10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Caixa quer reduzir dívidas das famílias

Wilson Marini Rede APJ
| Tempo de leitura: 10 min

A Caixa Econômica Federal anunciou esta semana dois amplos programas de crédito que têm objetivo de ampliar o relacionamento com os seus clientes e ao mesmo ampliar a sua base tornando-se atraente para os novos. Um dos programas anunciados baixa as taxas de juros e amplia o volume de recursos disponíveis no mercado. O segundo é um plano de reorganização financeira para pessoas físicas que desejam reduzir as suas dívidas ou obter novos empréstimos. 

 

“A Caixa está reposicionando os seus canais”, afirma o seu presidente, Jorge Hereda, em entrevista à Rede APJ (Associação Paulista de Jornais), da qual faz parte este jornal. Na entrevista, Hereda anunciou ainda a abertura de 129 agências da Caixa no Estado de São Paulo ainda este ano, de um total de 5

no País em 2

12. Boa parte das novas agências paulistas será pulverizada no Interior, onde a Caixa movimenta crédito de 4

,9 bilhões, equivalente a 16% de sua carteira total (outros 13,6%, ou R$ 34,7 bilhões, referem-se à Capital). Veja a íntegra da entrevista:

 

 

 

Nos dois programas anunciados, qual é o espírito que predomina, o social ou a competição de mercado?

Jorge Hereda - As duas coisas. Um banco público é um instrumento sim do Estado e está a serviço da população brasileira e tem um papel a cumprir. Um banco público é um banco, tem toda a governança a respeitar, não pode fazer benesses sem ter retorno, tem uma série de compromissos. Tem que ser sustentável, tem que ter retorno pois, num banco público, esse retorno se volta para a população também em benefícios. Nosso acionista entre aspas é o governo federal. Em 2

8, nos primeiros sinais de crise, os bancos privados colocaram o pé no freio, frearam qualquer tipo de acesso ao crédito. Foi uma dificuldade muito grande, grandes empresas tiveram problemas de capital de giro. É óbvio que o governo tinha uma preocupação em manter a situação econômica do País e óbvio que os bancos públicos são instrumentos para isso também, com responsabilidade é claro. E naquela época tomamos a decisão de acelerar e pisar enquanto todo mundo estava pisando no freio. O resultado é que em 2

7 tínhamos 6% do mercado de crédito bancário do Brasil, hoje temos 12,6%. Significa a quarta posição em carteira de crédito e a meta é chegar a terceira até o final do ano. Hoje temos uma carteira de R$ 26

bilhões e queremos chegar a R$ 34

bilhões. Vamos conseguir com o esforço que a Caixa está fazendo hoje de aumentar o crédito. A nova estratégia vai contribuir para que a gente chegue nesse ponto.

 

 

Há desconfianças em torno das medidas?

Hereda - Em 2

8 muita gente criticou dizendo a mesma coisa que estão dizendo agora, “os bancos públicos estão indo para uma aventura, estão indo porque o governo mandou, isso é uma irresponsabilidade porque um banco público compete no mercado e tem que ter a mesma condição de competição dos privados”. Nossa carteira cresceu em média 4

% ao ano desde aquela época, aumentamos nosso market share. Foi um bom negócio para a Caixa, foi bom para o Brasil. A Caixa conseguiu crescer. Tivemos ano passado lucro de R$ 5,2 bilhões, o maior lucro da história da Caixa, o maior retorno sobre capital entre os bancos, o maior crescimento de carteira, em função do reposicionamento. Nós achamos que agora existe uma outra oportunidade. Neste momento em que a crise bate às nossas portas numa outra característica, os bancos não tiraram completamente o pé do acelerador. Aprenderam com o que aconteceu em 2

8. Estão cautelosos. A Caixa acha que existe uma outra oportunidade agora. Com esse ambiente de juros mais baixos, quem se posicionar melhor, quem começar a raciocinar com a cabeça de que tem de ampliar a sua base, para dar mais condições de mais pessoas terem acesso ao crédito e mais pessoas serem bancalizadas, num ambiente de crescimento que o País está tendo e de juros mais baixos, vai se posicionar primeiro nesse novo mundo, nesse novo momento.

