09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Marcello Zanluchi surano simon

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

A voz que cantou para os papas

 

Voz marcante. Um tenor. Marcello Zanluchi Surano Simon tem 30 anos de idade e quase 20 anos de dedicação à música. Se o ditado popular diz que “quem tem boca vai a Roma”, ele foi além. Marcelo não só conheceu pessoalmente os papas João Paulo II e Bento XVI, como teve a oportunidade de cantar para eles: “As duas ocasiões, distintas, foram um presente para mim”.

 

O encontro mais recente com Bento XVI ocorreu depois da apresentação de parte do seu trabalho como mestrando da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru sobre a imagem do papa na imprensa brasileira durante um congresso de comunicação institucional: “Fui cumprimentar o papa e, no impacto da emoção, decidi cantar para ele uma música em latim cuja tradução é “Esse é o grande sacerdote”.

 

Gerente de operações e professor de ética e cultura religiosa na Universidade do Sagrado Coração (USC) e coordenador diocesano da Pastoral da Comunicação, Marcelo também fala sobre vida religiosa, carreira como cantor, família e o prazer das viagens. “Meu sonho é ser santo. E ser santo, hoje, é entregar um bom trabalho, ser um bom pai, um bom amigo, ser mais justo, mais fraterno, mais caridoso...E tem tanta gente santa no nosso meio. Ainda não tenho essa santidade, mas estou em busca disso”. Leia mais, a seguir. 

 

 

 

Jornal da Cidade - Quando você se ouviu cantor pela primeira vez?

 

Marcello Zanluchi Surano Simon - Minha relação com a música começou quando eu ainda era um cantor de banheiro, aos 12 anos de idade. Comprei uma coleção de música clássica em uma banca de jornal de Avaré e imitava o que eu ouvia, mas não tinha perspectiva de nada. Meus pais ouviam e acreditavam que eu tinha talento. Mas foi no Coral Municipal de Avaré que eu me descobri como cantor e que me descobriram também. A regente do coral fez uma seleção de voz e me colocou para cantar no meio da mulherada. Mais tarde, com um pouco mais de maturidade vocal, eu passei a ser tenor. O cantar me trouxe pessoas queridas e acredito que, com o meu canto, eu consegui fazer muitas pessoas felizes. Já cantei para pessoas em estado terminal e, em shows, já ouvi que a minha música causou alegria imensa a quem precisava de conforto. Isso não tem preço.

 

 

JC – E por falar em show, como foram as suas apresentações no programa do Raul Gil?

 

Marcello – Foram três participações. A primeira foi em 2001 com oito meses de apresentações. Em 2005, foram mais seis meses de participações e, em 2011, três. Foi uma grande vitrine para minha carreira. Depois do Raul percorremos muitos lugares. Ele é nosso padrinho. São poucos os artistas que cantam músicas italianas e isso não é por falta de público, mas sim de incentivo. Independente de classe social, escolaridade, ou seja lá o que for, as pessoas gostam e aplaudem. 

 

 

JC – Já passou por poucas e boas nas andanças pelos shows?

 

Marcello – Ah, sim. Eu e Ricardo, meu parceiro de dupla, já temos quase 20 anos de carreira. Antes das apresentações no Raul Gil e até um pouco depois, as coisas não eram arrumadinhas e certinhas. A gente vivia em estrutura precária e andávamos em uma caminhonete de 1975, alugada. O engraçado é que a gente andava em quatro pessoas e um ia deitado no meio da aparelhagem. Uma vez a polícia nos parou e precisamos dar um jeito de continuar. Mas a disputa era mesmo maior para ir atrás, porque a pessoa viajava deitada. Apesar de tudo a gente se divertia (risos). Temos um CD que saiu há dois anos e agora estamos finalizando um DVD de Natal. 

 

 

JC – Já tinha imaginado cantar para um papa?

 

Marcello – De maneira alguma. Nunca. 

 

 

JC – E acabou cantando para dois (risos)!

 

Marcello – Pois é. Fui aprovado para realizar um estágio na Rádio Vaticano, pouco antes de terminar a faculdade de jornalismo. Fiquei quatro meses morando em Roma, no ano de 2004. Eu sempre gostei muito da relação da comunicação com a religião, que sempre foi um ponto muito importante da minha vida. Devo isso à minha avó, que está com 91 anos e que me colocou no caminho do catolicismo. Fui estudar comunicação para tentar entender a relação dela dentro da Igreja Católica e acabei conseguindo ir para o Vaticano, estágio que abriu muitas portas para mim. 

 

 

JC – E como chegou até o Papa João Paulo II?

 

Marcello – Isso foi um presente que eu recebi no último dia de estágio. Poder cumprimentar o papa cinco meses antes da sua morte foi um presente muito grande. Quando eu cantei para ele, eu estava com o meu parceiro de dupla, o Ricardo. Isso foi em meados de junho de 2004, em uma outra situação.  

 

 

JC – E como você conseguiu cantar para o Papa Bento XVI?

