09 de julho de 2026
Geral

Falta de água gera depredação e até fila para caminhão-pipa

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 10 min

“Queremos água.” Esta é a reivindicação dos moradores do Jardim Marília, que na manhã de ontem, numa clara demonstração de desespero diante de um problema recorrente em Bauru, chegaram a apedrejar um ônibus do transporte coletivo durante manifestação contra a falta de água que acomete o bairro há três dias.

 

De acordo com informações da assessoria de imprensa do Departamento de Água e Esgoto (DAE), o problema foi causado por um defeito em uma bomba do Poço Gasparini, que além do Jardim Marília e da vizinha Vila Garcia, afetou ainda outros bairros (leia mais na página 9).

 

O protesto no Jardim Marília aconteceu por volta das 11h de ontem e mobilizou quatro viaturas da Polícia Militar (PM) para conter a revolta dos cerca de 30 moradores, que decidiram sair às ruas para reclamar e chamar a atenção da administração municipal para a falta de água no bairro.

 

Segundo os relatos da população à reportagem do JC, o fracasso nas diversas tentativas de respostas ou solução do problema junto ao DAE fez com que eles se revoltassem e parassem um ônibus que faz o trajeto no bairro, localizado na região norte da cidade, próximo à Vila Garcia.

 

A dona de casa Iraci Domingues dos Santos, 39 anos, que participou da manifestação, ressalta ter ligado diversas vezes no DAE para pedir o deslocamento de um caminhão-pipa para atender às necessidade dos moradores.

 

“Ligamos várias vezes no DAE e eles disseram que uma bomba no Gasparini estaria quebrada e que iriam consertar, mas os dias se passaram e nem um pingo de água saiu das torneiras. Para piorar, nem o caminhão-pipa eles mandaram. O bairro é distante de tudo e a maioria é pobre, não tem como ficar comprando água”, reclama a moradora.

 

 

 

Sem banho

 

Segundo ela, alguns vizinhos estariam há três dias vivendo com o mínimo de água possível que restaram em baldes, enquanto outros se desesperavam com a situação de não poder nem mesmo ir ao banheiro ou cozinhar.

 

“Estou há mais de um dia sem colocar um pingo de água na boca e tenho uma filha de 1 ano que precisa de água e alimento”, reclamou à polícia a dona de casa Carolina Gonçalves de Jesus, mãe de Yasmim Rafaela de Oliveira Gonçalves.

 

O técnico de operações Reinaldo Alves da Costa, 34 anos e sua esposa Elaine Aguiar, 37 anos, também lamentaram a seca das torneiras da casa. “Tem gente que não está nem indo trabalhar por vergonha de não poder tomar um banho. Isso é um absurdo, não dá para viver assim”, relata Reinaldo.

 

De acordo com os moradores, a situação sobre a falta de água no bairro durante os últimos dias não seria um caso isolado. “Desde o tempo em que eu moro aqui isso acontece, sempre quebra essa bomba”, completa Elaine.

 

Ontem à tarde, ao ser questionada pela reportagem do JC, a assessoria de imprensa do DAE rebateu as informações dos moradores e informou que, anteontem, manteve três caminhões-pipa rodando pelos bairros afetados pela falta d’água. Ontem o procedimento teria sido repetido, mas não foi informada a quantidade de caminhões disponibilizada.

 

 

 

Apedrejamento

 

Muito exaltados, durante a manifestação ocorrida ontem no Jardim Marília dois rapazes acabaram atirando pedras e esvaziando o pneu de um ônibus do transporte coletivo que passava pela quadra 6 da rua Brasilino de Carvalho. 

 

Por conta da ação, a Polícia Militar (PM) foi chamada e acabou detendo os dois manifestantes, que foram encaminhados ao plantão da Polícia Civil. Após serem ouvidos pelo delegado, foi elaborado um boletim de ocorrência por danos e eles foram liberados. A janela traseira lateral do ônibus ficou estilhaçada.

 

Os próprios moradores do bairro consideraram a situação “injusta”, mas alegaram não ter encontrado outro meio de chamar a atenção para a situação que vivem, que inclui ainda outras reclamações, como a da dificuldade de atendimento médico.

 

“Parar o ônibus foi a única maneira que encontramos de chamar a atenção de alguém. O motorista não quis estacionar, por isso eles acabaram tacando a pedra. Esses dois rapazes que foram presos são pais de família e também estavam cansados de ouvir seus filhos pedindo água”, afirma Cristiane Gonçalves de Jesus, 22 anos.