 

 

O que mudou?

Hereda - No meio da década de 9

, o banco ganhava dinheiro com floating, o dinheiro que ficava no overnight, a inflação era muito alta. Os bancos tiveram que se adaptar à inflação mais baixa e aí se criou outro modelo para ter retorno de seus investimentos, as tarifas. Agora, os juros estão caindo, portanto, vamos ter que ter um spread menor e para ter um nível de lucratividade maior, tem que uma disputa maior pelo mercado, ampliar a base, como aconteceu no passado com a compra de folha de salários. Agora vai ser quem tem condições de atendimento e condição de crédito mais favorável. A Caixa está se posicionando no que ela acredita seja um novo momento do crédito no Brasil. 

 

 

Haverá um segundo movimento no setor ainda este ano?

Hereda - A Caixa lançou essas medidas mas vai continuar se posicionando durante o ano todo. Vamos ser agressivos como estamos sendo desde o ano passado de uma maneira mais firme. Estudamos outras medidas em outros segmentos, mas não dá para antecipar, porque tudo o que a gente faz é em cima de precificações, não tem carteira com margem negativa, fazer só por fazer, que baixou os juros, não tem isso. A Caixa tem uma carteira no setor habitacional de R$ 16

bilhões, ou 73 a 74% do mercado, 3 milhões de clientes. Tudo o que a gente faz tem que ser medido com todo cuidado.

 

 

Qual o impacto na cadeia produtiva?

Hereda - Na pessoa jurídica optamos em centrar firmemente no capital de giro e no desconto de duplicatas. Colocamos R$ 1

bilhões de recursos novos nisso, o que não quer dizer que se limite a isso se tiver mais demanda. A Caixa  vai aplicar R$ 7

bilhões de abril a dezembro com as novas medidas, mas R$ 1

bilhões para capital de giro especialmente para pequenas  e médias empresas. A Caixa quer ser o banco da nova classe média, sempre foi o banco de todos os brasileiros. Quer o pequeno, micro e médio empresários tenham alternativas de crédito nesse momento possa produzir e garantir os empregos que o País precisa. Os pequenos são os que mais geram empregos. Fizemos um grande esforço para colocar os juros muito atrativos para esse setor -

,94% ao mês não existe no mercado nenhuma alternativa, de nenhum banco, nem público, nem privado. 

 

 

A expectativa é puxar para baixo os juros dos bancos privados?

Hereda - A expectativa é ganhar mercado ampliando a base de clientes, conquistando novos clientes porque o mercado bancário é muito competitivo. Uma parcela grande da população brasileira já está bancalizada. E tirar alguém de banco para passar para outro é uma tarefa árdua. Então, esse novo arsenal que a gente coloca à disposição dos funcionários e gerentes é para conseguir ampliar essa base. E vai cumprindo o papel que um banco público tem que cumprir, que de certa maneira é regular o mercado. 

 

 

Como vai funcionar na prática a portabilidade de contas-salário?

Hereda - Neste início de ano passou a valer a portabilidade do salário das folhas públicas e privadas. É a possibilidade do cidadão que receba num determinado banco transferir a sua conta-salário a outro banco a seu desejo. Existe agora a possibilidade maior de o banco abordar diretamente o cliente e dizer: se você trouxer sua conta para aqui, terá melhores condições de juros, atendimento. A portabilidade acelera e propicia a competição entre os bancos e isso é bom para todo mundo, sobretudo para o cliente.

 

 

O que a Caixa planeja em relação a renegociação de dívidas?

