O ‘Batman’ do basquete
A bola de futebol foi trocada pela de basquete, e o menino que antes pedia autógrafo, agora assina seu nome na lista das promessas do esporte nacional. Guilherme Pereira Deodato, o ala Gui do Itabom/Bauru, fala sobre sua dedicação ao esporte, sonhos e vitórias já conquistadas.
Em 2
11, ele foi eleito atleta revelação pela Federação Paulista de Basquete. “A gente estava jogando pela Liga das Américas em Cancún quando fiquei sabendo. Ninguém consegue nada sozinho e se eu estou melhorando e evoluindo é porque tem gente me cobrando e eu estou batalhando”, ressalta.
Já em março deste ano, o ala foi campeão bauruense no Jogo das Estrelas do Novo Basquete Brasil (NBB), levando o título nas enterradas. Com a capa de Batman do mascote Jay-Jay, Gui “voou” para delírio da torcida.
Garoto de infância simples e sempre na cidade de Bauru, antes de tomar outros rumos na vida, como ele mesmo costuma dizer, Gui objetiva ser campeão pela cidade, seja de um título paulista ou brasileiro: “Mas é claro que meus sonhos vão muito além”.
O menino que descobriu o basquete vendo os jogos do Tilibra com a mãe fala, a seguir, sobre infância, amigos, fãs e, é claro, basquete.
Jornal da Cidade – Quando criança, as cestas já chamavam mais a sua atenção do que os gols?
Guilherme Pereira Deodato – Minhas lembranças da infância são comuns e divertidas. Eu me divertia com os amigos na rua. Lembro-me de uma exigência dos meus pais para eu brincar na rua: fazer o dever. Era muito bom. E, na verdade, eu jogava futebol quando criança e acredito que até levava jeito. Mas, depois que conheci o basquete, tomei muito gosto, comecei a praticar e não quis saber de outra coisa.
JC – Quem apresentou o basquete ao menino Guilherme?
Guilherme – Tudo começou porque minha mãe gostava de ver os jogos do Tilibra e trabalhava com cartolas do basquete. Quando ela me apresentou o esporte, eu virei fã e comecei a frequentar todos os jogos. Estava sempre buscando o contato com os jogadores. Foi o início de tudo.
JC – Como surgiu a oportunidade de ser um atleta profissional?
Guilherme – Embora gostasse muito, não imaginei que isso pudesse acontecer. Era uma coisa mais de criança mesmo. Eu tinha alguns jogadores como exemplo, como ídolos do esporte, e treinava como hobby. Acho que você começa a se dedicar integralmente a algo quando descobre que tem chances reais de seguir em frente.
JC – E quando você percebeu que realmente levava jeito para o esporte?
Guilherme – Isso aconteceu justamente no momento em que eu achei que menos teria chances. Quando vi que estava perdendo o basquete, percebi que não queria mais ficar longe dele. Minha categoria, a “infanto”, havia acabado na Luso. Entrei em desespero sem o basquete, porque o esporte já era a minha vida. Eu amava treinar, jogar e gostava muito da socialização que eu tinha dentro do basquete.
JC – Qual foi a solução encontrada?
Guilherme – Eu fiquei um ano sem jogar, mas mesmo sozinho eu não parei de treinar. Naquela época, eu pensava em sair de Bauru para fazer testes em clubes de outras cidades. Já estava tudo combinado com minha mãe, que sempre me incentivou. Foi quando recebi a notícia de que o time profissional voltaria para a cidade e, para isso, eles precisariam ter a categoria federada e que poderia ser a minha. Passei a direcionar meus treinos sozinho para não perder o físico. Então veio o teste, nessa época eu tinha 16 anos. Fui considerado o destaque do teste. Guerrinha me chamou e falou que eu não seria apenas um jogador da base, mas ajudaria a compor o adulto como um reserva. Fiquei tão animado que nem sei como explicar, principalmente porque eu tive a sorte de ter um treinador como o Guerrinha.
JC – Como é a sua relação com o técnico Guerrinha?
Guilherme – Ele sempre me cobrou muito e me fez entender que eu precisava treinar mais do que os outros se eu quisesse chegar a algum lugar. Minha relação com ele é muito boa, tranquila. A gente trabalha já há quase cinco anos juntos, desde que ele trouxe o projeto para Bauru. Na verdade, eu sou o único jogador daquela época. Não digo que somos amigos, porque ele é muito profissional. É claro que temos contato fora de quadra. Ele é uma pessoa muito legal, mas sabe separar bem as coisas. Mas isso é bom porque é o que faz mover o time. É o jeito dele e acho que isso é importante.
JC – Você foi eleito o atleta revelação pela Federação Paulista de Basquete, em 2 11. O que esse título representa para você?
