08 de julho de 2026
Geral

Acusado diz não lembrar do crime

Vitor Oshiro e Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 8 min

Enquanto familiares e amigos davam o último adeus à pequena Vitória Graziela Fernandes de Lima, 6 anos (leia mais abaixo), a Polícia Civil colhia o depoimento do assassino confesso da garota. Ao fim, um misto de sentimentos tomou conta dos policiais: a tristeza de não terem conseguido encontrar a criança com vida junto com o alívio de ter tirado alguém com problemas psicológicos perigosos das ruas.

Renato Alexandre Cury Martinelli, 36 anos, voltou à Delegacia de Investigações Gerais (DIG) ontem. Ouvido durante quase toda a tarde pelo titular da unidade, Kleber Granja, ele disse que “não se lembra” do momento em que ateou fogo no corpo da criança.

 

“Ele relatou que levou a Vitória no local do crime e ela estava se balançando nas ‘barras’ da torre de energia. Do nada, revelou que pegou a cabeça dela e bateu duas ou três vezes contra a torre. Disse não saber o porquê de ter feito isto”, relata o delegado.

 

Renato teria dito ainda, em depoimento, que “apagou” depois de ter agredido a criança. “Ele disse que teve um lapso e só acordou quando percebeu uma espécie de explosão, sentindo o calor do fogo. Depois disso, ele correu”.

 

Questionado se havia percebido que havia assassinado a pequena Vitória, ele alega que não. Porém, mesmo assim, resolveu ir para Guaianás, onde mantinha algumas amizades. Lá, ficou em um sítio desde segunda-feira até a manhã de quarta. “Ele abandonou o carro nesta propriedade. Foi a pé para o Centro do distrito, onde se deparou com a Polícia Militar. Foi então que ele fugiu e se escondeu no matagal. Depois, vocês conhecem a história”, completa o titular da DIG.

 

“Uma pessoa com problemas psicológicos, porém, perfeitamente imputável (que tem a posse de suas faculdades mentais)”. É esta a conclusão que Kleber Granja chegou sobre Renato Martinelli. Tal perfil deixou um misto de alívio e tristeza no delegado. 

 

“A morte da Vitória não foi em vão. Toda a equipe queria entregá-la com vida e ficamos muito tristes. Mas ele tinha um perfil problemático. Podia virar um assassino em série. Esta prisão evitou a morte de outras vítimas”, aponta. 

 

Por conta desta característica psicológica conturbada, a Polícia Civil ainda investiga se Renato está ligado a outros homicídios semelhantes.

 

 

 

Premeditado?

 

Apesar de ter confessado o crime bárbaro, Renato Martinelli sustenta a versão de que não foi algo premeditado. Entretanto, o passo a passo antes do crime vai em direção contrária ao que o assassino argumenta.

 

Renato teria ido na tarde de segunda-feira até o Fortunato Rocha Lima, porém, na versão dele, seria Vitória quem teria pedido para dar uma volta de carro. “De lá, ele passou na casa dos seus pais e pegou duas caixas de fósforos. Depois, foi até um posto de combustível com R$ 50,00. Pediu para abastecer o tanque com álcool e colocar cinco litros de gasolina em um recipiente plástico separado”, relata Kleber Granja.

 

Foi exatamente esta gasolina que fora utilizada para queimar o corpo da garota. O fato de Renato ter adquirido o combustível e os fósforos – algo que foi confirmado pelo próprio pai do autor do crime – indicariam premeditação.

 

Após ser ouvido, Renato Martinelli foi indiciado por homicídio triplamente qualificado, sequestro qualificado e ocultação de cadáver. Ainda ontem, ele foi transferido para a Cadeia Pública de Barra Bonita. “É uma cadeia segura. Em qualquer outro lugar, ninguém o aceitaria”, conclui o delegado.

 

 

 

Exames apontam que ela foi queimada viva

 

De acordo com o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, os exames preliminares realizados no local onde a pequena Vitória foi encontrada apontam que ela fora queimada ainda com vida. Somente o laudo do legista, entretanto, poderá confirmar o fato.

 

“No local do crime, tanto o delegado responsável quanto o perito fazem exames no corpo. Nestes exames, alguns traços indicam que a criança realmente foi carbonizada com vida”, explica.

 

O delegado aponta que um desses traços foi a posição fetal em que a criança foi encontrada. “A posição das mãos protegendo os olhos indica isso”. Outro ponto é a musculatura. “É uma reação ao calor. Os nervos travam. As mãos dela estavam assim”, finaliza.

 

 

 

Abusos?

 

Uma das maiores dúvidas que ficou sobre a tragédia foi se Renato Martinelli abusou sexualmente de Vitória Graziela. Ontem, no depoimento, ele negou qualquer tipo de abuso. E, pelo estado em que o corpo foi encontrado, a dúvida deve permanecer. “Não foi possível realizar qualquer exame para comprovar isto”, aponta o delegado Kleber Granja. Ainda ontem, Renato teria rebatido a outra denúncia de pedofilia com outra garota, de 5 anos, feita por uma vizinha de Vitória.

 

 

 

Impacto até na polícia

 

Conforme divulgado na edição de ontem, a própria equipe da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) ficou abalada com o encontro do corpo de Vitória Graziela. “Nossa maior meta era entregá-la com vida. Apesar de ele ter sido preso, é uma sensação de dever não cumprido”, aponta o titular da unidade, Kleber Granja, que, na cena do crime, chegou a dizer que aquela era a imagem mais chocante em 23 anos de trabalho.

