O Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL), referência nacional e internacional em hanseníase, completa 79 anos neste 13 de abril, ou seja, comemoramos Bodas de Café com a Hansenologia Brasileira. Interessantemente, a produção deste grão foi a principal atividade responsável pelo crescimento e desenvolvimento do Estado de São Paulo, por muitos anos. Desde sua fundação, como Asilo Colônia Aymorés, em 1933, a Instituição cresceu, modernizou-se, e hoje conta com uma estrutura física invejável, com aparelhagem de última geração, e pessoal altamente qualificado, realizando pesquisas científicas nos campo da epidemiologia, clínica, terapêutica e biologia da doença.
Mas não só de pesquisas vive o "Lauro", como é carinhosamente apelidado pelos seus amigos. A assistência também é uma característica marcante de nossa Instituição. Em 2011, foram realizadas mais de 800 cirurgias de pequeno e médio porte; mais de 550 internações; e mais de 23 mil consultas ambulatoriais, sendo que quase 4 mil foram devidas apenas à hanseníase. Além disso, nossa função não se restringe ao atendimento desta doença: só do nosso Estado, e de fora da região de Bauru, quase 7 mil consultas ambulatoriais foram realizadas no ano passado. Como referência nacional em hanseníase pelo Ministério da Saúde, nosso serviço de Anatomia-Patológica recebeu e processou quase 4 mil biópsias em 2011, fora o material recebido para testes de resistência medicamentosa. Mais da metade das biópsias de pele foram referentes a hanseníase, e a maioria destas provenientes de outros estados da Federação.
Na área de reabilitação do paciente com hanseníase, também meta importante para o Ministério da Saúde atualmente, foram feitas mais de 1000 próteses, órteses, confecções e reformas de calçados ortopédicos.
Uma das missões principais do ILSL é auxiliar o Ministério da Saúde a controlar a hanseníase, fornecendo assistência primária, secundária e terciária, bem como cursos regulares na área da Hansenologia. Em 2011, foram realizados 24 cursos, sendo 11 eventos dentro da Instituição, englobando Educação, Prevenção, Reabilitação e Atualização em Hansenologia, onde participaram 278 profissionais de saúde de todo o País, sendo que 68 (24%) destes eram médicos. Mas não ficamos restritos ao nosso local de trabalho, pois adequar a capacidade de diagnóstico e tratamento da hanseníase à realidade do nosso país também é fundamental. Já que estamos próximos ao Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, estados onde a endemia ainda é muito alta, fazemos também capacitações teórico-práticas de profissionais de saúde, nos próprios municípios onde estes trabalham. No ano passado, foram realizados 13 cursos nestes dois estados, onde participaram mais de 1000 profissionais; dentre estes, mais de um quarto foi constituído por médicos de Unidades Básicas. Todas as capacitações foram solicitadas ao ILSL, pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, com apoio financeiro da ONG Associação Alemã de Assistência aos Hansenianos e Tuberculosos (DAHW).
Nestas atividades, que contaram com a presença de pacientes em tratamento e seus familiares, quase 600 pessoas foram avaliadas pelos participantes nas atividades práticas. Dúvidas sobre o diagnóstico e manejo da doença foram elucidadas, e 123 casos novos foram diagnosticados, ou seja, 20% de todos os pacientes examinados. Desta forma, estamos auxiliando o Ministério da Saúde a descentralizar a atenção ao portador de hanseníase, conforme reza a legislação vigente. Além disso, estes achados corroboram a necessidade de se examinar os familiares de pacientes com a doença ativa, uma das principais metas do Ministério da Saúde, do qual somos parceiros fiéis, no Programa de Controle da doença no país.
Hoje, paralelamente, as plantações de café foram largamente substituídas pela cana-de-açúcar, na maioria do Estado de São Paulo, e a hanseníase, infelizmente, figura entre as doenças negligenciadas, com baixa detecção e prevalência, embora tardia, no nosso Estado.
Mas continuamos casados com a Hansenologia, ciência que, assim como o café, não creio que deixou ou deixará de ser um assunto importante para o paulista e para todos os brasileiros.
O autor, Jaison Antônio Barreto, é dermatologista e hansenólogo do Instituto Lauro de Souza Lima