 

Marcello – A história com o Bento XVI é bem interessante. Quando eu trabalhava no Vaticano eu atravessava a Praça de São Pedro para ir para casa. E quando eu conheci o papa atual, ele ainda era cardeal e gostava de alimentar pombos e gatos da praça. Ele gosta muito de animais, principalmente gatos, e é uma pessoa muito amável. Ele me cumprimentava, perguntava coisas sobre o Brasil... Enfim, ele mostrava amabilidade. E, quando ele assumiu como papa, eu vi que houve uma mudança de posicionamento. Ele começou com uma identidade negativa muito grande construída, principalmente, por ele ser alemão e ser prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, ele era o guardião da fé católica. Eu vi isso tudo como um sinal de que eu poderia estudar a imagem de Bento XVI na imprensa brasileira. Como o brasileiro enxerga o papa sendo um país de maioria católica? Entrei no mestrado para estudar isso tudo. Em 2007, fui chamado para ajudar na primeira visita do papa ao Brasil. Ajudei na parte televisiva. Foi um trabalho de mais de um mês em São Paulo e em Aparecida. Depois disso, em 2008, fui chamado novamente no Vaticano para um congresso sobre missão e identidade de rádios católicas, e também tive a oportunidade de encontrar com o papa, mas não tão de perto como aconteceu dessa vez. 

 

 

JC – Como tudo aconteceu dessa vez?

 

Marcello - Eu fui a um congresso apresentar uma parte desse meu trabalho sobre a imagem do papa na imprensa brasileira e acabamos sendo recebidos. Foi um presente mesmo e, no impacto da emoção, eu decidi que deveria cantar para ele. Ele nunca colocou uma barreira na relação dele com a música, ele toca piano e gosta muito de música clássica. Na verdade foi uma quebra de protocolo minha e dele também, porque ele apertou minha mão e disse que eu sou um belo cantor. Então saí rápido da presença dele, também por uma questão de protocolo, já que havia muitas outras pessoas para cumprimentá-lo. 

 

 

JC – E o que você cantou para ele?

 

Marcello – Eu cantei uma música em latim cuja tradução é: “Esse é o grande sacerdote”. Ele estava comemorando 85 de idade e sete anos de papado. 

 

 

JC – A comunicação na religião sempre foi o seu objetivo?

 

Marcello – Sim. Se há um plano de vida para mim é esse: a comunicação na religião. Outro dia eu estava fazendo um balanço da minha vida, o balanço dos 30 anos, e descobri que eu não tenho medo da morte. Já estou preparado para ela. Eu quero viver muitos anos, mas eu não temo a morte. Já vivi muita coisa e sei que vou viver muito mais. E nessa balança dos 30 anos, eu vi que a primeira coisa que eu busco é a santidade. 

 

 

JC – E o que é ser santo, hoje?

 

Marcello – Não é muito diferente daquilo que a gente já faz. Não falo de um santo venerado no altar. Ser santo, hoje, é você entregar um bom trabalho, ser um bom pai, um bom amigo, é ser mais justo, mais fraterno, mais caridoso...Cumprir o que me foi proposto pelo batismo. E tem tanta gente santa no nosso meio que acho que o mundo ainda não sucumbiu porque há muita gente assim. Ainda não tenho essa santidade, mas estou em busca disso.

 

 

JC – O que a família representa para você?

 

Marcello – Passamos uma certa dificuldade financeira, mas eu soube enxergar uma honestidade muito grande dentro da minha casa. Meus pais não conseguiam engravidar e essa espera aconteceu nos meados da primeira visita de João Paulo II no Brasil. Minha mãe acompanhou toda a viagem pela televisão e nos momentos ao vivo, ela acendia uma vela e pedia para que o papa intercedesse para que eles conseguissem engravidar. Bem, nasci no final de 1981 e minha vida sempre esteve ligada à história dos pontífices. 

 

 

JC – Viajar também é um hobby. Quais foram as suas viagens marcantes?

 

Marcello – Eu já passei por alguns lugares dos Estados Unidos, França, Alemanha, Áustria, Portugal, Itália, mas Roma me marca muito. É uma cidade que está no meu coração e que eu gostaria muito de morar. Em Roma eu respiro religião e história. É uma cidade que já foi considerada cabeça do mundo. 

 

 

JC – Um sonho.

 

Marcello – Meu plano de vida é ser santo, como eu disse, e um segundo sonho é trabalhar com comunicação no Vaticano. Vou desenvolver um trabalho de comunicação para a Jornada Mundial da Juventude a pedido do comitê de organização da jornada. Com a visita do papa, eles esperam a reunião de 4 milhões de pessoas no Rio de Janeiro, no ano que vem. A Igreja precisa muito de comunicadores e se abre para a comunicação como nunca antes se abriu. 

 

 

 

Perfil

 

Nome: Marcello Zanluchi Surano Simon 

Idade: 30 anos 

Local de Nascimento: Avaré/SP 

Esposa: Luciana Galhardo Batista Simon 

Hobby: Rezar, cantar e viajar 

Livro de cabeceira: “Liturgia das Horas”

Filme preferido: “Mudança de Hábito” 

Estilo musical predileto: Música Clássica 

Time: Palmeiras

Para quem dá nota 10: Aos que promovem a caridade 

Para quem dá nota 0: À corrupção

E-mail: Marcello.zanluchi@usc.br