09 de julho de 2026
Política

?Comendador? muda rotina do Palácio

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Uma situação inusitada movimentou o Palácio das Cerejeiras na manhã de ontem. Sem agendamento ou aviso, um homem chamado Luiz Antônio Peres chegou à Prefeitura de Bauru, se apresentando como comendador da Força Internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) e foi recebido pelo chefe de gabinete Giasone Cândia e ainda tomou cafezinho com a vice-prefeita Estela Almagro (PT).

 

Ornado com acessórios militares, como chapéu e algumas medalhas, ele chegou à sede do Poder Executivo acompanhado por um sargento do Tiro de Guerra do Exército de Bauru e fazia questão de conversar com o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), que, por sua vez, estava fora da cidade.

 

A presença inesperada de Peres, 82 anos, mudou a rotina do gabinete. Entusiasmado, ele conversava com todas as pessoas presentes no local e, em razão da ausência de Rodrigo, solicitou um currículo do prefeito, pois deseja fazer uma homenagem futura a Agostinho.

 

O homem, que mora na cidade de Avaré, não quis dar entrevista ao ser contatado por telefone pelo Jornal da Cidade. Ele alegou estar cansado, enfatizou que recebera o título de comendador ainda em 1975 e disse também que foi muito bem recebido pela vice-prefeita. Sobre a vigência ou não do título que ostenta, comendador, pouco falou ou se sabe. 

 

De qualquer maneira, independentemente da forma como se apresentou, a presença de Peres quebrou a rotina no Palácio das Cerejeiras. Até a vice-prefeita estava sem entender o que aconteceu. Estela conta que estava saindo de uma reunião para a outra na prefeitura, quando encontrou com Giasone e o inusitado comendador. “Tomamos um café e ele falou sobre o dia da ONU que é comemorado amanhã [hoje]. Afinal, o chefe de gabinete estava com ele e pediu que eu desse uma atenção”, afirma.

 

 

 

Pitoresco

 

No entanto, Almagro admite que o encontro pareceu um pouco ‘fora da realidade’. “Foi um pouco pitoresco, mas ele estava levando a sério e conversou com todo mundo lá. Além disso, chegou acompanhado por um representante do Exército. Foi uma experiência engraçada”. 

 

Apesar da desconfiança, Estela ponderou que não tinha porque não atender o senhor. “A gente atende todo mundo que procura o gabinete e ele não veio para pedir nada”, conta.

 

Já Giasone Candia diz que mobilizou a assessoria de imprensa para levantar informações sobre o homem e registrar sua visita ao Palácio das Cerejeiras. O chefe de Gabinete afirma que se tratava de um homem muito simpático, que acabou prolongando sua permanência por lá, pois estava gostando do papo.

 

 

 

Conhecido em Avaré

 

O JC apurou que Luiz Antônio Peres é bastante conhecido em Avaré, cidade onde vive. Alguns moradores do município contam que ele já é tratado como uma figura folclórica local, por andar pela cidade com alguns ornamentos militares. O senhor é tão conhecido que, inclusive, já participa de alguns eventos oficiais em Avaré, como se fosse uma autoridade.

 

A reportagem também contatou que o título de comendador teria sido concedido militarmente a Peres antes de sua aposentadoria.

As comendas eram títulos entregues, antigamente, a algumas pessoas como reconhecimento a serviços prestados.

 

 

 

“Escolta militar”

 

Boa parte do burburinho causado pela visita do comendador se deu pelo fato de ele estar acompanhado por um sargento do Exército. Ao chegar a Bauru, Luiz Antônio Peres se dirigiu à sede do Tiro de Guerra, onde pediu e foi atendido pela companhia do sargento Velcides Tonello.

 

Ao JC, o militar não soube confirmar se o homem é ou não comendador, mas disse que ele se aposentou pelo Exército e é muito conhecido em Avaré. “Como ele já foi militar, acabei o acompanhando até a prefeitura, mas fui embora antes dele”, afirma.

 

Segundo Tonello, Peres seria representante na região de uma Associação de Integrantes de Força de Paz da ONU, sediada em São Paulo. “Mas, até onde eu sei, não tem ligação direta com a ONU”.

 

Peres, porém, contou também com o respaldo da Polícia Militar. O comendador exigiu a presença de uma viatura no local para acompanhá-lo até a rodovia Marechal Rondon, onde seguiria rumo a Avaré.

 

Vale ressaltar que o veículo, com placa daquela cidade, em que o senhor chegou à Prefeitura é repleto de adesivos, seja da Prefeitura de Avaré, da Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae), e até de centros de formação policial ligados ao Swat, dos Estados Unidos.

 

 

 

‘Você sabe com quem está falando?’

 

O antropólogo Cláudio Bertolli associou o episódio a um livro que está lendo atualmente. De autoria do alemão Victor Klemperer, chama-se ‘LTI: A língua do Terceiro Reich’, escrito após a Segunda Guerra Mundial. “O autor fala justamente sobre o poder de sedução e o fascínio em torno dos uniformes e medalhas militares ou que sejam diferenciados por alguma outra razão”, explica.

 

O episódio envolvendo o comendador e a prefeitura também tem tudo a ver com a famosa ‘carteirada’. Bertolli associa a prática à expressão autoritária ‘Você sabe com quem está falando?’. “Só o fato de as pessoas sugerirem serem mais do que realmente são acaba surtindo grandes efeitos, pois fazem as portas se abrem em razão de uma autoridade fantasiosa”, comenta.

 

O antropólogo afirma que essa é uma tendência universal, mas admite que o fenômeno ganha maior dimensão em terras tupiniquins justamente pela ambiguidade. “Falamos que somos amigos, nos referimos aos outros pelo primeiro nome e evitamos pronomes de tratamento. Chamamos, inclusive, os presidentes de FHC, Lula e Dilma. Mas, ao mesmo tempo, temos uma enorme tendência, quase doentia, de nos submetermos e respeitamos às hierarquias, até mesmo, em razão da nossa história de País colonizado, onde tudo era muito bem discriminado entre índios, negros, homens livres e elite”, explica.

 

 

 

Igualitário?

 

Outra questão escancarada pelo fato inusitado fica: até onde estão abertas as portas do poder público à população? Ao mesmo tempo em que o episódio sugere falta de preparo e de critérios para avaliação de quem e como comendadores ou outras autoridades devem ser recebidas, fica a sensação de que, sem o título de comendador e a companhia do representante do Exército, Luiz Antônios Peres jamais seria recebido “, pontua.