 

 

 

Famílias andam de um bairro a outro para entrar na fila e conseguir água em um caminhão-pipa

 

Com a intervenção da Polícia Militar (PM) após o apedrejamento do ônibus na manhã de ontem, um caminhão-pipa do DAE foi enviado à Vila Garcia para atender a população de lá e do Jardim Marília, que estavam com problemas de falta d’água há três dias. 

 

Por volta das 14h, os moradores formaram filas para encher os baldes com a água que era distribuída pelo caminhão estacionado na quadra 2 da rua Júlio Simões, a quase 20 quarteirões de distância do local onde a manifestação foi realizada.

 

Após a caminhada até o caminhão-pipa, o morador Oséias da Silva conseguiu encher os baldes com a ajuda da filha Milena Graziele da Silva, 5 anos, e Taís da Silva Ambrogi, 7 anos. 

 

Apesar da situação ter sido controlada, os moradores pedem para que outros caminhões sejam enviados ao local para o abastecimento, principalmente no Jardim Marília, onde pessoas com deficiências físicas e algumas mães com crianças pequenas teriam ficado sem água por não chegar a tempo ao local.

 

Para ter pelo menos o mínimo de água em casa, Cintia Gonçalves de Jesus improvisou e foi com sua filha no carrinho de bebê buscar o líquido precioso até o caminhão-pipa.

 

“O pessoal se uniu e foi buscar água de carroça, mas ao chegarem lá, o caminhão-pipa do DAE já tinha ido embora”, reclama Iraci dos Santos. 

 

 

 

O problema que culminou com a ação desesperada dos moradores do Jardim Marília ontem afetou o abastecimento de, no mínimo, mais cinco bairros. Ao todo, segundo o próprio Departamento de Água e Esgoto (DAE), foram mais de 7 mil bauruenses prejudicados. O defeito teria ocorrido no Poço Gasparini (UP-25), o mesmo da bomba que durou apenas 15 dias no ano passado, comforme o JC divulgou.

 

Por meio da assessoria de comunicação, a autarquia explicou que foram constatados problemas técnicos na segunda-feira na bomba do poço. “Motivo pelo qual alguns bairros da região do Gasparini, como Jardins Helena, TV, Bela Vista, Vila Garcia e Índia Vanuíre, sofreram desabastecimento”, afirmou, em nota.

 

Segundo o DAE, equipes estiveram no local e efetuaram reparos nos cabos elétricos e na própria bomba, sendo o abastecimento normalizado ontem. 

 

Questionada sobre qual seria este problema, a autarquia se limitou a dizer que “quando qualquer problema técnico é apresentado em uma bomba, a mesma é enviada para o fabricante detectar o problema”.

 

Em relação à demora de mais de dois dias para regularizar a questão, o DAE culpou a profundidade do poço e o peso da bomba. “O Poço Gasparini (UP-25) tem 393 metros de profundidade, portanto, a bomba que fica instalada no mesmo é pesada e grande. Deve ter cuidado na hora de retirá-la para não danificar o poço”.

 

Uma pergunta feita à autarquia e que ficou sem resposta foi sobre o sistema de reservação do poço. Tal sistema serviria exatamente para que o abastecimento não ficasse comprometido enquanto o problema fosse resolvido. 

 

A assessoria de comunicação não informou a atual situação do sistema ou mesmo se ele existe. A única informação foi de que existe uma bomba reserva no poço.

 

 

 

A bomba

 

Além de saber qual foi o problema apresentado na bomba, é necessário esclarecer sobre as condições do próprio equipamento. Na tarde de ontem, a reportagem questionou o DAE sobre quando a bomba fora instalada no Poço Gasparini, porém, não houve respostas.

 

No meio do ano passado, o mesmo poço já foi alvo de grande polêmica. Na ocasião, uma bomba instalada há apenas 15 dias deixou de funcionar. A “vida útil” de uma bomba é, em média, dois anos. Algumas, porém, funcionam por muito mais tempo.

 

Naquela época, a bomba foi retirada para que o defeito fosse verificado. Uma nova foi instalada no lugar. A assessoria do DAE, entretanto, não confirmou se esta substituta foi a que apresentou problemas nesta segunda. Caso seja, a duração também está bem abaixo da “vida útil” dos equipamentos.

 

 

 

24 horas?

 

Em relação ao tempo para a manutenção dos vazamentos, a autarquia, por meio de sua assessoria de comunicação, explica que a prioridade são aqueles que apresentam maior volume e com afundamentos ou buracos nas vias públicas. “O prazo para conserto, nesses casos, é de 24 horas”, aponta, em nota. Prazo bastante diferente do que o reclamado pela população.

