08 de julho de 2026
Geral

Um bairro inteiro dá adeus a Vitória

Vitor Oshiro e Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 7 min

 

Nos contos de fadas, após ser envenenada pela vilã, a Branca de Neve acordava com um beijo do príncipe encantado. Na vida real, isto não ocorre. Na vida real, os vilões parecem ser bem mais malvados do que na história da Branca de Neve. Porém, era exatamente esta princesa que estava estampada no pequeno capacete rosa que pertencia à pequena Vitória Graziela. O pai da garota carregou o objeto ontem no enterro dela, no Cemitério Cristo Rei, em Bauru.

 

O sepultamento foi realizado por volta das 17h. Assim como ocorreu mais cedo no velório (leia mais abaixo), praticamente todo o bairro Fortunato Rocha Lima foi se despedir de Vitória. “Ela não merecia isto”, “nós é que devíamos ter pegado este monstro; não a polícia”, “ela era um anjo”, “que coisa absurda” foram expressões comuns.

 

Trazido pelo carro funerário, o corpo da criança chegou acompanhado de outros veículos. O primeiro deles era o pai da vítima, Edilso Fernandes, 43 anos, que veio na moto que a filha tanto adorava. “Sempre que ela escutava o barulho da moto, saía correndo na frente de casa”.

 

Logo atrás, estava a mãe de Vitória, Gislene Aparecida Lopes, 33 anos. Ela desceu do carro apoiada em duas pessoas. E assim seguiu os poucos, porém, longos metros que separavam a entrada do cemitério até a sepultura da garota. Todos dizem que a dor de perder um filho é indescritível, porém, Gislene exemplificava tudo isto.

 

Nos primeiros metros adentro do cemitério, o pai acompanhava o carro. Logo, parou para apoiar a mãe. O casal, que está separado, parecia ter se unido na dor. O abraço apertado e a tentativa de consolo davam a certeza disso. “Ela foi para o céu”, disse Edilso a Gislene.

 

 

 

‘Me devolve’

 

A dor aumentou quando o pequeno caixão com o corpo de Vitória fora colocado na cova. Naquele momento, toda a revolta e sentimento de justiça deram lugar às tristes lágrimas. A cena emocionou a todos.

 

“Me devolve minha filhinha”, disse a mãe de Vitória. Com os olhos fechados, ela pedia para ser levada junto. “Meu Pai, não me deixe aqui. Eu quero ir com ela”.

 

O pai da garota chorava bastante e somente abraçava Gislene. A auxiliar de cozinha começou a passar mal. Ela desmaiou e precisou ser carregada dali. Com a ajuda de amigos, o ex-marido e o filho, ela foi levada até a entrada do cemitério. Antes, porém, deu tempo de dizer: “minha filhinha, leve a mamãe com você”. 

 

Ainda desmaiada, Gislene foi colocada em um carro. Antes de sair com o carro, o homem que a levaria para casa disse: “em dez anos de cemitério, eu nunca vi algo assim”. Não se sabe quem era ele. Sabe-se apenas que foi mais um dos personagens desta história que, de tão trágica, está muito longe de um conto de fadas.

 

 

 

O psicológico do assassino

 

Autor confesso do brutal homicídio, Renato Alexandre Cury Martinelli, 36 anos, já trabalhou de marceneiro, pintor e mecânico. Ele tinha um perfil psicológico bastante conturbado. Ontem, relatou aos policiais que, por conta de sua obesidade, teve a autoestima destruída.

 

De acordo com o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, Renato reconheceu os próprios problemas psicológicos e alegou que eles teriam sido agravados com o uso de remédios. 

 

“Ele disse que, com medicamentos, emagreceu 70 quilos em quatro anos. Contou também que tomava remédios para reposição hormonal. Na versão dele, disse que ficou mais agressivo quando começou a se medicar e que apareceram alguns lapsos de memória”, relata.

 

Renato usa exatamente um desses lapsos de memória como o período argumentativo no qual teria ateado fogo na pequena Vitória. 

 

Ainda em relação ao seu histórico, Renato afirmou que, por ser obeso, sempre teve problemas de relacionamento. “Ele sempre morou com os pais. Como tinha problemas com as mulheres, saía com muitas garotas de programa”, conta Granja.

 

Foi então que viu uma oportunidade de ser “querido” no bairro onde Vitória morava. Após fazer amizades, passou a ajudar as pessoas do local. “Ele alega que era solidariedade. Disse que nunca quis a confiança deles para fazer algo”.

 

Sua ficha criminal realmente não levantava suspeitas do que seria capaz. Contra ele, havia somente um inquérito de furto qualificado, cometido em 2006. Agora, Renato irá responder por muito mais.

