Carência na infraestrutura de Bauru, cobrada frequentemente por vereadores, é a demanda por interligações entre bairros e também na zona rural, em forma de pontes de concreto que passam sobre os córregos da cidade. No final de 2009, a Prefeitura gastou R$ 951.800,00 para a compra de células de concreto que seriam destinadas a oito intervenções programadas pela Secretaria Municipal de Obras. No entanto, apenas três delas foram feitas. O motivo? Falta de projeto.
As obras barradas geram graves prejuízos à população. Nos lugares onde ainda não havia qualquer tipo de ligação, os munícipes são obrigados a percorrer caminhos muito mais longos e demorados. Onde já existe algum tipo de estrutura precária, as pessoas estão sujeitas a atravessar obstáculos ingratos e, até mesmo, a colocar em risco sua integridade física, como apurou o Jornal da Cidade.
Outra consequência da não-execução das obras previstas pela administração municipal, ainda no primeiro ano do governo Rodrigo Agostinho (PMDB), é o acúmulo dos materiais comprados, depositados tanto em frente ao Almoxarifado Central da prefeitura, no Redentor, quanto em alguns dos pontos em que as intervenções seriam feitas.
Depois de tanto tempo, o concreto já está tomado pelo mato e, embora o secretário municipal de Obras, Eliseu Areco, negue que o material corra riscos de se deteriorar, a reportagem constatou alguns casos em que isso já está acontecendo.
O motivo pela realização de menos da metade das obras de interligação seria, segundo Eliseu, o enrijecimento nos últimos dois anos do controle ambiental pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE).
Ocorre que esses órgãos exigiram apenas projetos executivos das obras para que pudessem liberar as licenças ambientais, o que é fundamental por se tratarem de intervenções em córregos. No entanto, a Prefeitura de Bauru não os tinha e ainda não os têm. Por essa razão, o secretário admite que não existe a possibilidade de que as obras pendentes sejam feitas ainda este ano.
Explicações
A falta de planejamento do poder público é justificada por Eliseu Areco pelo fato da prefeitura imaginar que, como a maior parte da demanda se tratava de interligações já consolidadas, seja por estruturas metálicas ou de madeira, os projetos não seriam necessários.
Segundo o titular de Obras, o rigor dos órgãos ambientais aumentou nos últimos dois anos. Isso porque, antes disso, alguns casos de substituição de estrutura metálica pela de concreto foram feitas sem a apresentação prévia de projeto, como a da interligação localizada no trevo da Eny.
De acordo com o secretário, o desenvolvimento de projetos está sendo discutido pela Obras junto à Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma).
Mais madeira
O risco causado por pontes de madeiras existe também na interligação entre bairros na zona urbana, onde o fluxo é ainda maior. A travessia entre o Tangarás e o Parque Bauru, na rua Flávio Paredes Lopes, sobre o córrego Vargem Limpa, é mais um local onde o poder público municipal não agiu com a execução das obras necessárias.
Egnaldo Jesus Silva, morador do Tangarás, passa pelo local diariamente e conta que, frequentemente, as madeiras da ponte quebram, o que exige constante manutenção da prefeitura. Essa situação já impediu, inclusive, que ele concluísse seu trajeto. “Não tinha condição de passar e eu tive que dar meia volta”, lembra.
Outro caso de ponte de madeira que espera a ação - e o projeto - da prefeitura é a que liga o Jardim Mendonça a uma estrada municipal, na rua Malandrino Mondelli. A estrutura passa sobre o córrego Vargem Limpa Norte. No local, há o depósito de grande quantidade de estruturas de concreto, compradas e não utilizadas.
População corre riscos diários ao transpor ponte de estrada municipal
Um dos oito planos de obras de interligações da Secretaria de Obras focava cinco pontos em córregos que cortam estradas municipais. No entanto, apenas dois deles foram executados: além do Trevo da Eny, na estrada que dá acesso às penitenciárias e ao aterro sanitário.
Os outros dois pontos não foram especificados pelo secretário Eliseu Areco, que alegou não ter conhecimento. O último, porém, fica na estrada Capo Novo-Estância, que liga a rodovia Bauru-Piratininga à Estação de Tratamento de Água (ETA). É lá que a reportagem constatou um dos problemas mais graves.
A ponte de madeira está quebrada há três meses, segundo moradores de propriedades rurais da região. Um de seus lados está totalmente danificado, colocando em risco as pessoas que passam por lá diariamente.
Osnei Almerim Jandreche conta que passa pelo local todos os dias, mesmo com o perigo evidente. “A gente sabe que uma hora vai cair”, enfatiza. Ele afirma que os moradores das chácaras do loteamento São José pensam, inclusive, em organizar um abaixo-assinado para ser entregue à prefeitura.
O movimento no local é intenso. Em cinco minutos, três veículos passaram pela ponte na tarde de sexta-feira. A situação é ainda pior porque caminhões atravessam a estrutura precária. Osnei é proprietário de uma empresa de reciclagem de vidro e conta que, quando estão descarregados, os caminhões fazem este caminho. “Quando tem carga, tem que fazer o caminho pela ETA”, pontua.
Ainda não existem
O quarto local onde não ocorreram obras de interligação fica entre o Núcleo Geisel e o Jardim Marambá. Lá, porém, não existe ainda qualquer tipo de estrutura, o que deve exigir maior complexidade nos projetos e nas intervenções. O córrego Água Comprida e grande quantidade de vegetação e áreas descampadas separam os dois lugares.
O ponto do Geisel que deveria receber a interligação fica próximo ao Sambódromo, na rua das Amoreiras. Às margens da via, estão correndo muitas estruturas de concreto, cobertas também pelo mato.
Caso semelhante é o córrego da Grama, que separa o Rosa Branca do Jardim da Grama, na região do Nova Esperança. Próximo à quadra 2 da rua São Sebastião, havia uma pequena ponte de madeira, que não existe mais, segundo moradores. No entanto, pessoas ainda atravessariam o local pelos pontos secos do córrego.