratamento que recebeu nos últimos 20 anos no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP (HRAC/USP) de Bauru, conhecido como Centrinho.

Para homenagear a todos os profissionais que estiveram com ela durante esses anos, em fevereiro ela resolveu tatuar a logomarca da instituição de saúde no quadril.

Marta Rejane Oliveira da Silva, mãe de Gabriela, conta que descobriu que a filha tinha fissura unilateral do lábio e palato (céu da boca) apenas no nascimento. “Hoje a tecnologia está muito evoluída e podemos descobrir na ultrassonografia. Com três meses ela passou pela primeira cirurgia e fechou o lábio. Foi em um cirurgião plástico lá de Pelotas mesmo. Depois disso começamos a procurar outros médicos porque ele se negou a operar o palato”, contou.

 

A maratona da família estava apenas começando. Uma reportagem em um jornal impresso da cidade gaúcha levou Marta a descobrir um cirurgião maxilofacial no Rio de Janeiro. “Lá ele fez umas placas para estimular o fechamento do palato, mas logo a Gabriela as perdeu. Ele se recusou a continuar o tratamento e então comecei a pedir a Deus que me indicasse um cirurgião plástico”.

 

Em um outro médico de Pelotas, ela encontrou o caminho para o Centrinho. “Ele disse que não podia me ajudar, mas que conhecia um médico do Centrinho que tinha participado de um curso em Porto Alegre com ele. Então ele enviou uma carta ao amigo e com 2 anos de idade a Gabriela começou o tratamento aqui”, relatou.

 

 

 

Cirurgias

 

A primeira das mais de seis cirurgias aconteceu logo em uma das primeiras visitas ao hospital e fechou o palato. “Eu tinha receio porque diziam que aqui os pais não podiam ficar muito junto dos filhos, mas quando cheguei eu vi que não era nada disso”, acrescentou a mãe. Como é filha única, as atenções todas ficaram para Gabriela. A mãe, funcionária pública, sempre acompanhou a jovem, que também teve apoio do pai em algumas visitas.

 

Para chegar ao Centrinho, a família tinha que viajar mais de 27 horas de ônibus. Para Gabriela e Marta, o diálogo entre as duas fez com que a anomalia não fosse tão assustadora. “Eu sempre vinha feliz para cá. Nunca tive medo das cirurgias, até porque me acostumei com elas. Além disso, os profissionais daqui são muito especiais”, opinou a jovem.

 

A segunda cirurgia foi para refazer a primeira. Em seguida foi reconstituído o lábio, o nariz em 2003 e realizado ainda um enxerto ósseo em 2006. No ano passado, Gabriela passou pela cirurgia a mais complexa para trazer a arcada dentária inferior e o queixo para o lugar correto. No total, foram mais de 20 visitas ao hospital, já que a presença da paciente era obrigatória, pelo menos, duas vezes ao ano.

 

 

 

Tatuagem

 

Foi após sua mais recente cirurgia que Gabriela resolveu tatuar a logomarca do Centrinho no quadril, bem em cima de uma cicatriz deixada pela operação para retirar osso do quadril e enxertar no lábio. “Essa cirurgia foi a mais complexa de todas, tanto na operação quanto na recuperação. Eu já tinha outras duas tatuagens e achei que o motivo era muito forte. Então resolvi tatuar a logo”, contou.

 

A logomarca criada pela equipe de comunicação do Centrinho em 1999 possui uma estrela em seu centro, que simboliza o paciente, e é envolta por um coração prateado, que representa toda a equipe do hospital. “Eu não sou muito a favor de tatuagens, mas quando ela disse que iria fazer eu apoiei. Achei um motivo muito forte”, disse a mãe. Ainda haverá cirurgias. 

 

 

 

O sonho de trabalhar no hospital

 

A mãe de Gabriela conta que a jovem sempre sonhou em ser enfermeira. O sonho vai se tornar realidade em agosto deste ano, quando ela concluirá o curso de enfermagem. “Eu sempre gostei de ser enfermeira, independente de todo o carinho que recebi aqui nestes 20 anos. Quero muito trabalhar no Centrinho.”

 

Durante a conversa com a equipe de reportagem, algumas enfermeiras como Edna Mariza da Silva, pararam para abraçar a jovem e pedir para que ela preste concurso para trabalhar no hospital. “Eu peguei essa menina no colo, e agora ela será enfermeira.”

 

“Eu nem sei o que seria de mim hoje se não fosse o Centrinho. Aqui as pessoas são diferentes, carinhosas, amorosas, como deveria ser em todo lugar”, afirma Gabriela.