 

 

 

‘Ela saiu de casa e disse: Mamãe, já volto. Amo você’

 

O crime que chocou a cidade após o trágico desfecho na noite de anteontem deixou marcas em um bairro todo. Familiares, vizinhos, colegas de escola, professores, crianças e outras dezenas de pessoas se reuniram na manhã de ontem para despedir-se da pequena Vitória, que foi morta por Renato Alexandre Cury Martinelli, ex-namorado de sua mãe. 

 

Inconsolável e carregada por amigos ao velório da filha, Gislene Aparecida Lopes, 33 anos, contou ao JC sobre a última vez em que viu Vitória saindo de casa para brincar na casa da vizinha, na tarde do dia 30 de abril. “Ela estava com uma blusa de frio rosa, uma calça até o joelho e de chinelinho. A última coisa que ela me disse quando saiu foi: Mamãe, já volto. Amo você”, lembra a mulher, chorando. 

 

O velório começou por volta das 10h30 de ontem em uma pequena igreja evangélica localizada na esquina da rua da casa onde Vitória Graziela Fernandes de Lima, de 6 anos, morava com sua mãe, sua avó materna, Ondina de Jesus, 52 anos, e seus três irmãos, Igor Henrique Lopes, 16 anos, Maicon Jeferson Lopes, 13 anos, e Taynara Lopes Simões, 10 anos.

 

Em frente à residência da família na rua Antônio Fábrica, bairro Fortunato Rocha Lima, ainda era possível observar os resquícios da esperança que restava nas cinzas de uma pequena fogueira alimentada até anteontem à noite na sarjeta da casa pelos vizinhos e familiares de Vitória. 

 

“Acendemos a fogueira para espantar o frio e ficamos à espera de alguém aparecer com ela. Passamos a noite na esperança. O pai dela ia e voltava na esquina, nervoso com a situação. Achávamos que ela voltaria a qualquer hora”, relata a faxineira e vizinha da família, Aparecida dos Santos, 36 anos.

 

A menina desapareceu na tarde da última segunda-feira após ser vista com o acusado e foi encontrada pela polícia por volta das 22h30 desta quarta-feira, após Martinelli confessar ter agredido e ateado fogo ao corpo da criança em um matagal no Jardim Manchester. 

 

 

 

Vingança?

 

“Por todo tempo eu senti que acharia minha filha com vida”, ressalta a mãe da vítima, que não escondia a raiva do assassino. “Eu sempre disse pra que ela não ficasse na rua, ele (Martinelli) tinha ciúme do pai dela. Eu acredito que ele fez isso pra se vingar, foi por pura vingança”, afirma a mulher, que passou a noite sendo medicada no Pronto-Socorro Central (PSC) após saber da morte de Vitória. 

 

Há aproximadamente um ano, Gislene e Martinelli tiveram um relacionamento que teria durado menos de um mês. Segundo as informações divulgadas pelo JC na edição de ontem, desde o desaparecimento a mulher negava conhecer o acusado, mas na tarde de anteontem ela acabou confirmando o relacionamento. Na ocasião, relatou que o namoro teria acabado por conta do comportamento possessivo do acusado. 

 

Segundo o relato da avó materna da vítima, a dona de casa Ondina de Jesus, durante o relacionamento da filha ela conta que chegou a afugentar Martinelli da casa onde Gislene moraria com ela e os filhos em uma ocasião. “Um dia ele apareceu aqui em casa com ela (Gislene) e eu ‘toquei’ ele daqui. Disse que ela tinha direito de fazer o que quisesse, mas do portão para fora. Meu neto também não gostava dele”, conta a avó da vítima.

 

 

 

Revolta

 

O clima presenciado no velório da garota, tanto em relação aos amigos, conhecidos e familiares era de revolta. A mãe da vítima, assim como a avó, repetiam por todo momento a raiva que sentiam do acusado por conta do crime. “Ele arrancou ela de nós para fazer maldade, isso não tem explicação. Ela era apenas um criança indefesa. Isso não é um ser humano”, lamenta a avó da vítima, Ondina de Jesus.

 

O garçom Joel Aparecido Alves, 20 anos, também amigo da família e morador há 12 anos do Fortunato Rocha Lima, esteve presente no velório de Vitória na manhã de ontem. Assim como todos os amigos e conhecidos, ele também não se conformava com a morte. “Há duas semanas a mãe delas precisou viajar e eu cuidei deles. Ela (Vitória) e a Taynara ficaram em casa. Ela era um amor de pessoa, se apegava a qualquer um. Chegava e abraçava, não tem explicação fazer isso com uma criança, não tem explicação”, repetia o rapaz, que chorava o tempo todo do lado de fora do velório da criança.