Buenos Aires - A Argentina interveio ontem na petroleira YPF e buscará expropriar 51% da empresa controlada pela espanhola Repsol-YPF, em um movimento que acentua a presença do Estado na economia e coloca o país à beira da um grande conflito com a União Europeia.
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse ontem que vai enviar ao Congresso um projeto de lei para expropriar a parte do acionista majoritário da empresa, a maior do país, e que é culpada há meses pelo governo pelo declínio da produção de petróleo e gás no país.
A governante afirmou que de seu plano surgirá “uma empresa nacional e profundamente federal (...) YPF é de todos, quero que tenham isso muito claro”.
A decisão de expropriar a YPF foi aplaudida e comemorada por dezenas de funcionários que acompanharam a presidente durante o evento do anúncio, embora possa causar uma onda de litígios internacionais na Argentina.
Reação europeia
“A aquisição do controle pelo governo argentino será um sinal muito negativo para os investidores, nacionais e internacionais, e pode danificar seriamente o ambiente de negócios na Argentina”, disse o porta-voz de Comércio da UE, John Clancy.A presidente afirmou que busca expropriar exclusivamente as ações da Repsol na companhia. “Não queremos afetar aqueles que com boa fé compraram na bolsa e portanto operam na bolsa, nem tampouco nenhum outro sócio”, afirmou em discurso.
Atualmente a Repsol possui 57,4% da YPF, enquanto o Grupo Petersen, o maior acionista local, tem cerca de 25,46%.
Os títulos da dívida soberana da Argentina aceleraram sua queda após o anúncio, enquanto a bolsa caía pressionada pelas ações da YPF, que recuaram cerca de 2,43% antes de serem suspensas pelo regulador do mercado.
“A soma de todos os males de uma estatização se consumou e isso muda redondamente a tendência de ação”, disse o analista Marcelo Paccione, analista da corretora ConsultCapital.
Daniel Volberg, economista do Morgan Stanley, disse em nota a clientes que “o conflito do petróleo é apenas um aspecto” do que ele chamou de possível “radicalização da política” do governo argentino, que nacionalizou empresas como a Aerolíneas Argentinas, fundos de pensão privados e a maior distribuidora local de águas.
Ambas as câmaras do Congresso são controladas pelo governo, por isso se deduz que a regra seja aprovada. Segundo o projeto, da parte a ser expropriada, 51% vão permanecer nas mãos do Estado e 49% serão das províncias produtoras de petróleo da Argentina.
Argentina suspende registro da Bunge
Buenos Aires - O fisco argentino suspendeu ontem o registro de operador de grãos da companhia do agronegócio Bunge, uma medida que retira alguns benefícios de suas atividades no país, enquanto a Justiça determinou um embargo dos bens da empresa por supostas irregularidades fiscais. “A companhia realizou triangulações nocivas de exportações, o que teria permitido evadir mais de 435 milhões de pesos (US$ 1
milhões) em impostos, nos anos 2
6 e 2
7”, afirmou a Administração Federal de Ingressos Públicos (AFIP) em comunicado.
A órgão afirmou ainda que a Justiça embargou bens da empresa em garantia. O embargo envolve ativos da ordem de US$ 57 milhões, segundo a AFIP. A Bunge já havia sido suspensa em março de 2
11 pela AFIP.
O governo da presidente Cristina Fernández, conhecido por suas políticas intervencionistas, tem tido uma relação tensa com as grandes companhias do setor agropecuário. No ano passado, várias empresas tiveram seu registro suspenso pela acusação de evadir somas milionárias de impostos. A suspensão do registro da companhia norte-americana não deve afetar significativamente sua capacidade de fazer negócios na Argentina. Contudo, aumenta sensivelmente o clima de insatisfação no setor no país que é o principal exportador de óleo de soja e de farelo.
A ausência do registro impõe desafios logísticos diante das restrições governamentais para transportar grãos no país. Mas a suspensão não deve empurrar para baixo as exportações, uma vez que as companhias impossibilitadas de ter registro podem simplesmente pagar outros para transportar suas cargas.
Um porta-voz da companhia não estava imediatamente disponível para comentar o assunto, mas a Bunge vem, repetidamente, negando as acusações.
Estimativas privadas indicam que 5 por cento da receita fiscal argentina vem dos grãos. A presidente é frequentemente criticada pelo setor e outros grupos industriais por aumentar o papel do Estado no setor privado.
Nesta segunda-feira, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse que vai enviar ao Congresso um projeto de lei para expropriar a parte do acionista majoritário da petrolífera Repsol-YPF, a maior do país, e que é culpada há meses pelo governo pelo declínio da produção de petróleo e gás argentina.
(Reportagem de Hug Bronstein e reportagem adicional de Walter Bianchi)
Espanha declara fim da ‘amizade’
Madri - Surpreendida pelo anúncio da desapropriação da YPF, a Espanha anunciou ontem “fortes represálias” contra a Argentina e tomou a decisão de Cristina Kirchner como um ataque direto ao Estado espanhol.
O Ministério de Assuntos Exteriores declarou o fim da “longa relação de amizade” com a Argentina e convocou o embaixador daquele país para uma audiência amanhã. Já a Repsol anunciou que estuda medidas legais contra o governo de Kirchner.
O anúncio mobilizou todo o meio empresarial espanhol que, como o governo, teme que a desapropriação aumente ainda mais as preocupações do mercado e afete a venda de títulos da dívida que o país faz amanhã e na quinta.
A notícia da desapropriação chegou à Espanha minutos depois do fechamento da Bolsa de Madri, que havia fechado em baixa de
,57 %.
Antes disso, o país já despertara com dores de cabeça: primeiro soube que as taxas de juros para seus títulos de 1
anos ultrapassavam os 6%. Depois, ainda discutia a polêmica viagem do rei Juan Carlos 1º a Botsuana para caçar elefantes, que só foi divulgada porque o monarca caiu e quebrou o quadril.
A viagem despertou a ira de setores contra a monarquia. Hoje, o rei seguia internado em Madri.
Depois de uma reunião de emergência com o premiê Mariano Rajoy, o ministro Jose Manoel Soria (Indústria) classificou o ato de Kirchner como um “claríssimo gesto de hostilidade”. Disse ainda que a Espanha fará “fortes represálias” à Argentina. Disse ainda que o anúncio de Kirchner infringe um acordo com Madri que prevê consenso entre os dois países para decisões que envolvam empresas espanholas.