Eles cantam, representam, ensinam, discursam, vendem, atendem o telefone, evangelizam, falam, falam, falam...E têm em comum o uso da voz como instrumento de trabalho. São cantores, atores, políticos, telefonistas, secretárias, padres, feirantes, pastores, professores, locutores, radialistas, jornalistas...Você já reparou como é grande o leque de profissionais que dependem fundamentalmente da voz?
Segundo especialistas, profissionais que trabalham com a voz estão mais predispostos a terem problemas vocais por utilizarem o mecanismo com mais intensidade.
“Sem minha voz, eu não sou ninguém”, é o que afirma o locutor da rádio 96FM, Márcio Augusto Dias. Na profissão há 21 anos, ele adaptou uma rotina de cuidados com a voz para não ficar sem seu ganha pão. Para ele, uma simples rouquidão é sinônimo de falta no trabalho.
Sendo assim, de manhã e, antes de entrar no ar, Márcio aquece suas cordas vocais com exercícios que duram de 2
a 25 minutos. A prática da articulação e de relaxamento também não podem faltar: “Não fico sem esse aquecimento e acho que todos os locutores deviam fazer o mesmo”.
No cotidiano de Márcio, cigarro, alimentos gordurosos e bebidas geladas, gaseificadas e alcóolicas ficam restritas. “O que pode ser rotineiro para a maioria, para mim, é luxo de folgas e férias”, diz.
Lição de casa
Segundo a fonoaudióloga Paula Belini Baravieira, é importante aquecer as pregas vocais por meio de exercícios específicos que devem ser orientados por um especialistas antes do uso. O que muita gente não sabe é que também é importante desaquecer a voz depois de falar ou cantar por longos períodos. “Dessa forma, aproveitamos o nosso potencial máximo com o mínimo de esforço”.
Assim como muitos profissionais, nem sempre Márcio cuidou da voz como deveria. Tal descuido rendeu uma fenda nas cordas vocais, que precisou ser tratada com exercícios de fonoaudiologia.
“No início da minha carreira eu não sabia trabalhar corretamente com a voz. Isso ficava evidente com a rouquidão e o cansaço rotineiro que eu sentia na garganta”, recorda-se.
Depois de consultar um médico otorrinolaringologista, o locutor descobriu a fenda e, com uma fonoaudióloga, ele aprendeu a colocar a voz corretamente em suas locuções e a fazer os exercícios necessários.
E depois de fazer a lição de casa, Márcio confessa que não teve mais problemas vocais: “É uma disciplina que profissionais como eu precisam ter, principalmente os que sabem que a voz também envelhece e acaba perdendo a qualidade com o tempo”, finaliza.
Na ponta da língua
O que seria de uma boa aula sem a explicação de um professor? Profissional dos que mais fazem uso da voz como instrumento de trabalho, mais do que livros e lousa, o mestre também tem uma relação íntima com suas cordas vocais.
“Eu que o diga. Minha grande preocupação é não ter infecção de garganta por causa de minhas aulas”, confessa Murilo César Soares, que é sociólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Ciente de que a fala é o seu maior instrumento de trabalho, o professor procura não falar alto, não fumar e não ingerir bebidas alcóolicas em períodos de aulas.
E quem, com o calor de verão, resiste a um belo copo de água gelada no intervalo entre uma aula e outra? “Eu resisto mesmo nos dias mais quentes, porque a água gelada é um golpe para a fala”, confessa.
Porém, mesmo com todos os cuidados, há sempre aquele dia em que a garganta deixa o professor na mão. E quando a voz escapa, é a criatividade quem entra em cena: “Em dias de rouquidão, programo minhas aulas com exercícios, atividades de leitura e filmes com a temática em questão”, deixa a dica.
Ficar em silêncio descansa a voz
Com mais de uma década de estrada, o jovem cantor bauruense Danilo Vieira nem sempre soube cuidar de sua voz com a atenção que ela merece. Na adolescência, por exemplo, ele passou por pequenos problemas vocais e hoje, mais maduro, garante que é possível viver normalmente mesmo pensando na voz em primeiro lugar.
“Eu tive inchaço nas cordas vocais no início da minha carreira. Era muito menino e não sabia como lidar com a atividade de cantor. Só queria cantar, e não me preocupava com os cuidados básicos que minha profissão exige. Agora, tudo o que eu faço é pensando na minha garganta”, confessa.
E tais cuidados se estendem até mesmo para a academia, garante Danilo. Se precisa de suplementação, a primeira coisa que o cantor faz é verificar se os componentes presentes na fórmula podem ou não afetar a voz.
O cantor acredita que os organismos reagem de formas diferentes aos estímulos e cuidados: “Eu, por exemplo, não me restrinjo a sorvetes, mas é claro que sigo as recomendações de minha fonoaudióloga. Tomo aos poucos e não o faço em dias de shows”.
Outra segredo de Danilo que pode servir como dica para os profissionais da voz, é ficar em silêncio na primeira hora depois de acordar. Quando tenho apresentação de manhã, procuro acordar bem antes para esse descanso. Frutas e muita água fresca também não faltam no meu dia a dia”, comenta.
Semana Nacional da Voz em Bauru
Em Bauru, o Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP), com o intuito de conscientizar a população sobre a importância e cuidados com a voz programou várias atividades gratuitas e abertas à população. A programação começa amanhã e segue até a sexta-feira.
Palestra: “Como falar bem em público”
Local: FOB/USP – Teatro
Dia: Quinta-feira
Horário: 19h às 21h
Palestra: “Cuidados com a voz no HRAC-USP”
Dia: Quinta-feira
Horário: 9h
Atividades musicais e promoção de saúde vocal: Curso de Fonoaudiologia da FOB-USP vai ao Bauru Shopping
Dia: Quarta-feira
Horário: 19h às 22h
Palestra: “Saúde Vocal e uso da voz profissional na Unesp”
Dia: Terça-feira
Passeata Musical no câmpus com distribuição de maçãs: Alunos sairão em passeata com violão, música e muita alegria e distribuirão maçãs aos alunos, professores e funcionários de todos os departamentos da FOB-USP.
Dia: Quarta-feira
Almoço Musical: Serão realizadas apresentações com cantores, alunos e funcionários em frente ao restaurante universitário. Também haverá Orientação Vocal nas salas de Espera da Clínica de Fonoaudiologia e HRAC-USP.
Dia: De amanhã até a sexta-feira
Horário: Das 12h e 13h
Bate-papo online
Amanhã, das 8h às 12h e das 14h às 18h e na quinta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 19h, a população pode conversar com os docentes e profissionais da fonoaudiologia da FOB/USP e tirar dúvidas a respeito dos cuidados da voz em uma sala de bate-papo online. O endereço eletrônico é o http://www.fob.usp.br/eventos/semanadavoz/index.htm
Evite problemas
Para quem usa a voz como instrumento de trabalho, a fonoaudióloga Daniela Maria Cury Ferreira Ruiz dá dicas valiosas. Evitar o ar-condicionado é uma delas. Quando isso não for possível, o cuidado pede a ingestão de água constante.
Pastilhas e sprays também devem ser evitados, principalmente por quem usa a voz com frequência. Essas substâncias têm função sedativa, o que pode favorecer um esforço maior das cordas vocais. Quando o efeito passa, geralmente a voz piora.
Derivados do leite aumentam a secreção na corda vocal. Já a maçã é indicada por ser adstringente e melhorar a articulação e dicção, o que deixa a voz mais clara e mais fácil de entender. O mesmo acontece com o suco de laranja.