 

Para os vazamentos considerados pequenos, o DAE afirma que é feita uma sinalização no local e, depois, uma programação para os reparos. O prazo máximo nestes casos, entretanto, não foi divulgado.

 

Em relação às reclamações pontuais, a autarquia apontou que o conserto na quadra 1 da rua Francisca Munhoz Moreno estava previsto para ontem, assim como o da Maria Aparecida Oliveira Silveira. Já sobre o vazamento no cruzamento entre a avenida Duque de Caxias e a rua Paraná, a autarquia não deu previsão para a manutenção.

 

O DAE alerta que as reclamações de vazamentos de água e esgoto em vias públicas devem ser transmitidas ao Serviço de Atendimento ao Público (STAP), que fica disponível 24 horas, por meio do telefone 0800-7710195.

 

 

 

Poço dos desejos

 

Apesar de não ser a solução de todos os problemas, o poço da Vila Cardia, localizado na quadra 2 da avenida Cruzeiro do Sul, vai aliviar o contexto atual de falta de água em Bauru. Apesar de a assessoria do Departamento de Água e Esgoto (DAE) afirmar que não há atraso, a autarquia tinha prometido entregá-lo no começo deste ano, conforme veiculado no JC em outubro de 2011.

 

Após algumas mudanças no cronograma, o DAE informou ontem que o processo está em conclusão e que o poço deve estar funcionando dentro de 30 dias. Este poço irá explorar 180 mil litros de água por hora do Aquífero Guarani e a vazão prevista é de 200 metros cúbicos por hora.

 

 

 

Tubulação centenária

 

Não é apenas o Santos Futebol Clube que completa 100 anos em 2012. De uma forma muito menos em alta do que o time do litoral paulista, a tubulação do DAE também “festeja” o centenário. Mas enquanto no futebol a data significa tradição, no caso de Bauru quer dizer precariedade. 

Datados de 1912, os tubos da rede de água foram fabricados em ferro e são bastante propícios a vazamentos.

 

De acordo com especialistas, o correto seria uma tubulação de PVC, que é mais moderna e o risco de rompimento é muito menor. 

 

Em reportagem veiculada no ano passado, Bauru tem cerca de 3.170 quilômetros de dutos enterrados, sendo 1.600 quilômetros servem a rede de água e 1.570 quilômetros a de esgoto.

 

Na cidade, cerca de 98% das residências contam com fornecimento de água encanada e 90% com coleta de esgoto.

 

 

 

Em meio à seca, há um ‘oásis de desperdício’

 

A situação do Departamento de Água e Esgoto de Bauru criou um paradoxo na cidade. Enquanto a falta de água levou alguns bauruenses ao desespero, outros não param de reclamar que, como um oásis, a água transborda do chão em vários pontos do município. As centenas de vazamentos e a demora em consertá-los revoltam os moradores.

 

Um dos principais motivos do problema seria a tubulação antiga, que completa 100 anos em 2012 (leia mais ao lado). Segundo a assessoria de imprensa da autarquia, são registradas, em média, 55 reclamações diárias de vazamentos. Destas, 35 são de água e 20 de esgoto.

 

Marco Antônio Rosa, 35 anos, engrossa esta estatística. Ele é proprietário de um estabelecimento de peças automotivas no cruzamento da avenida Duque de Caxias com a rua Paraná, no Parque Paulistano. Ali, ele afirma ter acompanhado a “trajetória” de um vazamento de água. “Há cerca de quatro semanas, era um vazamento bem pequeno. A cada semana que passa está aumentando. Hoje, está uma poça bem grande”, diz Marco Antônio, indignado. 

 

Outro que não se conforma com a situação é o aposentado Jesus Adriano dos Santos, 59 anos. O morador da Vila Dutra conta que, há 15 dias, grande quantidade de água jorra na quadra 1 da rua Francisca Munhoz Moreno. “Dava para lavar Bauru inteiro com esta água”, exacerba.

 

Ele afirma que acionou várias vezes o DAE, porém, “ninguém foi nem ver o problema”. A poucos metros dali, na quadra 5 da Alameda General Alfredo Malan D’angrogne, teria surgido outro vazamento.

 

Situação que se repete no Parque das Nações. Lá, Genivaldo Ferreira Godin, 51 anos, afirma ter vivido uma verdadeira “peregrinação” para que o problema da quadra 1 da rua Maria Aparecida Oliveira Silveira fosse resolvido. “A água que vaza descia por mais de duas quadras. Isso ficou por mais de 20 dias. Íamos ao DAE, eles falavam que iam resolver e nada. Só hoje (ontem) consertaram”, afirma.