Guilherme – A gente estava jogando pela Liga das Américas em Cancún quando fiquei sabendo que eu fui reconhecido como a revelação do Paulista. Foi ótimo, fiquei muito feliz. As coisas que estão aparecendo agora são resultado do meu trabalho e do trabalho de quem está comigo. Ninguém consegue nada sozinho e se eu estou melhorando, evoluindo, é porque tem gente me cobrando e eu estou batalhando. Tento ouvir o que as pessoas me dizem e acredito que isso até me impulsiona para melhorar e buscar sempre mais.
JC – E o que você busca?
Guilherme – Como sou nascido e criado em Bauru e minha família e amigos vivem na cidade, eu quero ser campeão aqui. Quero ganhar um título, seja o Paulista ou o Brasileiro, antes de tomar outro rumo na minha vida. Mas é claro que meus sonhos vão muito além disso. Esse é um objetivo para agora.
JC – O que o “Batman” tem a dizer sobre o título no Jogo das Estrelas do Novo Basquete Brasil (NBB)?
Guilherme – (Risos) Eu tenho uma boa impulsão e fui o escolhido para representar o time na competição de enterradas. Fui para a quadra, gravei o vídeo, mandaram para a SporTV e fui classificado. Foi muito especial ter vencido o campeonato de enterradas, principalmente porque me deparei com o calendário corrido e não tive tempo para me preparar como eu deveria. Ver o ginásio lotado e os meus amigos esperando muito de mim foi uma emoção muito forte. As ideias sobre o que fazer foram surgindo na hora...
JC – Mas de onde veio a ideia de usar uma capa do Batman (risos) ?
Guilherme – Ah, isso foi sorte. Eu vi a capa com o mascote Jay-Jay, peguei e consegui divertir o público (risos).
JC – O basquete é um esporte popular em Bauru. Como é a sua relação com os fãs?
Guilherme – Para mim, Bauru é umas das cidades do Interior que mais respira basquete. O ginásio está sempre lotado e a gente fica muito feliz com isso. Lidar com os fãs é muito fácil porque eles são meus amigos. Quanto aos mais novos, eu fico muito feliz quando uma criança pede um autógrafo. Eu já fiz muito isso quando garoto, então sei bem como é e tento dar atenção a todos.
JC – Você se espelha em algum jogador?
Guilherme – Quando criança eu me espelhava em praticamente todos os jogadores do Tilibra. Eu queria ser um pouquinho de cada um deles (risos). Hoje, posso citar alguns jogadores que eu sou fã por causa da determinação que têm. O Leandrinho e o Marcelinho são exemplos pela dedicação ao basquete.
JC – O que o basquete já proporcionou a você fora das quadras?
Guilherme – Muita coisa mesmo. O esporte só traz coisas boas para os atletas. Eu viajei bastante e conheci muita gente bacana. Pude ir para a China, Argentina, México e alguns outros lugares de passagem. Toda essa parte de socialização foi muito importante. Independente da área, muitos profissionais têm dificuldades para conseguir o que os atletas acabam conseguindo mais cedo. A vida no esporte representa uma carreira curta mas que pode ser bastante recompensadora. Agora voltei a estudar porque acho que ter uma formação acadêmica é muito importante. Estou fazendo educação física por gostar muito dessa parte de saúde esportiva.
JC – Um jogo para jamais esquecer.
Guilherme – Tenho jogos memoráveis, sim. Teve um que eu não vou esquecer, não pela pontuação, mas pelo modo como as coisas aconteceram. Foi contra o Rio Claro pelo Paulista. Eu tinha 17 anos e, como reserva do time, ou eu jogava um minuto, 3
segundos ou não entrava no jogo. O Guerrinha me deu a oportunidade de entrar para marcar o Vanderlei, um jogador campeão que eu era fã de pegar autógrafo. Fiquei até assustado. Mas o fato marcante é que eu consegui fazer a função de marcador e consegui fazer uma bola de três pontos, uma de dois, recuperei uma bola e o time virou o jogo. O incrível foi que o pessoal veio me agradecer, depois, e eu não estava nem entendendo direito o que estava acontecendo. Isso me deu muita força. Já esse último jogo contra Brasília, um grande time, também marcou por ter sido o jogo em que eu mais pontuei como profissional. Fiz 28 pontos, uma coisa atípica já que pontuar não é exatamente a minha função.
JC – Seleção Brasileira?
Guilherme – Seleção para mim ou para qualquer outro jogador é objetivo. Se vier será o máximo, principalmente nesse fase que estou vivendo. Quanto a NBA e Europa...Não sei se eu vou chegar até lá, mas com certeza eu trabalho para chegar nos melhores lugares.
JC – Você respira basquete, mas quem é o Guilherme fora das quadras?
Guilherme – Na verdade eu acordo e vou dormir pensando em basquete. Minha vida é treinar e treinar, mas eu procuro relaxar lendo...Também saio com os amigos e me divirto. Mas tenho hora certa para tudo e é preciso saber como fazer as coisas. Depois dos jogos ganhos, nós saímos para relaxar e rir com os amigos. Outra coisa que eu gosto de fazer é pescar com meu pai nas férias.