“A sensação é de que a mãe queria se livrar da criança”, desabafa Jurandir Pereira dos Santos, 47 anos, proprietário de uma gráfica no bairro Bela Vista que, na noite de anteontem, levou um susto ao encontrar na porta de sua loja uma recém-nascida abandonada dentro de uma sacola de papelão. Levada para a Maternidade Santa Isabel, ela pode receber alta médica ainda hoje.
O bebê, uma menina com aproximadamente 3 dias de vida, ainda vestia roupas de uma maternidade e um macacão vermelho de plush quando foi encontrado por Jurandir por volta das 22h desta quinta-feira - conforme divulgado como notícia de “última hora” na capa da edição de ontem do JC.
Jurandir se preparava para fechar seu estabelecimento ao final de mais um dia de trabalho quando foi surpreendido com a cena, difícil de apagar da memória. “Eu fui puxar a porta e vi uma sacola, achei que fosse um gato. Quando olhei, era um bebê. Entrei em estado de choque e chamei os funcionários que ainda estavam lá na empresa para me ajudarem a tirá-lo do sereno”, conta.
A sacola amarela com cerca de 40cm de comprimento e 50cm de largura abrigava a criança em um pequeno degrau da porta lateral da gráfica, localizada na quadra 10 da rua Afonso Pena, na Vila Camargo, região do bairro Bela Vista.
Mudança de rota
No momento do ocorrido, uma viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) que passava, ocasionalmente, por aquela rua para atender outra ocorrência na Vila Cordeiro foi parada pelos funcionários da gráfica.
“O motorista precisou mudar o trajeto por causa do trânsito e, por sorte, passamos por ali. O pessoal nos informou o que acontecia. Foi questão de minutos e já estávamos fazendo a aspiração da secreção e aquecendo o bebê com uma manta térmica” relata o enfermeiro do Samu José Carlos Gomes, que ressalta o fato de que a boca da recém-nascida estava roxa e a roupinha indicava vômito de leite no momento em que ela recebeu os primeiros atendimentos.
Após receber os cuidados, o bebê foi levado ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI), onde foi atendido e posteriormente encaminhado para a Maternidade Santa Isabel.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou ontem que a criança deu entrada na unidade de emergência apresentando sinais de corte recente de cordão umbilical e náuseas, fato que impediu a alimentação via oral, sendo preciso o uso de uma sonda.
Até o fechamento desta edição a garotinha permanecia sob cuidados médicos em observação no berçário da maternidade. O estado de saúde dela é considerado bom pelos médicos.
Segundo a assessoria de imprensa da unidade, existe a possibilidade da criança receber alta médica ainda hoje. Além do Samu, uma equipe da Polícia Militar também esteve no local e acionou o Conselho Tutelar, que foi ao encontro do bebê no PAI.
Abrigo
De acordo com a conselheira tutelar Vivian Scarabelo, que acompanhou o caso da recém-nascida abandonada na noite de anteontem, apesar de tudo, o bebê passou uma noite tranquila na Maternidade Santa Isabel e quase não chorou.
“A criança está bem, parece saudável e não tinha nenhuma marca. Ela passou pelo médico e foi para a maternidade para receber assistência dos pediatras”, reforça.
Segundo a conselheira, depois que receber alta médica o bebê será acolhido por um abrigo na cidade ou por alguma família designada, até que a decisão sobre o caso seja deferida pelo juiz da Vara da Infância e Juventude.
“Nós não sabemos quem é a mãe dessa criança e ninguém da família apareceu ainda. Então, assim que ela tiver alta será acolhida ou por um abrigo ou por uma família”, completa.
A recém-nascida poderá ser encaminhada para adoção, caso nenhum parente seja encontrado e o juiz assim decidir.
Investigações
O caso foi encaminhado à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Bauru. Segundo a delegada titular, Flávia Ueda, as investigações vão apurar o fato seguindo os indícios levantados pela polícia no local em que o bebê foi encontrado, como por exemplo, a roupa que ele usava.
“Tentaremos identificar a genitora buscando o máximo de elementos possíveis. O primeiro passo será ir até os hospitais e fazer um levantamento da relação de gestantes que deram à luz nos últimos três ou quatro dias. Iremos atrás de todas elas para tentar descobrir”, aponta a delegada.
Segundo ela, na tarde de ontem um ofício seria enviado à Maternidade Santa Isabel solicitando uma lista com as gestantes que deram entrada no hospital nesta semana.
De acordo com a delegada da DDM, a mãe da criança poderá responder pelo crime de abandono de incapaz, com pena prevista de seis meses a dois anos de prisão.
Denúncias anônimas podem ser realizadas na Delegacia de Defesa da Mulher por meio do telefone (14) 3226-3088 ou através do 147 da Polícia Civil, que atende aos finais de semana e feriados.
Para a assessoria de imprensa da Santa Isabel, o fato da criança estar com a roupa da maternidade não ajudaria muito nas investigações. “Realizamos doações dessas roupinhas constantemente. Não tem como afirmar que a mãe tenha feito o parto na maternidade, mas vamos esperar as investigações e colaborar com a polícia”, cita a nota.
‘Não dá para imaginar que uma mãe possa ter feito isso’, diz homem que achou o bebê na rua
A história da recém-nascida abandonada em via pública nesta quinta-feira chocou diversas pessoas e resultou em uma noite em claro para Jurandir Pereira dos Santos, empresário que encontrou a sacola onde o bebê estava, na quadra 10 da rua Afonso Pena. Pai de um rapaz de 22 anos e de uma menina de 19 anos, ele ainda não acredita na cena que viu e que continua forte em sua memória.
“A gente vê essas coisas na TV e não acredita que pode acontecer de verdade. Era uma vida que estava ali. Não dá para imaginar que uma mãe possa ter feito isso com o filho, é uma sensação de tristeza tremenda”, lamenta Jurandir, que precisou ser medicado com calmantes quando chegou ao hospital, na noite de anteontem, junto ao Samu e à criança.
A mulher dele, Rita de Cássia Chinalli dos Santos, 47 anos, que também esteve na unidade de emergência acompanhando os procedimentos com o bebê, não se conformava com a situação. “O coração de mãe bateu forte quando ele (Jurandir) me falou. Isso não pode ser atitude de um ser humano. Mas, se Deus quiser, ela (recém-nascida) terá uma família muito melhor do que essa que a deixou”, afirma.
Apesar de viver em meio a tragédias no ambiente profissional, o enfermeiro do Samu José Carlos Gomes, que é avô de três crianças, salienta que o fato, apesar de muito triste, teve um final feliz.
“Se o Jurandir não tivesse visto o bebê ali, ele poderia ter passado a noite no sereno, correndo risco de morte”, ressalta o enfermeiro socorrista.