09 de julho de 2026
Geral

Bebê anencéfalo sobrevive durante quatro dias

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 3 min

Gestações de bebês anencéfalos foram discutidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) durante 8 anos até que ficou definida, na última quinta-feira, a legalidade para esse tipo de aborto. A decisão cabe à mãe, de levar ou não a gravidez adiante. Uma jovem de 21 anos, moradora da área leste de Bauru resolveu gestar seu filho, mesmo sabendo que ele era anencéfalo. Desenganado pelos médicos, ele ainda sobreviveu por quatro dias.

A história desta jovem de 21 anos, que pediu sigilo da identidade, começou em outubro do ano passado. Mãe pela terceira vez, ela foi até seu médico para realizar uma ultrassonografia porque sentia muitas dores. “Eu a levei para fazer o ultrassom 3D e logo o médico disse: o corpo do seu bebê é normal, mas ele não tem cérebro, é anencéfalo. Nesta ultrassonografia já saiu o laudo e o médico a orientou a pedir o aborto na Justiça”, contou a tia da jovem.

 

Apesar da orientação médica, a mãe resolveu levar a gravidez adiante, mesmo com muitas dores e o risco de ocorrer um aborto espontâneo, segundo informado pelo seu médico.

 

Passados quase nove meses de gestação, mais precisamente no dia 13 de março deste ano, outra ultrassonografia apontou o mesmo problema: anencefalia. “O bebê já estava de lado e pronto para nascer. Nesta última quinta-feira ela começou a ter muitas dores e a levamos para a maternidade. O bebê nasceu às 22h45”, acrescentou a tia, que também teve a identidade mantida em sigilo.

 

 

Vida

 

Como acreditar que um bebê com apenas 1% de cérebro pode sobreviver? Essa pergunta a medicina não sabe responder, por isso, foram dados apenas 30 minutos de vida para o menino. “Ele nasceu com dificuldades para respirar, mas logo melhorou. Lutou para viver. E assim ficou nestes últimos dias”.

 

As imagens do recém-nascido são impressionantes, conforme presenciado pela equipe de reportagem do JC. Ele chorava e sentia necessidade de se alimentar como um bebê normal. “Ele chorava bem baixinho e se alimentava por uma sonda, que tinha que ser bem colocada senão ele a puxava”, comentou a tia.

 

Foram quatro dias à espera de um milagre que talvez mantivesse o bebê, com mais de 3 quilos, vivo. “Desde sábado a mãe teve alta, mas não quis deixar ele na maternidade. Ontem (anteontem) conseguimos trazer ela para casa, mas o bebê já não estava bem. Hoje (ontem) por volta das 5h ele faleceu. Eles nos informaram às 6h30”.

 

 

Drama

 

O instinto materno emana da natureza. Explicar para uma mãe que seu filho não irá sobreviver por muito tempo, enxergar, ou se desenvolver, mesmo que pouco, como uma criança normal, não é tão simples. Mesmo sabendo de todos os problemas, a morte do bebê foi um choque para a jovem. “Ela está à base de calmantes hoje (ontem) e até quis tirar a criança do necrotério. Está inconformada. Mas ainda hoje ele será velado”, finalizou a tia.

 

 

 

O que diz a medicina

 

No último sábado, o JC noticiou o caso da empresária Kátia Corrêa que abortou em três gestações de bebês anencéfalos. O geneticista Esiquiel de Miranda explica que a anencefalia é uma malformação fetal grave proporcionada pela interação de alguns fatores genéticos e também ambientais, apesar da incidência ser maior em mulheres jovens e com idade mais avançada.

 

“Em cada gravidez subsequente de anencéfalos o risco da nova gestação ter a mesma malformação é de 5%. Mulheres diabéticas também possuem maior probabilidade de gerar filhos sem cérebro”, disse. Uma das medidas que podem evitar a anencefalia é a ingestão de ácido fólico, orientada por um médico.

 

 

 

Conselho criará normas para detectar anencefalia

 

O Conselho Federal de Medicina criou, nesta última sexta-feira, uma comissão especial para definir critérios para diagnosticar a anencefalia. A medida, adotada um dia depois da decisão do STF de liberar a interrupção da gravidez nos casos de feto com a anomalia, pretende tirar dúvidas de médicos e padronizar o atendimento, a exemplo do que já ocorre com diagnóstico da morte encefálica. 

 

A comissão especial será formada por médicos de diversas especialidades, como pediatras, obstetras, especialistas em ultrassonografia e medicina fetal, além de um representante do Ministério da Saúde. A decisão do STF torna o processo mais ágil, pois dispensa a necessidade da autorização da Justiça.