Hereda - A Caixa lançou o programa Melhor Crédito. Num primeiro momento isso foi questionado, se era sustentável, se era uma simples questão de atender à demanda do governo. E nós afirmamos que a estratégia da Caixa é ampliar a sua base de clientes. Enxergamos que num ambiente de juros baixos, os bancos precisam se adaptar a isso. Uma questão que vem sendo colocada muito na imprensa é que a população está muito endividada. Há opiniões contraditórias, uns dizem que sim, outros que não, que tem muito espaço. No reposicionamento da Caixa, queremos colocar uma assessoria financeira a nossos clientes. Dizer a ele que a Caixa está preocupada em lhe dar uma alternativa para reestruturar as suas dívidas e ter uma vida mais tranquila. Num primeiro momento, se você não está acostumado a consumir muito determinadas situações e o País mudou, as pessoas podem extrapolar a sua capacidade. É importante que se tenha a possibilidade de se renegociar, de reestruturar a sua dívida e a Caixa está querendo nesse novo movimento que está fazendo também dar essa tranquilidade para o cliente. Utilizar as nossas linhas de financiamento para reestruturar as suas dívidas. 

 

 

Como fazer isso?

Hereda - Ele pode nos procurar e a Caixa vai lhe oferecer as alternativas que têm, verificar com as novas taxas temos a possibilidade de pagar menos. Algumas taxas tiveram o seu prazo dilatado, algumas linhas de financiamento mais a longo prazo, portanto, com essa cesta de produtos que temos, com certeza é possível se achar uma forma de reestruturar a dívida.

 

 

O atendimento vai mudar?

Hereda - A Caixa já está investindo nessa questão do atendimento há algum tempo, temos um novo modelo. 

 

 

E a indimplência?

Hereda - Se eu tenho condições de dar um juro melhor ao cidadão, ele vai ter mais condições de pagar. Além disso, a Caixa tem uma inadimplência controlada. Temos uma composição de carteira de crédito imobiliário muito grande (cerca de 6

%), mas enquanto na área do crédito livre, que a gente chama de comercial, o mercado está com 5,6 a 5,8, a Caixa está com 3,1. A da Caixa é de 2,1 (o imobiliário é 1,7). Temos uma carteira que cresceu em nível significativo nos últimos anos e com nível de inadimplência controlada. 

 

 

É a maior redução de juros da história da Caixa?

Hereda - A Caixa tem como prática há algum tempo procurar ter as melhores condições de juros do mercado. Mas desta vez o banco foi incisivo. Estamos trabalhando nessa proposta há uns três meses. Escolhemos os principais produtos para uma cesta de relacionamento com pessoa física e outra com pessoa jurídica e reposicionamos também a nossa rede - vamos ter que reduzir parte da minha margem líquida e vou ter trazer tantos clientes a mais para compensar isso e aumentar o meu relacionamento com os clientes. Temos 3 milhões de famílias com crédito habitacional, boa parte delas não tem a Caixa como principal banco. Temos 42 milhões de clientes como poupança, mas boa parte deles não tem a Caixa como primeiro banco. Então, é uma oportunidade de estreitar relacionamento com esses que já estão na Caixa oferecendo a eles a melhor condição que o mercado tem. Vamos trabalhar com esses que já conhecem a Caixa e vamos trazer outros clientes também. Todos foram beneficiados. No cartão de crédito, houve um corte de mais de 5

% na tarifa que tinha antes. 

 

 

Que setores serão beneficiados?

Hereda - Sob o ponto de vista da pessoa física, vamos ter um impacto grande especialmente nos funcionários públicos e assalariados de forma geral. Micros, pequenos e médios empresários. O governo tem uma ação forte de crescer o microcrédito orientado; a Caixa se preparou ano passado e vai ter este ano R$ 3

milhões nessa linha. Iremos abrir lotéricas em todos os municípios desassistidos, que hoje em SP são 16, para os quais os editais já foram publicados.

 

 

E as metas de novas agências?

Hereda - Temos uma meta de 2 mil novas agências até 2

15. Essa distribuição foi feita pensando num novo Brasil. A primeira vez que trouxeram a proposta, repetia o desenho que sempre se teve. São Paulo sempre é um estado que vai ter muitas agências porque é onde têm muitos negócios. O reposicionamento está olhando para o Nordeste, o Norte, o Centro-Oeste. O Nordeste é crescendo mais que a média brasileira. A Caixa como banco público vai onde os outros normalmente não vão. Hoje estamos em todos os municípios, com correspondentes. Queremos ter lotéricas em todos os municípios até 2

15.