08 de julho de 2026
Articulistas

Vida: dom e tarefa

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 3 min

Toda iniciativa pessoal que visa à defesa e promoção da vida deve estar conectada com as demais iniciativas semelhantes: "Ninguém se liberta sozinho, nós nos libertamos em comunhão" (Paulo Freire). Contudo, a comunhão não deve eliminar a responsabilidade pessoal, ao contrário, é a responsabilidade pessoal que leva à comunhão. Urge encontrar pontos de encontro e de diálogo com todos (crentes ou não crentes) que estão empenhados no fazer despertar uma nova cultura da vida. Nesse sentido, não existirão mais gestos isolados, mas todos conectados na grande rede de solidariedade. Cada ato de amor em favor da vida será uma cunha colocada na cultura da morte. Quanto maior a quantidade de cunhas, mais rápida a implosão. Se a linguagem é de certo modo "violenta", se trata apenas de uma metáfora. A implosão nada mais é que o advento da viragem cultural que implica transformação pessoal e social. O reconhecimento da "vida como dom e tarefa" é condição para a construção da civilização do amor e da solidariedade.

O Dicionário Aurélio define implosão como conjunto de explosões que se combinam de tal maneira que seus efeitos tendem para um ponto central. Portanto, para chegarmos ao ponto central é fundamental que as cunhas sejam convergentes. Não existe espaço para divisão ou antagonismos. Se estivermos convictos da necessidade de unidade e comunhão, somos convidados a um "ecumenismo de obras", pois a defesa e a promoção da vida não são monopólio de ninguém, mas tarefa e responsabilidade de todos. Voltemos às cunhas. Sem as fendas as cunhas não representam nada. Como descobrir tais fendas? Pelo comprometimento cidadão e participação ativa na vida social, superando a indiferença e resignação. Toda ação, por mais humilde que seja, produz um efeito pró-vida e potencializa a cultura da vida.

A categoria ética com a qual devemos afrontar os novos e complexos problemas é a responsabilidade. Quanto mais somos conscientes da dignidade de toda vida humana, em todas as fases e situações, tanto mais cresce a exigência da responsabilidade. Logo, ou vivemos fora do mundo ou aceitamos um compromisso ético! A responsabilidade torna-se pressuposto essencial de todas as relações humanas. E. Levinas entende a responsabilidade como responsabilidade por outrem, numa relação assimétrica. "Nesse sentido, sou responsável pelo outro sem esperar a recíproca, ainda que isso me viesse a custar a vida". É impossível ser indiferente à interpelação do outro, pois o rosto "possui uma significação ética: isto é, no fato de que quanto mais justo eu for mais responsável sou; nunca nos livramos de outrem".

Se nos sentimos responsáveis, não obstante o mistério do mal presente no mundo, seremos capazes de viver com entusiasmo e esperança, evitando sentimentos catastróficos ou pessimistas e participando da grande sinergia -colaboração entre as pessoas que colocam em comum suas qualidades para a consecução de um bem comum - pró-vida. Somente com os olhos da esperança poderemos ver os inúmeros sinais positivos de vida em nossa sociedade. Mesmo que aparentemente em "coma" nossa civilização continua lançando inúmeros sinais de vida. É significativo recordar o fato, em 1999 na Itália, do nascimento de uma criança com sete meses por meio de parto normal, com a mãe em coma; somente a contração do útero permitiu o nascimento natural sem nenhum esforço da mãe. Constata-se hoje uma sensibilidade maior e um crescimento da consciência ética da humanidade. Sigamos colocando nossas cunhas, com disponibilidade, esperança e responsabilidade, objetivando a cultura da vida com qualidade e dignidade para todos e todas. Isso consiste no aceitar a vida como dom e tarefa!


O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é sacerdote e colaborador de Opinião