11 de julho de 2026
Geral

?Hoje posso respirar?, diz mãe beneficiada por aborto na Justiça

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Interromper ou não a gravidez de bebês sem cérebro? Extremamente delicada, a questão levou oito anos para ser decidida pelo Superior Tribunal Federal (STF) no País. Junto à descriminalização do aborto de anencéfalos, ocorrida nesta quinta-feira, vieram as resistências de grupos contrários e, por outro lado, o alívio de mães como Kátia Corrêa, que após enfrentar três gestações com fetos anencéfalos, diz estar aliviada com a medida.

 

“Hoje eu consigo respirar, a decisão acabou com meu peso na consciência”, enfatiza a microempresária Kátia que, hoje com 42 anos, relembra as três tristes situações que marcaram sua vida.

 

Aos 23 anos, ela ficou grávida de seu primeiro filho, uma menina, mas aos cinco meses de gestação percebeu que algo diferente acontecia. “Minha barriga era pontiaguda e eu tinha muitas dores, não conseguia nem andar direito”, lembra. 

 

Da desconfiança, veio a triste certeza da malformação e da anencefalia fetal.  Com fortes dores e uma gravidez considerada arriscada pela medicina, ela enfrentou sua própria resistência ao ser informada pelo médico que poderia recorrer à Justiça para a retirada do bebê.

 

Na época, uma decisão favorável no sul do País ajudou Kátia e seu namorado a optarem pela luta judicial. Alguns dias após ter entrado com o processo, o casal, que morava em São Paulo, conseguiu a permissão inédita do Tribunal no Estado e o aborto foi permitido ao sétimo mês da gestação.

 

 

 

Segunda gravidez

 

 

Passado o trauma, em 1997 Kátia voltou ao médico decidida a engravidar novamente. Para isso, fez uso de ácido fólico, que segundo os médicos, ajudaria a amenizar efeitos negativos na gravidez. No entanto, a medicina não foi suficiente. Com sete meses de gestação, Kátia, que havia se mudado para a cidade de Agudos, descobriu que a gravidez de seu segundo filho, também uma menina, não vingaria mais uma vez por conta da anencefalia.

 

Desta vez, o mobiliário para o quarto da bebê já estava comprado e a empresária, novamente, se desfez do sonho de ser mãe. Apesar da certeza de que os chutes na barriga eram de sua filha, ela sabia que os movimentos aconteciam de maneira involuntária por conta da falta de coordenação motora da criança.

 

Como a anencefalia foi descoberta tardiamente na segunda gestação, mesmo com dores e com o sofrimento psicológico, a empresária se submeteu ao parto do bebê, aos 8 meses. Mas ele já estava morto e tinha diversas deformidades.

 

“Ela já estava com 2 quilos e não tinha como impedir. O SUS (Sistema Único de Saúde) não fazia ultrassom antes dos 7 meses na época. Fiquei revoltada quando soube. O parto foi dolorido demais, atravessou tudo”, conta a mulher que, após ter o segundo filho anencéfalo, relata o trauma de ter registrado o nascimento e o óbito da criança.

 

 

Aborto espontâneo

 

Os quatro anos de tristeza após a morte do segundo filho acabaram quando Kátia, que ainda não havia se casado, encontrou o amor da sua vida. Junto ao representante comercial Josiel Carvalho, 39 anos, a empresária decidiu dar mais uma chance ao destino e, no ano 2

, engravidou do seu terceiro filho.

 

Barriga pontiaguda e muitas dores. Três messes bastaram para que mais um bebê de Kátia não sobrevivesse a anencefalia, mas desta vez, o aborto foi espontâneo.

 

“Eu estava no trabalho e de repete comecei a sangrar. Ao retirarem o feto, os médicos me alertaram que o bebê não tinha cérebro e era malformado”, conta.

 

 

 

Resistência x dor

 

Decidida a interromper a gravidez por conta das fortes dores e pelo desespero em saber que a criança não sobreviveria, Kátia Corrêa afirma ter tomado a decisão de recorrer à Justiça mesmo enfrentando sua própria resistência e de sua família.

 

“Foi um dos piores momentos da minha vida. Eu não sou a favor do aborto e minha mãe era ministra de uma igreja, que eu também frequentava. Quando ficamos sabendo da anencefalia e da possibilidade da retirada do bebê, todos foram contra, mas eu não aguentava mais as dores”, relata.

 

Segundo ela, uma tarefa simples de casa, como lavar louça, se tornava um desafio que demorava quase o dia todo para ser concluído. O preço pela cura da dor psicológica de Kátia custou seu afastamento da religião. “Todos da igreja eram contra e, para evitar o preconceito e chateações, acabei me afastando”, lembra.

 

 

 

O recomeço veio com a adoção de quatro filhos

 

O caso da empresária Kátia Corrêa ainda é considerado uma incógnita para os médicos. Mesmo tendo feito o tratamento necessário, a anencefalia fetal persistiu nas duas gestações seguintes.

 

Dezenove anos depois de sua primeira gravidez e do primeiro aborto, a falta de esperança fez Kátia e seu marido optarem pela vasectomia dele. O resultado da tragédia vivida deixou marcas profundas na mulher, que com trauma, não consegue chegar perto de bebês.

 

Se ela desistiu de ser mãe? A resposta é não. Diferentemente do que qualquer um pensaria, ela e o marido não descansaram enquanto não conseguiram formar uma família, mesmo sem bebês. Por volta de 2

4, o casal entrou para o cadastro de adoção para crianças pardas e maiores de 3 anos. Após anos de espera, as crianças chegaram.

 

Os irmãos Samuel Corrêa Carvalho, 1

anos, e Isaac Corrêa Carvalho, 9 anos, foram adotados em 2

5. Logo depois, Kátia e Josiel adotaram as irmãs gêmeas Suzana Corrêa Carvalho e Beatriz Corrêa Carvalho, 4 anos.

 

Há seis anos realizando o sonho de ser mãe, ela acredita que a decisão do STF ajudará as mulheres a optarem por caminhos menos sofridos. “Sou a favor do aborto em caso de bebês anencéfalos. É muito sofrimento e não desejo isso para ninguém”, finaliza. 

 

 

 

A anencefalia

 

De acordo com o geneticista Esiquiel de Miranda, a anencefalia é uma malformação fetal grave proporcionada pela interação de fatores genéticos ou ambientais, com maior incidência em mães muito jovens ou com idade avançada. A recorrência é de um caso para cada 1.35

nascimentos. 

 

Conforme o geneticista, o risco da doença aumenta 5% a cada gravidez subsequente. Mães diabéticas também teriam seis vezes mais probabilidade de gerar filhos anencéfalos. Uma forma de evitar a recorrência seria a reposição de ferro proporcionada pelo ácido fólico.

 

“Nesse caso não existe qualidade de vida. Se a criança não nasce morta, ela vive uma vida vegetativa, não tem como demonstrar algo ou pensar. Sendo o Brasil um estado laico, acho justo as mulheres poderem opinar, e a decisão com certeza não abrirá precedentes”, pontua Esiquiel, que afirma que com a atual tecnologia é possível um diagnóstico sobre o bebê a partir da 11.ª semana de gestação.