08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

E não é que era bom?


| Tempo de leitura: 4 min

Nos tempos de minha meninice, ainda com longos cabelos e perninhas muito magras que faziam com que meu irmão me apelidasse de "Canela", nada, nem as vicissitudes de uma vida paupérrima, fazia com que eu parasse de sonhar com um futuro feliz. Eram dias de simplicidade, quando as novidades chegavam recheadas de risadas, confissões e cochichos. Éramos pequenos, não podíamos ouvir as "coisas dos mais velhos". As vizinhas se visitavam. As tardes eram regadas a café acompanhado de bolo de fubá cheiroso e as inesquecíveis reuniões da Stanley. Um acontecimento! As donas-de-casa, muito perfumadas, esperavam ansiosas pelos momentos de demonstração dos produtos. "Este é maravilhoso para a pele", "esta pasta limpa qualquer coisa, de fogão a tênis de educação física". Enquanto isso as meninas observavam ávidas o comportamento das jovens senhoras. "Quero ser assim quando crescer". Casar, ter um casal de filhos, saber cozinhar todas aquelas gostosuras, costurar, bordar... Nem passavam pela minha cabeça as idéias feministas! Profissão? Do Lar, é claro!!

Meu sonho era baseado nas histórias infantis da Cinderela que eu lia em livrinhos que chegavam em minhas mãos, na maioria das vezes usados. Livro novo? Nem pensar! Gasto supérfluo diante de uma infância pobre, onde Natal significava nada mais do que sentar no muro de casa observando as outras crianças brincando com suas bonecas novas, de grandes olhos azuis e cabelinhos louros. E como doía não ter uma assim. A noite chegava e eu olhava para o céu ansiosa esperando que Papai Noel voltasse trazendo algo para mim. "Quem sabe ele se esqueceu. É claro que ele vai lembrar de mim." Eu observava as lágrimas nos olhos da minha mãe e não entendia nada. Quando compreendi que Papai Noel não existe prometi duas coisas: que não iria deixar meu filho acreditar nele e que eu nunca lhe faltaria um presente de Natal. Cumpri as duas promessas.

Mas os dias também sabiam ser agradáveis. Uma volta na roda gigante, um saco de pipoca... era o Paraíso. Nas noites de verão as mães sentavam em cadeiras colocadas na calçada para comentar sobre a novela das 8. A meninada corria solta, brincando de pega-pega e esconde-esconde. O suor escorria pelas nossas faces vermelhas e a brisa da noite o secava. E o ano letivo ia passando. Nas férias de julho a professora enchia nosso caderno de "lição de férias". 10 vezes a tabuada, 240 contas de adição e mais 40 de multiplicação. Mas dezembro chegava com promessa de alegria! Ia para a fazenda onde meus avós moravam. Eu ficava noites sem dormir, sentindo toda a ansiedade que a minha miudeza permitia. E a grande noite chegava. O trem partia da estação da Luz com destino a Catanduva por volta das 23 horas. Era uma noite inteira de viagem.

Quanta beleza vista pela janela do trem! Fazendas com rebanhos pastando, homens trabalhando na roça... e meu coração aos pulos aguardava a chegada. De Catanduva para Novo Horizonte o percurso era feito de ônibus. Depois outro ônibus para a fazenda e mais um pequeno trajeto a pé, carregando malas, com o corpo cansado e a alma liberta!

Os pés afundavam na terra fofa e vermelha dos campos de arroz, encardindo as meias brancas. Ao longe avistávamos a casinha dos meus avós, cercada por imensos coqueiros carregados de macaúba cheirosa. A recepção era calorosa como só o povo da roça sabe fazer. Panela fumegando no fogão de lenha, o cheiro do café sendo passado no coador, fresquinho, porque "não se serve café requentado para o povo que vem posar em casa".

Enquanto os adultos conversavam a molecada se esbaldava no terreiro, correndo atrás de galinhas, porquinhos e patos. Na árvore frondosa atrás da casa pendia um balanço feito de corda, com um pedaço de madeira. A brincadeira era ver quem balançava mais alto. A noite caía e a casa era iluminada com lamparinas a querosene. Começava a festa dos besouros e mariposas, atraídos pela tênue luz das tais latinhas cheirosas. Mas nada que um bando de patos famintos não conseguisse resolver em alguns minutos de bicadas certeiras. Era encanto puro para uma criança criada na cidade grande.

Antes de dormir o pedido era sempre o mesmo: "Vô João, conta uma historinha para gente!" E lá vinha causo! Sempre tinha um causo de assombração para sossegar a meninada, que naquele lugar deserto, escuro e silencioso era tiro e queda para botar a turma na cama. Lembranças. Recordar é viver... e reviver inúmeras vezes.


Maria da Penha Campregher, diagramadora, tem formação em tecnologia ambiental e reside na Capital, mas é apaixonada pelo interior e especialmente por Bauru