11 de julho de 2026
Política

?Trincheira? da anistia faz reencontros

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Além de apreciar os pedidos de indenização de perseguidos políticos, as audiências da Comissão da Anistia realizadas ontem em Bauru, pela primeira vez no interior de São Paulo, proporcionaram momentos de comoção de alguns brasileiros que esperam, há anos, o mínimo de justiça pelo que passaram. A reunião proporcionou ainda o encontro de antigos ‘companheiros’ de militância, como Celso Eduardo Puppo e Darcy Rodrigues, comandado e comandante na luta contra a ditadura militar.

 

O primeiro recebeu ontem a indenização no valor de R$ 284 mil após não ter tido o seu pedido atendido em 2

1

. “Estou muito feliz por este reconhecimento anos depois. Continuo sendo comunista e marxista e isso me estimula a continuar lutando pelos direitos humanos”, comentou assim que os conselheiros da comissão anunciaram sua indenização.

 

Ele não perdeu a oportunidade, porém, de rememorar a relação com Darcy, que começou no final da década de 196

. “Ele era o comandante e eu, o comandado”, conta ele, que foi recepcionado por Rodrigues quando entrou na clandestinidade. O bauruense foi dissidente do Exército junto com o grupo de Carlos Lamarca.

 

O comandante também lembra do grupo de secundaristas ao qual pertencia Celso, que estava na faixa de seus 2

e poucos anos. “O meu setor era de resistência armada e a gente dava assistência para os meninos. Eram ativos, estudavam muita filosofia, produziam documentos. Como eles, era mais na teoria”, conta Darcy.

 

Celso, porém, lembra que, em uma das histórias mais ‘cabeludas’, fez parte de um dos grupos responsáveis por guardar parte dos dólares do assalto ao cofre de Adhemar de Barros, ato que teve o comandante como um dos articuladores. Aliás, foi por conta de um assalto a banco que Puppo entrou na clandestinidade. “Já era próximo de 197

e alguns envolvidos se esconderam em casa, mas começaram a serem presos e abriram o meu endereço”, afirma.

 

 

 

“Depois é muito pior”

 

A conquista da indenização de Celso Puppo só foi possível através de recurso, pois, em 2

1

, seu primeiro requerimento havia sido negado. Isso porque a Comissão de Anistia avalia casos de perseguidos que ficaram impedidos de exercer suas atividades econômicas. 

 

O militante, no entanto, fugiu do Brasil para a França em 197

, abandonando seu emprego de diagramador na Editora Abril e só conseguiu ter a rescisão registrada em sua carteira profissional 1

anos depois. “Nesse intervalo do julgamento do recurso, juntei provas junto à própria empresa, que atestou que eu abandonei meu emprego”, explica.

 

Quando trabalhava na Abril, Puppo já havia deixado a militância. No entanto, ele garante que a perseguição se tornou muito maior quando tomou essa decisão. “É muito difícil voltar à vida normal e ao mercado de trabalho. Tive que abandonar o emprego porque estavam me seguindo. Na época o controle de passaportes era bem menor e eu saí do País. Voltei três anos depois”, afirma.

 

Quando retornou ao Brasil, Celso conseguiu, com dificuldade, voltar a trabalhar na Folha de São Paulo. “As empresas exigiam antecedentes políticos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e eu não tinha, mas eles conseguiram dar um jeito”, conta. Ele já havia sido preso no Dops em 1964, antes de militar também em um dos setores do Partido Comunista.

 

Nos últimos anos, ele trabalhou nas emissoras de TV e rádio do Poder Judiciário em Brasília. Hoje em dia, atua no Tribunal de Contas do Município de São Paulo.

 

 

 

Sem revanchismo

 

‘Comandante’ de Celso Eduardo Puppo, Darcy Rodrigues comemorou a indenização ao ‘comandado’. Ele diz que abomina qualquer tipo de revanche contra os militares. “Nós não tivemos direito de defesa e o grande saldo da Jornada de Direitos Humanos e da Caravana da Anistia é a possibilidade de resgatar o que aconteceu naquela época. A história nem sempre é do jeito que a gente gostaria, mas ela deve ser preservada do jeito com que foi”, enfatiza. 

 

O militante foi exilado por mais de nove anos e só voltou ao País com a aprovação da Lei da Anistia, em 1979.

 

 

 

Caso Arcôncio

 

Falecido no mês passado, o militante Arcôncio Pereira da Silva teve concedido o direito de sua indenização, após ter sido demitido por diversas vezes, preso e até pagado multa por organizar greves no setor ferroviário. A viúva Zuleide Júlia de Souza da Silva vai receber pensões mensais no valor do salário mínimo, além de mais 12

salários mínimos afixados. O militante e amigo Antônio Pedroso Júnior utilizou a palavra para lembrar da atuação e da coerência do ferroviário ao longo de sua vida. 

 

 

 

“Nunca pensei que conseguiria”

 

O mecânico Antônio Barros, de 7

anos, lembra que, quando começou a militar nas greves por direitos trabalhistas, a ala intelectualizada nem pensava em participar desse tipo de movimento. “Só operários de fábrica paravam de trabalhar. Os profissionais liberais começaram só depois da ditadura militar”, conta.

 

Em 1961, ele foi preso pela primeira vez ainda nas reivindicações pelo direito de décimo terceiro salário. “A gente não juntava documentos. A gente apanhava e continuava a lutar. Justamente por isso, eu pensei que nunca fosse conseguir a indenização”, diz Barros.

 

Mas, ontem, ele conseguiu e vai receber mensalmente o valor de R$ 2.61

,

em função do tempo em que ficou afastado do trabalho por perseguição política. “Só consegui comprovar o caso mais recente, de 1987, mas fui preso três vezes. Nós éramos tratados como cachorros. Cuspiam e batiam na gente. Em 1968, chegaram a queimar meu pênis na greve de uma empresa em Osasco”, lembra.

 

 

 

A Comissão

 

O grupo analisa os pedidos de indenização formulados pelas pessoas que foram impedidas de exercer atividades econômicas por motivação exclusivamente política desde 18 de setembro de 1946 até 5 de outubro de 1988. A estimativa é de que existam 37 mil requerimentos. Em Bauru, foram 35 pedidos analisados, todos eles do Estado de São Paulo e alguns da cidade e da região. Oito dos 24 conselheiros estiveram nas audiências da cidade.