Um passado de dissabores e violência, mas também de lutas, idealismo e propósitos. Não é errado contar o final de uma estória quando esta se refere à história recente de um país e seus cidadãos. Uma história que ainda influencia e entremeia as relações políticas, econômicas e culturais da sociedade brasileira. Esse é o objetivo da peça Filha da Anistia, que vai levar uma reflexão sobre o período da ditadura pós-golpe de 64 ao Teatro Municipal de Bauru nos dias 2
, 23 e 24 de abril, em cinco apresentações. Um debate sobre o tema, com o elenco, convidados e o público, segue após o fim de cada uma das sessões. A entrada é gratuita.
O espetáculo é uma realização da Caros Amigos Cia de Teatro, em parceria com a Associação de Pesquisadores sem Fronteira e o Projeto Marcas da Memória, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Filha da Anistia toca nas chagas dos “anos de chumbo” de forma consciente e delicada, buscando provocar um olhar mais crítico sobre a história recente do país, sobretudo nas gerações posteriores à Lei de Anistia.
De acordo com os autores Alexandre Piccini e Carolina Rodrigues, o intuito é mostrar que o que aconteceu não diz respeito apenas aos diretamente envolvidos. “Buscamos trazer à tona uma reflexão sobre as consequências das atrocidades cometidas durante o período, tanto sob o ponto de vista individual, dos que sofreram com as graves violações aos Direitos Humanos, quanto do ponto de vista coletivo, de uma nação desfigurada por mais de 2
anos de privação das liberdades democráticas. É impossível construir um futuro sem compreender o presente. É impossível compreender o presente sem conhecer o passado”.
Durante o espetáculo, percebe-se que direito à memória, à verdade e à justiça é uma das principais tônicas da abordagem provocativa do texto. “Filha da Anistia é uma peça teatral que expressa o questionamento legítimo de uma geração que não vivenciou a ditadura militar e para quem foi omitida a informação sobre o acontecido; por isso mesmo clama pela verdade dos fatos, perseguições, prisões, torturas e desaparecimentos forçados de opositores políticos”, destaca a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário Nunes.
Para o diretor da peça, João Otávio, a intensidade dramática dos diálogos e o jogo cênico de Filha da Anistia tiram os “anos de chumbo” dos anais da História e os colocam no cotidiano, na vida atual das pessoas. “É uma aproximação que causa perplexidade e esclarecimento ao mesmo tempo”, destaca.
A trama
Em Filha da Anistia, a personagem Clara é uma jovem que, após a morte de sua avó, parte em busca do pai que jamais conheceu e, nessa procura, um passado de mentiras e omissões, forjado durante a ditadura militar, acaba sendo desvendado. Todo o seu mundo e suas verdades caem por terra diante das descobertas sobre o passado de sua família, que resvalam num período da história do País que poucos de sua geração conhecem.
A peça provoca no espectador uma reflexão sobre a época usando como metáfora os desencontros de uma família despedaçada pela truculência do período. “Para quem ainda insiste que a anistia é sinônimo de esquecimento da barbárie do passado, Filha da Anistia é um libelo contra a ignorância e a insensibilidade”, ressalta Paulo Abrão, secretário Nacional de Justiça e Presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
Jornada de Direitos Humanos
A peça Filha da Anistia faz parte da II Jornada de Direitos Humanos de Bauru promovida pelo Observatório de Educação e Direitos Humanos da Unesp. Após a apresentação, haverá um debate com participação do público, do elenco e de convidados locais. O debate será coordenado por Alípio Freire, jornalista, escritor e ex-preso político diretor do Núcleo de Preservação da Memória Política de São Paulo.
A Jornada também terá amanhã o lançamento do livro “Futebol & Ditadura” e, hoje e amanhã, o Cine-fórum, a partir das 9h, na Diretoria de Ensino de Bauru, com a apresentação do filme “O ano em que meus pais saíram de férias”, do diretor Cao Hamburguer. Após a exibição, a professora de história Rosângela de Lima Vieira mediará debate sobre o filme.
Na sequência, também na Diretoria de ensino, hoje e amanhã, será realizada a segunda oficina pedagógica “Memória e Cidadania, Hoje”, ministrada pelos professores Clodoaldo Meneguello Cardoso (Unesp-Bauru) e Caroline Grassi Franco de Menezes, do Memorial da Resistência de São Paulo.
Serviço
Peça “Filha da Anistia” será realizada, no Teatro Municipal de Bauru (av. Nações Unidas, 8-9), nos dias 2 , 23 e 24 de abril. Horários: sexta-feira (2 ), 2 h; segunda (23), 15h e às 2 h; terça-feira (24), 9h e 2 h.