08 de julho de 2026
Geral

Censo: Bauru é cidade do coração

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Eles vieram de outras cidades, Estados e até de outros países em busca de mais oportunidades e melhores condições de vida. Dados divulgados no Censo Demográfico de 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os bauruenses de coração, que não são naturais da cidade, representam 41,3% da população atual da cidade.

 

Segundo o censo, dos 343.937 mil habitantes do município, 141.922 mil teriam escolhido Bauru como sua casa por fatores como melhores ofertas de emprego, habitação, saúde educação e moradia. Independentemente dos motivos, esse número representa um percentual de 41,3% de migrantes que se instalaram em Bauru entre 2000 e 2010. Ainda conforme o estudo, do total dessas pessoas 10,5%, ou cerca de 35.820, seriam de outros Estados. 

Outro registro refere-se aos estrangeiros que moram na cidade e ainda não conquistaram a naturalização em terras brasileiras. Essa parcela representaria apenas 0,15% do total de habitantes, ou seja, 510 pessoas. Já em relação ao quadro de imigrantes que conquistaram a naturalidade, o número ultrapassa 450 pessoas.

 

Para o historiador e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Célio Losnak, a mobilização populacional é vista como uma tendência  que se intensifica cada vez mais nos grandes centros urbanos.

 

“Bauru é um ponto de conexão e de negócios do interior paulista e possui muitas empresas, o que acaba trazendo o desenvolvimento e atraindo as populações locais e até os imigrantes. Apesar de não ser uma cidade industrial, é um município que segue a tendência na área dos serviços”, enfatiza Losnak.

 

Ainda de acordo com o historiador, por oferecerem mais oportunidades de emprego, as cidades médias, assim com Bauru, que se constitui como polo regional, acabam registrando uma dinâmica econômica mais atrativa contribuindo para o fenômeno da migração.

 

“As pessoas buscam maior oferta de emprego, melhor oportunidade de habitação, de saúde, alimentação e educação. Bauru possui todas essas características”, completa o historiador. 

 

 

 

Chão de passagem

 

Apesar de algumas teses considerarem Bauru como uma cidade de passagem, Losnak afirma que a população migrante, que vem de cidades menores e do campo, se caracteriza, atualmente, pela fixação nesses locais.

 

“Até a primeira década do século Bauru era chão de passagem, mas hoje percebemos que a maioria das pessoas procura os centros urbanos para se fixar. Isso acontece tanto das pequenas cidades para as médias cidades quanto dos polos para os grandes centros”, enfatiza o professor.

 

Outro aspecto importante lembrado por Losnak refere-se ao fato de que, na busca por tranquilidade e mais segurança, existe um movimento de pessoas que optam por sair das capitais para residir no interior.

 

 

 

Do Piauí para Bauru

 

A autônoma Jane Alves, 32 anos, também faz parte da legião de migrantes que vieram para Bauru à procura de melhores condições de vida. Morando com os tios em Parnaíba, no Piauí, Jane não pensou duas vezes quando recebeu o convite do tio para trocar a cidade de 146 mil habitantes, considerada de grande porte para Estado, por Bauru.

 

Por volta de 1992, ela os primos e uma tia vieram ao encontro do tio que buscava uma oportunidade de emprego na cidade. “Ele veio primeiro para trabalhar em uma empresa e conhecer. Depois ele se adaptou e quis nos trazer para cá”, reforça a mulher, que na época tinha apenas 12 anos. 

 

Alguns anos após terminar o colegial, a jovem acabou conhecendo um rapaz por quem se apaixonou. Da união, Jane teve três filhos: Hiasmin Alves, 12 anos, Isabella Alves, 10 anos, e Yago Alves, 5 anos, com os quais mora, atualmente, em uma pequena residência no bairro Nova Esperança. 

 

Após constituir a família por aqui, ela confessa que mesmo gostando do Piauí e possuindo boas recordações dos tempos de infância, não pensa em regressar à sua terra natal. “Acabei formando minha família aqui e gosto muito do clima de Bauru. Lá era muito quente, o calor de 40ºC judiava demais”, ressalta a autônoma.

 

Questionada quanto às oportunidades de emprego na cidade, a mulher, que trabalha como manicure em salões de beleza, afirma nunca ter tido dificuldade e ressalta gostar do ritmo de vida da população do interior de São Paulo.

 

 

 

Bauruense, paulista e brasileiro

 

Dos quase 344 mil habitantes, mais de 99% dos bauruenses são brasileiros natos, segundo apontou o Censo Demográfico de 2010. O estudo também indica que 89,5% é natural do Estado de São Paulo, o que representa mais de 308 mil habitantes.

 

O Censo Demográfico é realizado a cada dez anos, e no Censo de 2000, os migrantes nacionais eram apontados como maioria da população residente em Bauru. Na ocasião, a região Sul do País aparecia como responsável por 34,3% das migrações para a região de Bauru. Na sequência aparecem as regiões Nordeste e Centro-Oeste, com 26,1% e 18,6%, respectivamente. Já o Sudeste, com exceção de São Paulo, respondia por 15,2% e o Norte por 3,3%. 

 

 

 

‘É interior, mas tem tudo que preciso’

 

Natural de São Paulo e hoje com 22 anos, Danielle Nagase é uma das migrantes que trocaram a terra natal para buscar estudo e tranquilidade do interior. Em Bauru desde 2007, ela se soma à legião de estudantes que buscam aqui condições para desenvolver novas perspectivas de vida. 

 

Ex-moradora da zona norte da capital, ela aponta benefícios como a facilidade de locomoção na cidade de médio porte e a tranquilidade quanto à violência presenciada metrópoles.

 

“Bauru está ficando perigosa, mas não se compara a São Paulo. É interior, mas tem tudo o que preciso. Na capital eu iria demorar mais de uma hora para chegar ao trabalho, por conta do trânsito. Aqui, dez minutos bastam”, aponta a jovem, que trabalha como jornalista em uma editora de revistas da cidade.

 

Há quase seis anos em Bauru, Danielle afirma que não foi a única de sua sala da faculdade de jornalismo na Unesp a continuar instalada no município mesmo após o término dos estudos. Segundo ela, outros dez amigos de cidades da região também fizeram a mesma escolha. 

 

“Logo que terminei a faculdade já consegui emprego, e com meus amigos foi a mesma coisa. O pessoal acabou se firmando aqui para apostar em um começo de carreira”, reforça a jornalista, que ontem arrumava as malas para passar o final de semana com os pais na capital.

 

Apesar de demonstrar vontade de voltar a morar em São Paulo para realização de uma pós-graduação em alguns anos, ela afirma que considera Bauru uma cidade ideal e que, após a finalização dos estudos, pensará se volta ou não.