 

Ontem, o delegado confirmou o impacto do crime na equipe e disse que foi preciso calma para separar o lado humano do profissional. “Foi muito difícil. Olhava para o lado e via policiais com o mesmo tempo de serviço que eu com a cabeça baixa e lágrimas nos olhos. A maioria aqui é pai. Isto realmente foi complicado”.

 

 

 

Na DIG: ‘Estou arrependido’

 

A reportagem do JC teve contato com Renato Alexandre Cury Martinelli enquanto ele aguardava a transferência para a Cadeia Pública de Barra Bonita. Com a cabeça baixa, ele se limitou a dizer: “estou arrependido”.

 

Questionado se matou Vitória por raiva da mãe da garota, disse que “esclareceu tudo ao delegado”. Depois, quando a reportagem perguntou se ele estava com medo do que viria a partir de agora, Renato apenas abaixou a cabeça e se calou.

 

 

 

Dias dramáticos

 

A tragédia da pequena Vitória Graziela Fernandes, de 6 anos, começou na segunda-feira, quando ela sumiu por volta das 15h30 nos entornos da rua Nove, no Bairro Fortunato Rocha Lima. Quando foi vista pela última vez, ela brincava com alguns amigos na casa de uma vizinha.

 

Desde o sumiço, as suspeitas se voltaram a Renato Alexandre Cury Martinelli, 36 anos. Ele, que teve um relacionamento com a mãe da vítima há cerca de um ano, teria sido visto - algo confirmado ontem por testemunhas - com a pequena Vitória momentos antes do seu desaparecimento.

 

Após várias buscas da família e da polícia, a criança não foi localizada. Só na manhã de anteontem, houve uma novidade, quando o carro do principal suspeito fora encontrado pela Polícia Militar no distrito de Guainás (28 quilômetros de Bauru).

 

Horas mais tarde, Renato Martinelli saiu de um riacho e se entregou para a Polícia Civil perto de onde o carro foi encontrado. Ele negou o crime durante todo o dia, porém, no fim da noite, acabou confessando o homicídio e levando os policiais ao local onde o corpo estava. A pequena Vitória foi encontrada carbonizada em um matagal nos fundos do Parque Manchester.

 

 

 

Rituais?

 

Outra hipótese aventada em torno do mistério foi uma possível motivação do crime pelo fato de Renato Martinelli estar envolvido com rituais de magia. Além de pessoas que confirmaram este envolvimento, fotos de rituais foram encontradas em uma câmera digital no carro do autor. 

 

“Ele negou isso. Disse que somente frequentava as festas desses rituais. E esta é uma hipótese quase descartada”, explica o delegado Kleber Granja.

 

 

 

Sociopatia ou pedofilia podem estar relacionadas ao crime, aponta psiquiatra

 

Questionado quanto aos motivos que podem levar uma pessoa a cometer atos de barbárie como o assassinato da pequena Vitória Graziela Fernandes de apenas 6 anos, o psiquiatra e psicanalistaJoão Maurício Bolzan, aponta que os transtornos de personalidade antissocial como a sociopatia podem estar relacionados com estes tipos de crimes.

 

“O sociopata, diferentemente do psicopata, age violando regras, valores sociais e limites com objetivo de desafiar e até lesar outras pessoas. O psicopata agiria lesando a si próprio. No caso da menina é preciso um estudo detalhado, mas pelas características do crime, o fato de ter sido ateado fogo ao corpo mostra que o assassino pretendia esconder ou dificultar a identificação de algo e da situação”, aponta o psiquiatra.

 

Para ele, a sociopatia e a pedofilia não devem ser descartadas ao longo das investigações. “O sociopata é consicente de seus atos e tem um prazer íntimo em praticar violações. Sejam elas de cunho financeiro, sexual, ou criminoso”, completa.

 

O sujeito sociopata, segundo explica Bolzan, não apresentaria uma característica física que o difere das demais pessoas. O desenvolvimento da sociopatia também não teria distinção de classes, raça ou sexo para acontecer. 

 

Apesar de apresentar algumas características que podem levar ao diagnóstico precoce no paciente, Bolzan ressalta que o transtorno somente poderia ser constatado após um estudo detalhado da vida da pessoa ou de situações que envolvam o sociopata em algum tipo de crime. Além de não se importar com o que os outros pensam a seu respeito, o sociopata pode repetir um mesmo delito por diversas vezes, não importando o espaço de tempo entre eles.

 

Ainda de acordo com o médico, situações que fazem a pessoa acreditar que estaria acima do bem e do mal, como uma crença indiscriminada em qualquer coisa ou religião, também poderia ajudar no desenvolvimento da sociopatia, que está diretamente relacionada a fatores genéticos, ambientais, familiares, neurológicos e sociais.

 

“O sociopata tem prazer em violar regras sociais, não gosta de ser mandado por ninguém, não respeita os limites sociais, tem uma emoção ressaltada que direciona seu comportamento, pode apresentar impulsividade, agressividade e não tem perspectiva de futuro. Um sociopata dificilmente consegue subir na vida profissional, pois fica focado naquelas situações que traça e esquece de outras”, enfatiza o psiquiatra, que ressalta o fato de que a ingestão descontrolada de medicações, apesar de alterar o organismo e influenciar o desenvolvimento de transtornos, não seria um fator determinante. É preciso ter pré-disposição.