Há economistas, muitos deles ligados ao setor financeiro, que avaliam ser exagerado o posicionamento do governo federal, notadamente da presidente Dilma Rousseff, em relação à necessária queda na taxa de juros. Argumentam que o controle inflacionário ficará mais difícil, que é preciso que a redução seja gradativa, enfim, se posicionam contrariamente às atitudes do atual governo. Querem o quê? Defender o indefensável. É certo que ninguém pode ser leviano e acreditar que é possível desmontar o modelo de controle da economia adotado desde o Real, na década de 1990, mas também não é possível acreditar que este modelo não se esgota e que um dia teria ser alterado.
O que se observou neste período é que o receio geral de se praticar juros mais baixos estava ligado à perda de controle sobre a inflação. Os juros básicos até eram reduzidos em momentos em que o crescimento econômico era prioridade, mas esta queda nunca chegou efetivamente na ponta, para o tomador de recursos no sistema financeiro. Convivemos com inflação em nível de primeiro mundo, mas com a prática da maior taxa de juros do mundo. Os agentes econômicos tiveram que se adaptar a esta realidade, o que resultou em ganhos estratosféricos de quem opera o sistema bancário brasileiro. O privilégio sempre foi para o lado monetário, em detrimento ao lado real da economia. Penso que passou da hora de mudar este estado de coisas. Alimentar este sistema que penaliza o setor privado, inclusive as pessoas físicas, as famílias brasileiras, é fazer vistas grossas às práticas condenáveis no mercado.
Quando há um movimento organizado que monitora e eleva preços em outros setores da economia, como combustíveis, remédios e tantos outros, o governo ameaça aplicar as leis antitrustes, que levam em conta o abuso do poder econômico, mas com o sistema bancário sempre tolerou o que podemos chamar de oligopólio institucionalizado. É preciso ter coragem para enfrentar os magnatas do setor. É preciso inverter o modelo e privilegiar o lado real da economia, forçando o sistema financeiro adotar novo modelo de negócio que leve em conta o ganho em volume, correndo mais riscos e saindo da posição conservadora até então vigente. O governo atual está no caminho certo e terá que se manter firme em sua estratégia. Criticar o discurso da presidente e a nova postura do Banco Central? É, como já colocado, defender o indefensável. Depois de vencer esta etapa, reduzindo efetivamente os juros, na ponta, a política fiscal deverá ser pautada e com ela uma revisão total do modelo tributário brasileiro. Mas vamos por partes, afinal, se conseguirmos a queda dos juros já será um grande avanço.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, presidente da Acib e articulista do JC