09 de julho de 2026
Geral

?Eu me neguei a fazer o despejo?

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Existem muitas situações em que a emoção se sobressai à razão. Foi exatamente o que aconteceu com um oficial de Justiça de Bauru, com 32 anos de profissão. O funcionário público, que teve a identidade mantida em sigilo, se negou a cumprir a ação de despejo de uma família do núcleo Pousada da Esperança 1, em Bauru, quando soube que a pequena Ana Lara Francisco, 6 anos, filha do casal, estava em uma seção de quimioterapia.

 

Tamara Francisco da Silva, 21 anos, mãe de Ana Lara, conta que foi morar na rua Paulo Húngaro, quando a filha tinha apenas 6 meses de idade. “Uma pessoa já tinha construído a casa e a minha finada sogra financiou esse terreno para que pudéssemos morar aqui”.

 

Nessa época, Tamara e seu esposo Fernando Morais, 32 anos, ainda trabalhavam o dia todo: ela em uma escola de computação e ele como pedreiro. A menina era cuidada por uma vizinha, que começou a notar pequenas alterações em seu comportamento. 

 

“Ela começou a parar de comer, reclamar de cansaço e começaram a aparecer muitos hematomas em seu corpo. Então, levamos para fazer uma série de exames e em novembro de 2

9 descobrimos que ela estava com leucemia”, relatou a mãe.

 

A doença de Ana Lara exige cuidado integral, principalmente por ela ser criança. Por isso, Tamara precisou deixar o emprego e se dedicar à recuperação da filha. Foram 8 meses de quimioterapia no Hospital Estadual (HE) de Bauru e o início de um sopro de esperança: a manutenção do tratamento.

 

 

 

O retorno da doença

 

No final do ano passado, em novos exames de rotina, os médicos detectaram que a doença de Ana Lara havia voltado. A quimioterapia recomeçou e foi em um desses dias de ida ao HE que o oficial de Justiça teve que cumprir uma ordem de despejo no local onde a família reside. O motivo: falta de pagamento.

 

“Quando a minha sogra era viva, ela ajudava no pagamento das parcelas do terreno, já que a nossa casa estava paga. Mas quando ela morreu, há quatro anos, começou a ficar mais difícil. Ficou pior com a doença da Ana Lara porque tive que deixar o emprego para me dedicar totalmente a ela. Além dos remédios que conseguimos na rede pública, temos que comprar outros e ela também precisa de alimentação especial por conta da baixa resistência”, disse a mãe. 

 

O aviso de despejo chegou poucas horas antes da ação. “Eu lembro que a carta chegou no final de uma tarde, faltando quase uma semana para o Natal. O meu marido resolveu ficar em casa no dia seguinte, mesmo sem data marcada, porque eu tinha que ir com a Ana Lara para a quimioterapia e a casa ficaria vazia. Então ele ficou e, realmente, o oficial de Justiça veio”. 

 

 

 

Assistência

 

A secretária do Bem-Estar Social de Bauru, Darlene Tendolo, frisou que a pasta dará toda assistência necessária à família. “Nós já a incluímos no programa Aluguel Social, em que dependendo de cada situação, definimos o tipo de ajuda. Também ajudaremos com alimentação.”

 

 

 

Ordens de despejo caem

 

De acordo com dados divulgados pelo cartório da 5ª Vara Cível da Comarca de Bauru, o número de ordens de despejo teve ligeira queda nos últimos dois anos. Em 2

1

, o cartório emitiu 89 ordens de despejo ordinário - quando se quer retomar o imóvel por motivos diversos -, e no ano passado foram 85. Neste ano o número chegou a 23 até o fechamento dos dados de ontem.

 

Já as ordens de despejo por falta de pagamento em 2

1

somaram 639 casos, contra 568 no ano passado e 155 neste ano, até o momento.

 

 

 

Força maior

 

Ao chegar na residência de Ana Lara, o oficial de Justiça ficou emocionado diante do apelo de Fernando Morais, 32 anos, pai da menina. “Eu cheguei quase ao mesmo tempo que as advogadas do autor da ação, e fiquei sabendo que a garotinha estava fazendo quimioterapia. Fiquei emocionalmente abalado e me neguei a fazer o despejo”, contou o funcionário público.

 

Ele explicou que um oficial de Justiça pode negar-se a cumprir uma ordem de despejo, desde que o autor da ação movida esteja de acordo e que seja por um motivo de força maior. “Mesmo assim, eu fui movido primeiro pela emoção e depois pela razão. E mesmo que o autor não quisesse, eu me negaria a cumprir a ordem. Não deixaria aquela família na rua”, afirmou.

 

O funcionário público conta que já viveu situação semelhante há alguns anos com uma família do bairro Bauru 16. “A ordem de despejo era para uma mulher que o marido tinha abandonado com 13 filhos. Eu sou pai de um filho de 21 anos e uma filha de 12, e não suportaria a perda de um filho”, acrescentou. 

 

No dia 7 de março deste ano, às 14h1

, a família de Ana Lara teve mais uma oportunidade de conciliação, que não foi aceita pelo autor da ação. O processo continua.