O mês de abril foi marcado por céu nublado e muita água. De acordo com o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no mês choveu mais de 80% que o esperado para Bauru (leia mais abaixo).
O resultado dessa conta molhada foi sentido pelos moradores das ruas de terra da cidade, que se tornaram intransitáveis em alguns pontos. Previsão para o feriado é de tempo nublado e frio.
Há mais de 10 anos morando na quadra 7 da rua Clovis da Silva Gomes, no bairro Vila Nova Celina, zona oeste de Bauru, o pedreiro Vladimir Firmino Alves, 36 anos, afirma ter se acostumado a ficar ilhado em sua casa quando chove.
“Temos que nos virar como dá. Sair de carro nem pensar. Minha maior preocupação é com as crianças e as situações de emergência que podem acontecer no bairro. Uma ambulância, por exemplo, nunca conseguiria vir até aqui”, afirma o morador.
Em frente à casa de Vladimir, onde moram duas famílias que totalizam sete crianças e quatro adultos, a rua tornou-se um desafio para os moradores. Um princípio de erosão se estende ‘engolindo’ quase duas quadras inteiras ao longo da Clovis da Silva Gomes.
Além dos entulhos, usados como improviso para a cobertura das ‘crateras’, a situação da rua também chama atenção pela quantidade de lixo e embalagens plásticas jogadas.
Na rua Waldemar Gregório de Moraes, assim como na Antônio Garbe de Mattos, a situação de descaso somado ao descuido da população também resultou em cenário parecido.
Dá-lhe lama
De acordo com a Defesa Civil de Bauru, além de atingir as ruas de terra dos bairros na região oeste da cidade, como o Parque Viaduto e a Vila Celina, que cruzam a Bernardino de Campos, a chuva também trouxe lama para avenida Castelo Branco, na altura das quadras 25 a 27. Na região leste, a Vila São Paulo sofreu com as terras que cercaram as ruas próximas à creche do bairro. Outras vias próximas à escolinha José Romão, no Pousada da Esperança, e no Tangarás, também foram atingidas pela lama, conforme explicou o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.
Ultrapassa o esperado
As expectativas do IPMet em relação às chuvas para o mês de abril apontavam que, neste ano, seriam registrados 96 milímetros de chuva, no entanto, a presença de uma frente fria, vinda do sul do continente tomou conta do Estado e fez com que a previsão fosse superada.
O acúmulo de chuvas no mês somou 173,7 milímetros, o que representa 80% a mais que o esperado. No mesmo período do ano passado, os indicadores chegaram a registrar 89 milímetros.
As chuvas moderadas que assolaram a região entre o último final de semana acumularam sozinhas 64,4 milímetros, quase 67% do total previsto para abril.
Segundo a meteorologista Zildene Pedrosa, o fenômeno responsável por quase dobrar as expectativas climatológicas aconteceu por conta de um período de transição das estações que foi intensificado com a frente fria.
“O outono, que é transição entre o verão e inverno, tem essas característica instável. Mas a tendência é de que a chuva dê trégua a partir dos próximos dias. Porém, o deslocamento de uma massa de ar frio deve declinar a temperatura”, explica.
Defesa Civil pede cautela
Quanto aos riscos que as chuvas podem trazer, o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, pondera que motoristas e pedestres precisam redobrar a atenção.
“Um condutor que não esteja atento quanto ao desnível provocado pelos bancos de areia pode até perder a direção do veículo. É preciso dobrar a atenção nesses locais”, aponta.
‘Um caos, nem tinha como sair’
Morador da quadra 7 da rua Waldemar Gregório de Moraes, na Vila Celina, o autônomo Getúlio Valentim, 63 anos, conta que apesar da chuva do último final de semana ter conturbado a vida dele e de parte da população do bairro, os estragos não se comparam ao vivido há alguns meses.
Segundo ele explicou, das últimas vezes em que a chuva não deu trégua, foi preciso o uso de baldes e mais baldes de terras para que os moradores das ruas sem asfalto, que cruzam a Bernardino de Campos, conseguissem, ao menos, sair de casa.
Getúlio narra a situação como se o episódio tivesse sido ainda ontem.
“Além de extenso o buraco era profundo e o pessoal acabou colocando até um sofá lá dentro para tentar barrar a força da água. Foi um caos, não tinha como sair de casa”, relata. “Minha esposa quer ir embora daqui, mas a casa é própria e para nós fica difícil vendê-la”, completa.
O autônomo explica que há cerca de seis meses, funcionários da prefeitura estiveram no local realizando algumas obras para implantação de galerias, mas por conta de um problema envolvendo uma tubulação do Departamento de Água e Esgoto (DAE) nas ruas para cima de sua casa, os trabalhos foram interrompidos e nada mais foi feito naquela região do bairro.
“Pagamos tanto ao governo e não temos retribuição. Pago imposto como qualquer outro cidadão e tenho direito de ter uma rua. Queria tanto montar um salão de festa aqui, mas com essa terra não dá. A gente se sente preso”, critica.
Sem amparo
Na edição do último sábado, o Jornal da Cidade publicou uma reportagem abordando as prioridades da Lei de Diretriz Orçamentária (LDO) do município para 2013.
Na ocasião, a matéria informou que a proposta de lei para execução dos programas orçamentários entregue pela Prefeitura de Bauru à Câmara Municipal contemplaria apenas R$ 2,5 milhões para asfalto novo e outros R$ 7 milhões previstos para as obras de galerias de águas pluviais. Já o orçamento para o recape de ruas seria turbinado pela administração com R$ 11,2 milhões.